Min não foi ignorada enquanto as Sábias se revezavam para ficar com ele: as que ficavam de fora a rodeavam e a enchiam de perguntas, todas sobre suas visões. Aquilo a deixou de olhos arregalados, para dizer o mínimo, olhando das Sábias para Rand como se perguntasse se estavam todos lendo seus pensamentos. Amys e Bair explicaram como sabiam — Melaine não conseguira fazer segredo da notícia sobre as filhas —, e os olhos de Min quase saltaram das órbitas, de tão arregalados. Até Sorilea parecia concordar com Melaine que a habilidade de Min a deixava quase em pé de igualdade com as Sábias. Ainda assim, as Sábias já estavam tão acostumadas a fazer as coisas à sua própria maneira e ter tudo como queriam — igualzinho às Aes Sedai — que obrigaram Min a repetir tudo para cada uma delas — e ocasionalmente repetir mais de uma vez, já que estavam tão ocupadas se preocupando com Rand que às vezes perdiam uma ou outra palavra, e queriam se certificar de que compreendiam tudo.
Sorilea e as outras enfim concluíram, ainda que muito relutantes, que Rand só precisava descansar um pouco. Depois que foram embora, deixando a ordem de que ele fosse repousar de uma vez, Min voltou para o seu colo.
— Elas conversam nos sonhos? — perguntou, balançando a cabeça. — Não parece possível, parece coisa das lendas. — Estava com o cenho franzido. — Quantos anos você acha que Sorilea tem? E aquela Colinda. Eu vi… não. Não, não tem nada a ver com você. Talvez seja o calor me afetando. Quando eu sei, eu sempre sei. Deve ser o calor. — Um brilho malicioso surgiu nos olhos dela, e Min foi se aproximando mais, bem devagar, fazendo um biquinho como se fosse beijá-lo. — Se deixar eles assim — murmurou, quando sua boca já quase tocava a dele —, pode ser que ajude. O último pedaço que você tocou até lembrava um pouco “O Galo na Gomeira”.
Ele levou um instante para entender a piada, com aqueles olhos preenchendo seu campo de visão. Quando finalmente compreendeu o que estava se passando, deve ter feito uma cara muito engraçada. Min desabou, gargalhando com a cabeça apoiada em seu peito.
Pouco depois chegou um bilhete de Coiren inquirindo sobre sua saúde, fazendo votos de que não estivesse doente e perguntando se ela poderia visitá-lo com duas de suas irmãs — estava oferecendo Cura, caso ele desejasse. Lews Therin se remexeu enquanto Rand lia, como se acordasse de seu sono, mas o murmúrio vago e ranzinza não chegava nem perto da ira de Caemlyn, e ele voltou a dormir assim que Rand deixou a carta de lado.
Era um forte contraste em relação ao comportamento de Merana, assim como um lembrete de que nada acontecia no Palácio do Sol que Coiren não ficasse sabendo antes do pôr do sol do mesmo dia, senão mais cedo. Respondeu com um agradecimento e uma recusa educada. Fora da cama ou não, ainda se sentia cansado. Queria estar em perfeito juízo quando desse de cara com alguma Aes Sedai. Aquilo era apenas parte do motivo para responder.
No mesmo bilhete, Rand também pediu que Gawyn o visitasse. Só encontrara o irmão de Elayne uma vez, mas gostava do rapaz. No entanto, Gawyn não foi vê-lo nem respondeu à carta. Com pesar, Rand concluiu que o rapaz acreditava nos boatos que circulavam sobre como se dera a morte de sua mãe. Não era bem o tipo de coisa que ele poderia pedir que a pessoa parasse de acreditar. Ficava com o humor tão azedo toda vez que pensava naquilo que Min pareceu desistir de tentar animá-lo. Nem Perrin nem Loial conseguiam ficar por perto de Rand quando ele se encontrava naquele estado de espírito.
