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Estevan assentiu. Hesitante, mas assentiu. Outro homem de coragem.

Mas nem mesmo eles fizeram a pergunta óbvia: se Rand queria que fossem atrás dos rebeldes. Ele não se surpreendeu. Por um lado, Haddon Mirk não era um lugar fácil para encontrar alguém, era um imenso emaranhado de florestas sem nenhuma aldeia, estrada ou trilha. No terreno montanhoso encrespado que cortava a margem mais ao norte, um homem levaria, com sorte, um longo dia para cobrir um punhado de milhas, e exércitos inteiros poderiam esgotar a ração percorrendo aquelas terras antes de se confrontarem. Além disso, havia talvez o aspecto mais importante: quem fizesse tal pergunta poderia ser suspeito de se voluntariar para liderar a expedição, e um voluntário poderia ser suspeito de querer se juntar a Darlin, não acorrentá-lo. Os tairenos podiam não jogar Daes Dae’mar, o Jogo das Casas, com a mesma proficiência que os cairhienos — que viam as mais secretas motivações em uma simples olhadela e ouviam em uma só frase mais do que todas as entrelinhas que a pessoa poderia querer transmitir —, mas maquinavam e vigiavam uns aos outros, atentos a conspirações, acreditando que todos faziam o mesmo.

Contudo, era melhor que, por ora, Rand deixasse os rebeldes em paz. Toda a sua atenção tinha que estar em Illian — tinha que parecer estar em Illian. Mas também não podia ser visto como benevolente. Os homens presentes não se oporiam a ele, porém, com ou sem Última Batalha, apenas duas coisas evitavam que tairenos e cairhienos se engalfinhassem. Ainda que mal e porcamente, eles preferiam estar acompanhados uns dos outros do que dos Aiel, além de temerem a ira do Dragão Renascido. Se perdessem esse medo, começariam a tentar matar uns aos outros e os Aiel mais rápido que Rand conseguia dizer “Jak da Névoa”.

— Alguém se pronuncia em defesa deles? — indagou Rand. — Alguém sabe de algum atenuante? — Se alguém sabia, segurou a língua. Contando os serviçais, quase duas dezenas de pares de olhos o observavam, à espera. Talvez os serviçais fossem os mais atentos. Sulin e as Donzelas olhavam tudo, menos ele. — Eles perderão seus títulos e suas terras e propriedades serão confiscadas. Quero que sejam expedidos mandados de prisão para todo homem cuja identidade seja conhecida. E toda mulher também. — Isso poderia se revelar um problema: em Tear, a pena para rebelião era a morte. Rand havia mudado algumas leis, mas não essa, e agora era tarde demais. — Leve a público que quem matar um deles será absolvido, e quem os ajudar será acusado de traição. Qualquer um que se render terá a vida poupada. — O que talvez pudesse solucionar a questão crítica de Estanda, caso desse para controlá-la, pois Rand não ordenaria a execução de uma mulher. — Mas os que resistirem irão para a forca.

Os nobres mudaram de posição, incomodados, e se entreolharam — tanto os tairenos quanto os cairhienos. Seus rostos estavam lívidos. Decerto esperavam sentenças de morte — era a punição mínima para rebeliões, ainda mais com a guerra iminente —, mas a perda dos títulos os deixou claramente chocados. Apesar de todas as leis que Rand mudara em ambas as terras, apesar dos lordes repreendidos diante dos magistrados, enforcados por assassinato ou multados por agressão, eles ainda acreditavam haver alguma diferença marcada a ferro, alguma ordem natural que os tornava leões por direito e os plebeus, ovelhas. Um Grão-lorde que fosse para a forca morria como Grão-lorde, mas Darlin e os outros morreriam como camponeses aos olhos daqueles homens — um destino muito pior do que a própria morte. Os serviçais continuaram parados, as jarras suspensas, aguardando para encherem qualquer cálice vazio demais. Tinham as feições inexpressivas como sempre, mas alguns olhos exibiam uma satisfação que não estivera ali antes.

— Agora que resolvemos isso — começou Rand, puxando a shoufa enquanto caminhava até a mesa —, vejamos os mapas. Sammael é mais importante do que um bando de idiotas apodrecendo em Haddon Mirk. — Esperava mesmo que apodrecessem. Que a Luz os queimasse!

