Durante o tempo de quase dez batidas do coração, as mulheres permaneceram ali, sem nem piscar, como se quisessem demonstrar que não dariam um único passo para lhe obedecer. Então Demira assentiu, em um movimento minúsculo, e se virou. Quando passou por Seonid e Rafela, as duas a seguiram, e as outras também, uma de cada vez, todas deslizando suavemente e sem pressa, percorrendo os ladrilhos vermelhos e brancos até saírem do Grande Salão.
Rand desceu do estrado enquanto as mulheres ainda desapareciam corredor adentro.
— O Car’a’carn lidou bem com elas — opinou Melaine, alto o bastante para ser ouvida de todos os cantos. — É preciso ser duro com as Aes Sedai para elas aprenderem o que é honra, mesmo que isso as faça chorar.
Bael não conseguia esconder o desconforto por ouvir falarem daquele jeito sobre Aes Sedai.
— Será que também não é assim que se deve lidar com as Sábias? — indagou Rand, abrindo um sorriso.
Melaine baixou a voz e mexeu no xale, irritada.
— Não seja tolo, Rand al’Thor.
Bael deu uma risadinha, o que fez a esposa cravar os olhos nele. Bem, pelo menos Rand conseguira arrancar uma risada. Ainda assim, não achou muita graça na própria piada, e não só por causa da proteção do Vazio. Quase queria ter deixado Min comparecer. Havia muitas jogadas ocultas por ali, muito que ele não conseguia compreender, e temia que houvesse ainda outras que ele sequer percebia. O que aquelas mulheres queriam de verdade?
Min fechou a pequena porta do quarto de vestir, recostou-se em um painel de parede escuro com um leão entalhado e respirou bem fundo. Faile fora buscar Perrin para tratar de alguma coisa, e apesar de Loial ter protestado, alegando que Rand queria que ela ficasse ali, o Ogier acabara sucumbindo a seu argumento de que Rand não tinha o direito de obrigá-la a fazer o que fosse. Era óbvio que, se Loial tivesse alguma noção do que ela pretendia fazer, talvez tivesse tentado segurá-la — com toda a gentileza, claro — e ficado no pátio lendo para ela.
A questão era que, mesmo tendo ouvido tudo, não vira muita coisa além das Aes Sedai se agigantando diante do trono e do estrado. Deviam estar canalizando, o que em geral obscurecia as imagens e auras, mas Min ficara tão pasma que sequer teria percebido se houvesse alguma imagem para ver. Quando enfim se recompôs, as Aes Sedai já estavam menores, e a voz de Demira não vinha mais de todas as direções.
Min começou a pensar, desesperada, mordiscando o lábio inferior. Até onde via, tinha dois problemas, e o primeiro era Rand e suas exigências de respeito, o que quer que ele quisesse dizer com aquilo. Se esperava que Merana fosse fazer mesuras até enterrar a cabeça no chão, teria que esperar sentado. Depois do que ele fizera, elas decerto estariam zangadas. Devia haver alguma maneira de pôr panos quentes, só precisava saber como. O segundo problema eram as Aes Sedai. Rand parecia achar que aquilo era alguma espécie de rompante que ele conseguiria aplacar caso se posicionasse com firmeza, mas Min não achava que as Aes Sedai tinham rompantes. E, se tivessem, estava convencida de que aquilo era mais sério. Ainda assim, só conseguiria descobrir do que se tratava de volta na estalagem.
Depois de pegar Rosa no estábulo, foi trotando com a égua baia de volta para a estalagem, onde a deixou com um cavalariço orelhudo, pedindo que o animal fosse esfregado e alimentado com um pouco de aveia. A égua galopara com presteza até o Palácio, então merecia uma recompensa por ter ajudado a frustrar o plano de Merana e das outras. Considerando a fúria gélida na voz de Rand, Min não sabia dizer o que teria acontecido caso ele acabasse descobrindo tarde demais, e de surpresa, que sete Aes Sedai o esperavam no Grande Salão.
O salão da estalagem parecia quase o mesmo de quando ela zanzara apressada pelas cozinhas, mais cedo. Havia Guardiões às mesas, alguns jogando dominó ou pedras, outros lançando dados. Quase como se fossem um, todos ergueram o olhar quando ela entrou; então, reconhecendo-a, retomaram o que estavam fazendo. A Senhora Cinchonine estava de pé diante da adega — nada de barris de cerveja e vinho empilhados ao longo da parede do salão, não naquela estalagem —, de braços cruzados e uma expressão amarga no rosto. Os Guardiões eram os únicos clientes e, via de regra, bebiam pouco e muito raramente. Uma boa quantidade de canecas e copos de estanho repousava sobre as mesas, mas, pelo que viu, estavam intocados. E também viu um homem que poderia estar disposto a lhe contar certas coisas.
