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— Quando eu trouxe esta missão diplomática até Caemlyn — começou, lembrando a todas que era a líder. Graças à Luz, conseguiu falar com uma voz estável —, recebi ordens muito flexíveis, ainda que o objetivo da missão parecesse óbvio. Então nós — escolheu o pronome para lembrá-las de que todas compunham a delegação — nos dedicamos à questão com uma expectativa justa de sucesso. Al’Thor deveria ser incitado a sair de Caemlyn para trazermos Elayne de volta e vê-la coroada, deixando Andor a nosso lado. Aos pouquinhos, al’Thor se convenceria de que éramos dignas de confiança, pois não lhe faríamos mal. E ele também seria levado a nos demonstrar o devido respeito. Duas ou três, escolhidas com todo o cuidado, assumiriam o lugar de Moiraine, aconselhando-o e guiando-o. Alanna inclusive, claro.

— Como você sabe se não foi ele quem matou Moiraine — interrompeu Bera —, já que dizem que ele matou Morgase?

— Temos ouvido boatos de todo tipo a respeito da morte dela — acrescentou Kiruna. — Alguns até dizem que ela morreu lutando contra Lanfear. A maioria, no entanto, afirma que ela estava sozinha com al’Thor quando morreu.

Merana precisou se esforçar um pouco para não responder. Se permitisse uma só palavra a seus instintos tão enraizados, eles acabariam assumindo o controle de todas elas.

— Isso tudo estava sendo tratado quando vocês duas chegaram — continuou. — Sei que só nos encontraram aqui por acaso, e apenas obedecendo às instruções que receberam de encontrá-lo, mas vocês elevaram o número de Aes Sedai a treze. Que homem da estirpe de al’Thor não fugiria o mais rápido possível ao ouvir que há treze Aes Sedai reunidas? Bem, o fato, puro e simples, é que qualquer prejuízo causado aos nossos planos deve ser atribuído a você, Kiruna, e a você, Bera. — Depois daquilo, só lhe restava esperar. Se tivesse conseguido elevar um pouco a própria moral…

— Você já acabou? — perguntou Bera, fria.

Kiruna foi ainda mais direta. Apenas se virou para as outras e falou:

— Faeldrin, você pode vir conosco para Cairhien, se quiser. E vocês também, Masuri e Rafela.

Merana estremeceu, amassando a carta dobrada no punho.

— Vocês não entendem? — berrou. — Vocês falam como se pudéssemos continuar como antes, como se nada tivesse mudado. Tem uma missão diplomática de Elaida em Cairhien, uma missão da Torre Branca. É isso que al’Thor deve estar pensando. Precisamos mais dele do que ele precisa de nós, e meu medo é que ele saiba disso!

Por um momento, todos os rostos pareceram chocados — todos, menos o de Verin, que só assentiu, pensativa, abrindo um sorrisinho dissimulado. Por um momento, todos os outros rostos eram só olhos esbugalhados, estupefatos. Aquelas palavras pareciam reverberar no ar. Precisamos mais dele do que ele precisa de nós. Não precisavam dos Três Juramentos para saber que era verdade.

Então Bera disse, com toda a firmeza:

— Sente-se, Merana, e se acalme.

Sem nem reparar que obedecia, Merana já estava sentada. Ainda trêmula, ainda querendo gritar, mas sentada, apertando a missiva de al’Thor com toda a força.

Kiruna se virou de costas deliberadamente.

— Seonid, você vem, claro. Dois Gaidin a mais são sempre úteis. E Verin, eu acho. — Verin assentiu, como se aquilo fosse um pedido. — Demira — prosseguiu Kiruna —, sei que você tem certa prioridade nas queixas sobre o garoto, mas não queremos deixar al’Thor em pânico outra vez, e alguém precisa levar aquela coleção extraordinária de garotas de Dois Rios até Salidar. Você, Valinde, junto com Kairen e Berenicia, vão auxiliar Merana nisso.

As outras quatro murmuraram, acatando as ordens sem a menor hesitação. Merana sentiu um calafrio. A delegação não estava desmoronando, estava virando pó.

— Eu… — Ela parou de falar quando os olhares de Bera e de Kiruna se voltaram para ela. E também os de Masuri, Faeldrin e Rafela. Virado pó, levando junto toda a sua autoridade. — Vocês com certeza conseguiriam encontrar serventia para uma Cinza — ponderou, em um fio de voz. — Com certeza haverá negociações, e… — As palavras continuavam a traí-la. Isso nunca teria acontecido quando a Torre ainda estava inteira.