Weiramon comprimiu os lábios e Tolmeran se apressou em suavizar o cenho franzido. O rosto de Sunamon estava tão impassível que podia muito bem ser uma máscara. Os outros tairenos pareciam igualmente indecisos, os cairhienos também, embora Semaradrid disfarçasse bem. Alguns tinham visto Myrddraal e Trollocs durante aquele ataque na Pedra, e outros tinham presenciado o duelo de Rand com Sammael em Cairhien, mas, ainda assim, achavam que sua afirmação de que os Abandonados estavam à solta fosse um sintoma da loucura. Rand ouvira boatos sussurrados sobre como causara sozinho a destruição em Cairhien, atacando amigos e inimigos feito um maníaco. Pela expressão pétrea de Liah, um deles acabaria espetado por uma lança de Donzela, se não controlassem os olhares.

De qualquer forma, todos se reuniram em torno da mesa. Rand jogou a shoufa no chão e começou a revirar os mapas espalhados uns por cima dos outros. Bashere estava certo: os homens seguiriam qualquer louco que vencesse. Contanto que vencesse. Assim que encontrou o mapa que queria, um desenho detalhado do extremo leste de Illian, os chefes Aiel chegaram.

Bruan, dos Aiel Nakai, foi o primeiro a entrar, seguido de perto por Jheran, dos Shaarad; Dhearic, dos Reyn; Han, dos Tomanelle e Erim, dos Chareen, cada um retribuindo os acenos de cabeça de Sulin e das três Donzelas. Bruan, um homem corpulento de olhos acinzentados e tristes, era quem realmente liderava os cinco clãs que Rand mandara para o sul. Nenhum dos outros se opusera: o aspecto sereno de Bruan mascarava suas habilidades de luta. Usando o cadin’sor, a shoufa pendurada no pescoço, os Aiel vinham desarmados, exceto pelas pesadas facas de cintura. No entanto, um Aiel nunca estaria desarmado enquanto tivesse braços e pernas.

Os cairhienos simplesmente fingiram que eles não estavam ali, mas os tairenos fizeram questão de olhar com desprezo e cheirar abertamente as caixinhas e os lenços perfumados. A única coisa que Tear perdera para os Aiel fora a Pedra e isso com a ajuda do Dragão Renascido, acreditavam — ou das Aes Sedai —, mas Cairhien fora destruída por eles duas vezes, duas vezes derrotada e humilhada.

Exceto por Han, os Aiel ignoravam todos. Han, de cabelos brancos e um rosto que parecia couro enrugado, encarava os nobres com um olhar assassino. Era um homem espinhoso, para dizer o mínimo, e talvez não ajudasse o fato de que alguns dos tairenos tinham a mesma altura que ele. Han era baixo para um Aiel — o que significava ter uma altura bem acima da média para um aguacento —, e tão sensível quanto Enaila em relação a isso. E, claro, os Aiel desprezavam os tais “Assassinos da Árvore” — uma de suas alcunhas para os cairhienos — mais do que qualquer outro aguacento. E também os chamavam de “Quebradores de Juramentos”.

— Os illianenses — começou Rand, com firmeza, alisando o mapa. Usara o Cetro do Dragão para manter aberto um dos lados e um tinteiro adornado em ouro e uma vasilha de areia combinando para segurar o outro. Não precisava que aqueles homens começassem a matar uns aos outros. Não achava que fariam isso, pelo menos não enquanto ele estivesse lá. Nas histórias, os aliados eventualmente acabavam por confiar e gostar uns dos outros. Rand duvidava de que o mesmo algum dia fosse acontecer com aqueles homens.

A Planície de Maredo, com sua sucessão de colinas baixas, estendia-se a certa distância para o interior de Illian, a partir de onde dava lugar a montes cobertos de florestas até bem perto do Manetherendrelle e de um de seus braços, o Rio Shal. Cinco marcações em cruz, a cerca de dez milhas de distância uma da outra, assinalavam a extremidade leste dessas colinas. As Colinas de Doirlon.

Rand pôs o dedo na cruz bem do meio.