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Mat pousou a caneca de vinho e se levantou, fazendo uma mesura e tomando a mão de Betse.

— Eu sou quem sou e ninguém mais, mas seu rosto me deixa sem palavras. — Aquilo a fez piscar, sem palavras. Não importava o que as mulheres dissessem, elas sempre gostavam de floreios. — Me concede uma dança?

Sem esperar resposta, ele a conduziu até um espaço livre por entre as mesas do salão. Com sorte, a dança acalmaria um pouco aquela língua, e, afinal de contas, ele era um sujeito de sorte. Além do mais, nunca tinha ouvido falar de uma mulher cujo coração não amolecesse com uma dança. Quem dança consegue que as moças perdoem muito; quem dança bem consegue que elas perdoem tudo. Era um ditado muito antigo. Muito antigo mesmo.

Betse hesitou, mordendo o lábio e procurando a Senhora Daelvin com o olhar, mas a estalajadeira gordinha apenas sorriu e acenou para que ela fosse adiante, depois deu uma ajeitadinha pouco eficaz nos cachos que escapavam do coque e voltou a atormentar as outras serviçais, como se as mesas estivessem cheias. A Senhora Daelvin ficava de olho atento em qualquer homem que ela acreditasse estar se comportando de maneira inadequada. Apesar da aparência tranquila, a mulher carregava um pequeno porrete entre as saias, e às vezes o botava em uso — Nalesean ainda a olhava com cautela quando ela se aproximava —, mas que mal havia se um cliente desejava uma dança? Mat segurou as mãos de Betse e esticou os braços para os lados. Haveria espaço suficiente entre as mesas. Os músicos começaram a tocar mais alto, mas não melhor.

— Deixa que eu conduzo — instruiu Mat a Betse. — O início é fácil. — Ele começou a dançar no compasso da música, inclinando-se e deslizando a perna para a direita, o pé esquerdo vindo logo atrás. Inclinando, deslizando e puxando o pé, os braços estendidos.

Betse pegou o jeito depressa e se movimentava com graça. Quando eles alcançaram os músicos, Mat ergueu as mãos dela delicadamente acima da cabeça e girou o próprio corpo e o da moça, costas contra costas. Então inclinou e deslizou, girou de volta frente a frente, deslizou e girou, e de novo e de novo, de volta até o ponto de partida. Betse engatou no passo com a mesma agilidade, sorrindo feliz para ele, quando os giros permitiam. Ela era mesmo bonita.

— Agora vai ficar um pouco mais complicado — anunciou Mat, virando-se de modo que os dois encarassem os músicos lado a lado, os punhos cruzados e as mãos unidas à frente.

Joelho direito para cima, um chutinho de leve para a esquerda, então um deslize para a frente e para a direita. Joelho esquerdo para cima, chutinho para a direita, deslize para a frente e para a esquerda. Betse ria enquanto os dois avançavam mais uma vez em direção aos músicos. Os movimentos ficavam mais complexos a cada passo, mas ela só precisava de uma demonstração para conseguir acompanhá-lo, leve feito uma pluma em suas mãos a cada volta, giro e rodopio. E o melhor de tudo: estava completamente muda.

Ele foi envolvido pelo compasso da dança e pela música, mesmo com as notas faltando, e as memórias tomaram sua mente enquanto os dois deslizavam pelo salão, indo e voltando. Nas memórias, Mat era uma cabeça mais alto, tinha longos bigodes dourados e olhos azuis. Usava um casaco de seda cor de âmbar, atado à cintura com uma faixa vermelha, decorado com babados da mais fina renda barsinesa e botões de safira amarela de Aramaelle no peitoral. Estava dançando com uma bela emissária de pele escura dos Atha’an Miere, o Povo do Mar. A fina corrente de ouro que unia o aro no nariz da mulher a uma das inúmeras argolas na orelha sustentava pequeninos medalhões que a identificavam como Mestra das Ondas do Clã Shodin. Para Mat, não importava quanto aquela mulher era poderosa: isso era preocupação do rei, não de um lorde mediano. A mulher era bela e leve em seus braços, e os dois dançavam sob o imenso domo de cristal da corte de Shaemal, quando o mundo inteiro invejava o esplendor e o poder de Coremanda. Outras memórias perpassavam as margens de sua consciência, revelando pequenos fragmentos daquela dança que ele recordava. A manhã traria notícias do aumento das investidas dos Trollocs fora da Grande Praga, e o mês seguinte viria com a notícia de que Barsine, das torres douradas, fora invadida e incendiada e de que as hordas de Trollocs rumavam para o sul. Então começaria o que mais tarde viria a ser chamado de Guerras dos Trollocs, embora ninguém chamasse assim no início — mais de trezentos anos de batalhas quase ininterruptas, sangue, fogo e ruínas, até que os Trollocs fossem expulsos de volta, e os Senhores do Medo, derrotados. Então teria início a queda de Coremanda, com toda sua riqueza e seu poder; de Essenia, com seus filósofos e célebres instituições educacionais; de Manetheren, Eharon e todas as Dez Nações, tudo reduzido a ruínas, mesmo na vitória, a partir de onde outras terras se ergueriam, terras que só tinham memória das Dez Nações como mera lenda de um tempo mais feliz. Mas isso tudo estava no futuro, e ele baniu as memórias em troca do prazer da lembrança do momento. Naquela noite, dançava a dança do padrão com…