— Muito bem — cedeu Bera, por fim, em um tom que fez com que Merana usasse todo o seu autocontrole para evitar que as bochechas ficassem vermelhas de vergonha.

— Demira, você leva as garotas para Salidar — ordenou Kiruna.

Sentada, Merana nem se mexia. Rezava para que, àquela altura, o Salão já tivesse escolhido uma Amyrlin. Alguém muito forte no Poder e no coração. Precisariam de uma nova Deane ou outra Rashima, para voltar a fazer delas o que já tinham sido. Rezava para que Alanna as conduzisse a al’Thor antes que ele decidisse aceitar a missão de Elaida. Do contrário, nem mesmo uma nova Rashima as salvaria.

CAPÍTULO 50

Espinhos

Rand passou o restante do dia em seus aposentos no Palácio do Sol, deitado naquela cama imensa com quatro pilares quadrados de madeira negra polidos e lustrosos mais grossos que sua perna e pés de marfim marchetado. Como se escolhida para contrastar com todo o ouro da antessala e sala de estar, a mobília do quarto era toda de madeira negra e marfim, mas tão cheia de linhas retas quanto qualquer decoração do palácio.

Sulin entrava e saía, afofando as plumas dos travesseiros e ajeitando o lençol de linho por cima dele, resmungando que era mais saudável dormir no chão, trazendo chá de menta que ele não pedira e ponche que ele não queria, até que Rand a mandou parar.

— Como milorde Dragão ordenar — rosnou a mulher, com um sorriso doce. Fez sua segunda mesura perfeita, mas saiu pisando duro e com tanta determinação que parecia que nem se daria ao trabalho de abrir a porta, atravessando-a direto.

Min também ficou ali com Rand, sentada no colchão, segurando a mão dele com cara de preocupação. Rand até começou a suspeitar de que Min achava que ele estava morrendo. Por fim, também a botou para fora, ao menos por tempo suficiente para vestir um robe de seda cinza que sempre ficava naquele guarda-roupas. E encontrou outra coisa, bem no fundo do armário: um estojo de madeira estreito e liso com uma flauta, presente de Thom Merrilin em uma época que parecia de outra vida. Sentou-se junto de uma das janelas compridas e estreitas e tentou tocar. Depois de tanto tempo, no começo só saíram guinchos e sopros silenciosos do que qualquer coisa. E foram os barulhos estranhos que trouxeram Min de volta.

— Toque para mim — pediu ela, com uma risada satisfeita. Satisfeita ou surpresa, não dava para saber.

Claro que ela se sentou no colo de Rand enquanto ele tentava, com pouco sucesso, produzir qualquer coisa que lembrasse uma nota musical reconhecível. E foi exatamente assim que as Sábias surpreenderam os dois. Amys, Bair, Sorilea e mais quase dez daquelas Aiel de xales entraram, e Min se levantou bem rápido, sem jeito, com as bochechas vermelhas e ajeitando o casaco de um jeito que parecia que os dois estavam lutando.

Bair e Sorilea pararam ao lado de Rand antes que ele pudesse sequer dizer uma palavra.

— Olhe para a esquerda — ordenou Sorilea, erguendo sua pálpebra com o polegar e enfiando aquela cara enrugada diante da dele. — Olhe para a direita.

— Seu pulso está rápido demais — murmurou Bair, com os dedos ossudos pressionando a lateral do pescoço de Rand com firmeza.

Ao que parecia, Nandera mandara uma Donzela atrás das Sábias assim que os joelhos dele falharam. E Sorilea selecionara aquela horda dentre o pequeno exército de Sábias que tinham se voluntariado para ir ao palácio. E, ao que tudo indicava, com ou sem Sorilea para contê-las, todas queriam sua vez com o Car’a’carn. Depois que ela e Bair terminaram, vieram Amys e Colinda, uma mulher esguia com olhos cinza penetrantes que ainda não parecia ter chegado à meia-idade, mas com uma presença quase tão forte quanto Sorilea — coisa que Amys também tinha, claro, bem como tantas outras. Rand era cutucado, aguilhoado, encarado e chamado de teimoso quando se recusava a ficar pulando. Elas pareciam ter certeza de que ele obedeceria.