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Não fosse o rosto de idade indefinida, Bera pareceria uma mulher de fazendeiro qualquer, com seu cabelo castanho curto emoldurando o rosto quadrado. Mas, naquele momento, aquele rosto estava determinado e carrancudo. Kiruna, sempre elegante e muito escultural, parecia exatamente quem era: irmã do Rei de Arafel, uma lady poderosa por direito. Seus enormes olhos escuros reluziam como se ela estivesse prestes a ordenar uma execução com todo o prazer. Imagens e auras piscavam ao redor das duas, como sempre acontecia com Aes Sedai e Guardiões. Uma em especial chamou a atenção de Min, piscando em volta das duas mulheres ao mesmo tempo, tudo em um tom amarelo amarronzado somado a um púrpura intenso. As cores em si não significavam nada, mas aquela aura fez Min perder o fôlego.

A mesa não ficava longe do pé da escada, mas as duas nem olharam para Min quando se viraram para subir. Nenhuma nem mesmo olhara para ela com atenção, quando estavam em Salidar, e agora estavam absortas em sua própria conversa.

— Alanna já deveria ter botado ele em seu lugar faz tempo. — Kiruna falava baixo, mas a raiva em sua voz era quase explícita. — Era o que eu teria feito. Quando ela chegar, vou falar o que penso, e que o Tenebroso carregue a formalidade.

— Deveriam amarrar logo uma rédea nele — concordou Bera, em um tom neutro —, antes que ele possa fazer mais mal a Andor. — Ela era andoriana, afinal. — E quanto antes, melhor.

Conforme as duas foram subindo os degraus, Min percebeu o olhar de Mahiro fixo nela.

— Como elas vieram parar aqui? — perguntou, surpresa por como a voz parecia perfeitamente normal.

Com Kiruna e Bera, já eram treze. Treze Aes Sedai. E aquela aura.

— Elas seguiram as notícias de al’Thor. Estavam na metade do caminho para Cairhien quando ouviram que ele estava aqui. Eu ficaria longe delas, Min. Os Gaidin das duas disseram que elas estão de mau humor.

Kiruna tinha quatro Guardiões, e Bera, três.

Min conseguiu abrir um sorriso. Queria dar no pé da estalagem, mas isso levantaria suspeitas até em Mahiro.

— Acho que é um bom conselho. E a minha dica?

O sujeito hesitou por mais um momento, então pousou o quebra-cabeças na mesa.

— Não vou dizer o que é nem o que não é, mas, para bom entendedor… Talvez al’Thor esteja irritado. Talvez seja bom pensar em perguntar se outra pessoa não pode entregar as mensagens, quem sabe um de nós. — Ele estava falando dos Guardiões. — Talvez as irmãs tenham decidido ensinar a ele uma lição sobre humildade. E isso, repolhinha, talvez seja um pouco mais do que eu deveria ter dito. E então, vai pensar a respeito?

Min não sabia se a “pequena lição” era o que acontecera no Palácio ou se era algo que ainda estava para acontecer, mas tudo se encaixava. E aquela aura…

— Também me parece um bom conselho. Mahiro, se Merana vier me procurar para levar alguma mensagem, pode dizer que eu vou passar os próximos dias visitando a Cidade Interna?

— Uma longa jornada. — Ele deu uma risadinha zombeteira, mas gentil. — Se não tomar cuidado, vai acabar sequestrando um marido.

O moço orelhudo da estrebaria olhou surpreso quando Min insistiu para que ele tirasse Rosa da cocheira e a encilhasse outra vez. Deixou o pátio do estábulo a um passo tranquilo, mas, logo que a primeira curva fez A Coroa de Rosas sumir de vista, enfiou os calcanhares na égua, fazendo a multidão pular para sair do caminho quando partiu a galope direto para o Palácio, correndo o máximo que Rosa podia.

— Treze — repetiu Rand, em um tom neutro.

Foi o suficiente para Lews Therin tentar tomar outra vez o controle de saidin. Rand entrou em uma luta muda contra aquela fera, que rosnava e mostrava os dentes. Assim que Min falou que, na verdade, havia treze Aes Sedai em Caemlyn, Rand mal conseguiu agarrar o Poder antes de Lews Therin se lançar para cima da Fonte. O suor escorria por seu rosto, e manchas escuras se espalhavam pelo casaco — só conseguia se concentrar em manter saidin fora do alcance de Lews Therin. Um músculo da bochecha pulsava com o esforço. A mão direita tremia.