Mat piscou, subitamente assustado com os raios de sol que inundavam as janelas e o formoso rosto sorrindo à sua frente, cintilante de suor. Quase tropeçou no emaranhado de seus pés com os de Betse, com quem rodopiava pelo salão, mas conseguiu se recompor antes disso, relembrando os passos instintivamente. Essa dança pertencia a ele com a mesma certeza que aquelas memórias pertenciam à sua mente, emprestadas ou roubadas, mas tão entranhadas no que ele de fato vivera que Mat já não era capaz de distinguir a diferença. Tudo era parte dele agora, preenchendo as lacunas em suas próprias lembranças. Mat podia muito bem ter vivido todas elas.

Ele dissera a verdade sobre a cicatriz em seu pescoço. Fora enforcado por conhecimento e pela falta dele. Por duas vezes, adentrara um ter’angreal como se fosse um desmiolado, um camponês tolo achando que seria um feito simples como uma caminhada no pasto. Bem, quase tão simples. Os resultados só reforçaram suas suspeitas sobre qualquer coisa relacionada com o Poder Único. Da primeira vez, ouviu que iria morrer e nascer de novo, entre outras coisas que preferia não ter ouvido. Algumas dessas outras coisas o encaminharam para a segunda jornada através de um ter’angreal, cuja consequência fora uma corda amarrada em seu pescoço.

Uma série de decisões, todas regidas por bons motivos ou pura necessidade, todas parecendo muito sensatas no momento em que as tomara, todas com consequências que ele jamais imaginara. Mat sempre se via preso nesse tipo de dança. Estivera morto até o momento em que Rand o soltara daquela forca e o ressuscitara. Pela centésima vez, fez uma promessa a si mesmo. Daquele momento em diante, prestaria atenção onde pisava. Nada de se precipitar sem pensar nos desdobramentos.

Na verdade, ele ganhara mais do que a cicatriz naquele dia. O amuleto prateado de cabeça de raposa, por exemplo, o único olho sombreado de forma a parecer o antigo símbolo dos Aes Sedai. Às vezes, Mat ria tanto por causa daquele medalhão que suas costelas doíam. Não confiava em nenhuma Aes Sedai, por isso chegava a dormir e a tomar banho com aquela coisa no pescoço. O mundo era um lugar curioso, quase sempre curioso e esquisito.

Outra coisa que ganhara fora conhecimento, ainda que indesejado. Fragmentos das vidas de outros homens enchiam sua cabeça, milhares e milhares, às vezes algumas horas de memórias, às vezes anos inteiros, mas em fragmentos, lembranças de cortes e de combates, momentos vividos ao longo de bem mais de mil anos, desde muito antes das Guerras dos Trollocs até a batalha final do império de Artur Asa-de-gavião. Todas essas lembranças eram suas agora, ou era como se fossem.

Nalesean, Daerid e Talmanes batiam palmas ao ritmo da música e os outros homens espalhados pelas mesas também. Homens do Bando da Mão Vermelha, estimulando seu comandante a dançar. Luz, o nome do grupo dava calafrios em Mat. Pertencera a um lendário bando de heróis que morrera tentando salvar Manetheren. Não havia um só homem cavalgando ou marchando atrás do estandarte do Bando que não achasse que aquele grupo também acabaria fazendo parte das lendas. A Senhora Daelvin também batia palmas e o restante das serviçais fizera uma pausa para assistir à dança.