Três dias depois, veio outra solicitação de Coiren, ainda no mesmo tom cortês, e uma terceira após mais três dias, mas Rand inventou desculpas educadas para todas essas. Em parte por causa de Alanna — a sensação ainda era vaga e distante, mas ela se aproximava mais a cada dia. Aquilo não era surpresa: Rand tinha certeza de que Merana escolheria Alanna como uma das seis que a acompanhariam. Não tinha a menor intenção de deixar que a Verde chegasse a menos de uma milha dele, pelo menos não se pudesse vê-la, mas tinha dito que as deixaria em pé de igualdade com Coiren, e era isso que pretendia fazer, de forma que Coiren teria que esperar mais um pouco, e com paciência. Além do mais, estava mesmo ocupado.
Foi fazer uma rápida visita à escola, no antigo palácio de Barthanes, mas acabou se demorando bastante. Idrien Tarsin o aguardava outra vez diante da porta para mostrar diversas invenções e descobertas, quase todas incompreensíveis, além das lojas onde agora se fabricavam arados, ancinhos e segadoras de modelos variados para a venda. O problema, no entanto, era Herid Fel. Ou talvez Min. Fel devaneou como de costume, e o homem se esqueceu de que Min estava lá — esqueceu várias vezes. Quando Rand finalmente conseguia fazer Fel falar mais que duas frases sobre um assunto específico, o sujeito reparava na presença dela, levava um baita susto e perdia o fio da meada mais uma vez. Ele ficava se desculpando pelo cachimbo meio fumado que nunca se lembrava de acender, removendo cinzas de cima do barrigão opulento e alisando os finos cabelos grisalhos. Min parecia gostar, embora Rand não entendesse por que alguém apreciaria um sujeito que se esquecia de sua presença. Ela até beijou o cocuruto de Fel ao se levantar para ir embora com Rand, o que deixou o sujeito absolutamente chocado. Não foi de muita ajuda para saber o que Fel descobrira sobre os Selos na prisão do Tenebroso ou a Última Batalha.
No dia seguinte, Rand recebeu um bilhete escrito em um pedaço de pergaminho rasgado.
Crença e ordem fornecem força. É preciso limpar o cascalho antes de começar a construir. Explicarei da próxima vez que nos virmos. Não traga a garota. Bonita demais.
Era um garrancho escrito às pressas, a assinatura espremida quase no ponto em que o papel fora rasgado, e nada daquilo fazia o menor sentido para Rand. Quando tentou ir outra vez falar com Fel, descobriu que o homem dissera a Idrien que se sentia jovem outra vez e fora pescar. No meio de uma seca. Rand se perguntou se o velho enfim teria perdido o juízo. Min achou o bilhete engraçado e perguntou se podia guardá-lo, e Rand a viu relendo-o diversas vezes, sempre rindo.
Tendo Fel perdido o juízo ou não, Rand decidiu que não levaria Min na próxima vez — bem, a verdade era que estava cada vez mais difícil mantê-la por perto quando queria que ela estivesse ali. A mulher parecia passar mais tempo com as Sábias do que com ele. Não entendia por que isso o irritava tanto, mas percebeu que tendia a ser rude com os outros quando Min estava nas tendas. Era bom que a mulher não passasse tempo demais com ele. As pessoas logo perceberiam, então falariam e pensariam coisas inapropriadas. Em Cairhien, onde os serviçais jogavam sua própria versão do Jogo das Casas, podia ser perigoso ter gente achando que Min era importante. Era bom ela ficar longe. Rand tentava não ser rude.
Claro que precisava de Min por perto para saber as auras dos nobres que começavam a visitá-lo, um de cada vez, sempre perguntando sobre sua saúde — a fraqueza nos joelhos decerto tinha provocado rumores —, e sempre sorrindo e inquirindo por quanto tempo ele pretendia ficar em Cairhien e quais eram seus planos, se ele não se incomodava se perguntassem. E sorrindo cada vez mais, sempre sorrindo. O único que não abria um sorriso tão intenso era Dobraine, ainda com a frente da cabeça raspada à moda dos soldados e as listras do casaco puídas pela placa peitoral que nunca usava no palácio. E Dobraine fez aquelas mesmíssimas perguntas em um tom tão lúgubre que Rand ficou quase tão feliz quando ele saiu quanto ficava ao se ver livre dos demais nobres.