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Uma tropa marchava atrás de um oficial a cavalo de placa peitoral amassada e capacete cairhieno, entre Mat e a mulher corpulenta. Cerca de duzentos lanceiros com as armas para cima, um matagal de ponteiras, seguidos por mais de cinquenta arqueiros com aljavas na cintura e arcos presos aos ombros. Não era o arco longo de Dois Rios que Mat crescera usando, mas era uma arma bastante digna. Precisava encontrar bestas para os homens, embora os arqueiros não estivessem muito dispostos a trocar de arma. O batalhão cantava enquanto marchava e a massa de vozes se sobrepunha ao resto do barulho.

— O almoço vai ser feijão e feno estragado, no dia do nome ganha um casco quebrado. Vai suar e sangrar até envelhecer, Só nos seus sonhos ouro vai ter. É a vida de um soldado. É a vida de um soldado.

Uma multidão de civis os seguia, cidadãos e refugiados juntos, todos homens jovens e curiosos, observando e escutando. Mat não deixava de se impressionar. Quanto mais a canção maldizia o serviço — e a pior parte ainda não chegara —, maior a multidão. Certo como a água era molhada, alguns daqueles homens sairiam para falar com um porta-estandarte antes de o dia terminar, e a maioria assinaria seu nome ou deixaria uma marca. Decerto achavam que a música era uma tentativa de assustá-los, de preservar a glória e os ganhos ilícitos. Pelo menos os lanceiros não estavam cantando “Dançando com Jak das Sombras”. Mat odiava aquela música. Assim que os rapazes percebiam que Jak das Sombras era a morte, começavam a ir atrás de um porta-estandarte.

— Sua garota com outro se casa. Sua única terra é uma cova rasa. Sua comida de verme, ninguém vai chorar, Seu próprio nascimento você vai amargar. É a vida de um soldado. É a vida de um soldado.

— O pessoal não para de se perguntar quando é que vamos para o sul — comentou Edorion, com um ar despretensioso, enquanto a tropa avançava pela rua levando um rastro de imbecis — Estão surgindo boatos. — Ele espiou Mat de soslaio, avaliando seu humor. — Percebi que os ferradores estão conferindo as parelhas para os carroções de suprimentos.

— A gente vai quando a gente for — respondeu Mat. — Não precisamos informar Sammael de nossa partida.

Edorion lançou a ele um olhar firme. O taireno não era nem um pouco bronco. Não que Nalesean fosse — só era ansioso demais, às vezes —, mas Edorion tinha uma mente perspicaz. Nalesean jamais teria percebido os ferradores. Era pena que a Casa Aldiaya fosse superior à Casa Selorna em importância, ou Mat teria posto Edorion no lugar de Nalesean. Aqueles nobres idiotas, com sua fixação idiota nas graduações. Não, Edorion não era nem um pouco burro — sabia que tão logo o Bando rumasse para o sul, as notícias desceriam o rio a toda a velocidade, talvez também voando com os pombos. Mat não teria apostado contra a possibilidade de haver espiões em Maerone, nem se sentisse a sorte com força suficiente para lhe arrebentar o crânio.

— Tem também um boato de que o Lorde Dragão estava na cidade, ontem — comentou Edorion, no volume mais baixo que o barulho da rua permitia.

— O máximo que aconteceu ontem — respondeu Mat, seco — foi que tomei o primeiro banho em uma semana. Vamos logo. Vai levar metade do tempo que nos resta de luz para acabar com isso.

Mat daria tudo para descobrir como aquele boato começara. Estava errado em apenas metade de um dia, e decerto não houvera ninguém para ver. Nas primeiras horas da manhã, um raio de luz despontara de repente no quarto de Mat, lá na estalagem Cervo Dourado. Desesperado, ele se atirara do outro lado da cama de quatro pilares, uma bota calçada e a outra a meio caminho, puxando a faca que mantinha presa entre as omoplatas. Então percebeu que era Rand, brotando de um daqueles malditos buracos no nada. Parecia estar saindo do palácio em Caemlyn, pelas colunas visíveis antes de a abertura se esvair. Ficou um pouco espantado com a visita no meio da noite, sem escolta Aiel, irrompendo bem no quarto de Mat — coisa que ainda lhe dava calafrios. Aquela luz estranha poderia tê-lo fatiado em dois, se estivesse no lugar errado. Mat não gostava do Poder Único. A situação toda fora muito estranha.