Mahiro Shukosa estava sentado, sozinho, tentando decifrar alguns quebra-cabeças de taverna. As duas espadas que costumava usar às costas ainda estavam à mão, apoiadas na parede. Com os cabelos já meio grisalhos nas têmporas e um nariz nobre, Mahiro tinha uma beleza meio grosseira, e só uma mulher apaixonada diria que ele era bonito. Um lorde de Kandor, já tinha visitado as cortes de quase todas as terras e viajava sempre com uma pequena biblioteca. Mahiro ganhava e perdia jogatinas com o mesmo sorriso fácil, mas sabia recitar poesia e tocar harpa, além de dançar como um sonho. Em suma: exceto por ser Guardião de Rafela, era exatamente o tipo de homem de quem Min gostava antes de conhecer Rand — e ainda gostava, na verdade, quando conseguia olhar para quem fosse sem pensar em Rand. Para sua sorte — ou seu azar —, Mahiro a via de um jeito que Min suspeitava de que fosse peculiar de Kandor: uma espécie de irmã mais nova que, vez ou outra, precisava de alguém para conversar e lhe dar conselhos de forma a não acabar quebrando o pescoço enquanto fazia suas maluquices. Mahiro dizia que ela tinha pernas bonitas, mas que jamais pensaria em tocá-las e que quebraria o pescoço de quem pensasse em fazer isso sem a permissão dela.
Deslizando as intrincadas peças de ferro com toda a destreza de volta para os lugares, Mahiro deixou o quebra-cabeças na pilha dos que já solucionara e pegou um da outra pilha enquanto Min se sentava à sua frente.
— E aí, repolhinha — cumprimentou ele, abrindo um sorriso. — Vejo que voltou com o pescoço intacto, não foi sequestrada e ainda está solteira.
Algum dia ainda ia perguntar o que significava aquela frase que ele sempre repetia.
— Aconteceu alguma coisa depois que eu saí, Mahiro?
— Fora as irmãs voltando do Palácio parecendo uma tempestade nas montanhas?
Como era de se esperar, o quebra-cabeças foi solucionado como se ele tivesse canalizado.
— Por que ficaram tão irritadas?
— Imagino que tenha alguma coisa a ver com al’Thor. — O quebra-cabeças voltou à posição inicial com a mesma rapidez, então foi jogado na pilha de descartes. O seguinte da pilha de ainda não solucionados também passou direto para a segunda. — Já resolvi esse há uns anos — explicou.
— Mas como, Mahiro? O que aconteceu?
Os olhos escuros a encararam. Se os leopardos tivessem olhos quase negros, seriam como os de Mahiro.
— Min, um potro que enfia o focinho na toca errada pode acabar perdendo as orelhas.
Min se retraiu. Era verdade. Ah, as tolices que uma mulher fazia por amor…
— É o que eu quero evitar, Mahiro. Só estou aqui para levar mensagens entre Merana e o Palácio, mas sempre entro lá sem a menor ideia de em que estou me metendo. Não sei por que as irmãs pararam de encontrar com ele todos os dias, nem por que voltaram e nem por que várias foram lá hoje, em vez de apenas três. Se eu não souber, posso acabar sem mais que as orelhas. E Merana não vai contar, ela nunca me fala nada que não seja “vá lá e faça isso”. Só uma dica, Mahiro. Por favor.
O homem analisou o quebra-cabeças em suas mãos, mas Min soube que ele estava pensando em outra coisa só de ver que as peças interligadas se moveram entre seus dedos compridos, mas nada se soltou.
Uma movimentação nos fundos do salão chamou sua atenção, e Min começou a virar a cabeça — até que congelou. Duas Aes Sedai voltavam do banho, a julgar pelo aspecto de quem acabara de se lavar. Fazia meses que não via aquelas duas, desde que tinham deixado Salidar com base no palpite de Sheriam de que Rand estava em algum lugar do Deserto Aiel. Bera Harkin e Kiruna Nachiman tinham ido para o Deserto, não para Caemlyn.