Min parou de andar a passos rápidos de um lado para o outro, cruzando o tapete da sala quase pulando de ansiedade.

— Não é só isso, Rand — alertou, desesperada. — É a aura. Sangue, morte, o Poder Único, aquelas mulheres e você… tudo ao mesmo tempo e no mesmo lugar. — Estava outra vez com os olhos brilhando, mas agora as lágrimas escorriam livremente pelas bochechas. — Kiruna e Bera não gostam de você, nem um pouco! Lembra-se daquela visão que tive sobre você? Mulheres capazes de canalizar lhe fazendo mal. As auras, e as treze, e tudo… Rand, é coisa demais!

Min sempre dizia que suas visões todas as vezes se tornavam realidade, mas nunca podia afirmar se isso aconteceria dali a um dia, um ano ou dez — e, se permanecesse ali em Caemlyn, Rand achava que seria questão de dias. Mesmo que a voz se limitasse a um rosnado em sua cabeça, sabia que Lews Therin queria atacar Merana e as outras antes que elas tivessem qualquer chance de atacá-lo. Aliás, aquela ideia lhe parecia tão atraente que chegava a ser desconfortável. Talvez fosse apenas obra do acaso, algo como sua distorção de ta’veren se voltando contra ele, mas não dava para negar os fatos: Merana decidira desafiá-lo no mesmíssimo dia em que passou a haver treze Aes Sedai na cidade.

Ele se levantou e foi até o quarto, mas só para pegar a espada guardada atrás do armário, já presa ao cinturão com fivela em forma de Dragão.

— Você vem comigo, Min — anunciou, pegando o Cetro do Dragão e indo até a porta.

— Para onde? — indagou a jovem, secando as bochechas com um lenço.

Apesar da pergunta, Rand já estava no corredor, e ela acabou indo atrás. Jalani se levantou com um pinote um tantinho mais ligeiro que o de Beralna, uma ruiva magrela de olhos azuis e sorriso ferino.

Quando havia apenas Donzelas por perto, Beralna sempre o encarava como se estivesse considerando fazer ou não o grande favor de atender a seus pedidos. Daquela vez, Rand tratou de encará-la primeiro. O Vazio deixava sua voz fria e distante. Lews Therin estava contido, choramingando baixinho, mas Rand não ousava relaxar — não em Caemlyn, não perto de Caemlyn.

— Beralna, vá atrás de Nandera e diga para ela me encontrar nos aposentos de Perrin com quantas Donzelas quiser levar. — Não podia deixar Perrin para trás, e não por conta daquela visão de Min. Quando Merana tivesse notícia de sua partida, poderia muito bem mandar uma das Aes Sedai criar um elo com Perrin, assim como Alanna fizera com ele. — Pode ser que eu não volte mais para cá. Se alguém vir Perrin, Faile ou Loial, diga a eles para também me encontrarem por lá. Jalani, vá falar com a Senhora Harfor. Avise a ela que preciso de caneta, tinta e papel. — Tinha que escrever algumas cartas antes de partir. Sentiu que as mãos voltaram a tremer, então acrescentou: — Bastante papel. O que estão esperando? Vão logo! Vão!

As duas trocaram um único olhar e saíram correndo. Rand seguiu na direção oposta, com Min quase trotando para conseguir acompanhá-lo.

— Para onde estamos indo, Rand?

— Cairhien. — Com o Vazio envolvendo-o, a resposta saiu com a frieza de uma bofetada na cara. — Min, confie em mim. Não vou machucar você. Seria mais fácil cortar meu braço fora do que machucar você.

A jovem ficou quieta, até que Rand enfim baixou os olhos. Min o encarava com um semblante esquisito.

— Muito bom ouvir isso, pastorzinho. — A voz estava tão estranha quanto o rosto. Devia ter ficado mesmo apavorada com a ideia de treze Aes Sedai atrás dele. O que não era de se espantar, claro.