— Vá depressa e devagar, Mat — disse Rand, andando de um lado para o outro, sem olhar em sua direção. Mantinha a mandíbula tensa, o rosto empapado de suor. — Ele tem que estar avisado. Tudo depende disso.

Sentado na cama, Mat deu um solavanco com o pé para terminar de tirar a bota e largou-a no tapete que a Senhora Daelvin lhe cedera.

— Eu sei — respondeu, em um tom amargo, parando para esfregar o tornozelo que machucara em uma das colunas da cama. — Eu ajudei a bolar a porcaria do plano, lembra?

— Como é que a gente sabe quando está apaixonado por uma mulher, Mat? — Rand não parava de andar e disparou a pergunta como se tivesse tudo a ver com o que estava dizendo antes.

Mat piscou.

— Pelo Poço da Perdição, como eu vou saber? Nessa armadilha eu nunca pus o pé. Por quê?

Rand apenas deu de ombros.

— Vou acabar com Sammael, Mat. Eu juro. Devo isso aos mortos. Mas onde estão os outros? Preciso acabar com todos.

— Mas um de cada vez. — Ele quase não conseguiu evitar que a frase saísse como uma pergunta. Nos últimos tempos, não havia como saber com o que Rand ficaria obcecado.

— Tem Devotos do Dragão em Murandy, Mat. Em Altara também. Homens devotos a mim. Quando Illian for minha, Altara e Murandy cairão feito ameixas maduras. Vou iniciar contato com os Devotos do Dragão em Tarabon. e em Arad Doman. E, se os Mantos-brancos tentarem me impedir de chegar a Amadícia, vou acabar com eles. O Profeta já deixou Ghealdan preparada e está quase terminando com Amadícia, pelo que eu ouvi dizer. Consegue imaginar Masema como Profeta? Saldaea virá até mim, Bashere tem certeza. Todas as Terras da Fronteira virão. Têm que vir! Eu vou conseguir, Mat. Todas as nações unidas antes da Última Batalha. — A voz de Rand assumira um tom febril.

— Claro, Rand — respondeu Mat, hesitante, acomodando a outra bota ao lado da primeira. — Mas uma coisa de cada vez, certo?

— Nenhum homem deveria ter a voz de outro homem na própria cabeça — resmungou Rand e as mãos de Mat congelaram enquanto ele tirava uma das meias de lã.

Por mais estranho que fosse, pegou-se pensando se ainda poderia usar o par mais um dia. Rand sabia de parte do que acontecera dentro daquele ter’angreal em Rhuidean — pelo menos sabia que ele, de alguma forma, obtivera conhecimento a respeito das funções de um soldado. Mas não sabia de tudo… Mat achava que não. Não sabia das lembranças de outros homens. Rand não pareceu notar nada fora do comum. Só passou os dedos pelos cabelos e prosseguiu:

— Ele pode ser enganado, Mat… Sammael sempre pensa de maneira muito linear. Mas será que tem alguma brecha por onde ele possa se esgueirar? Se houver qualquer erro, milhares de pessoas vão morrer. Dezenas de milhares. Centenas já vão morrer, de todo modo, mas não quero que sejam milhares.

Mat contorceu o rosto em uma careta tão intensa que o mascate de rosto suado que tentava lhe vender uma adaga com cabo de pedras “preciosas” de vidro colorido quase largou a mercadoria ao tentar se misturar à multidão. Rand era sempre assim, trocando de assunto toda hora, indo da invasão de Illian para os Abandonados e as mulheres — Luz, Rand sempre conseguia o que queria com as mulheres, que nem Perrin —, da Última Batalha às Donzelas da Lança e coisas que Mat não compreendia. E quase nunca ouvia as respostas, às vezes sequer esperava por elas. Ouvir Rand falar de Sammael como se conhecesse o homem era mais que apenas desconcertante. Sabia que Rand acabaria enlouquecendo, mas se a loucura já estivesse à espreita…