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E quanto aos outros, os coitados que desejavam canalizar, que Rand estava reunindo, e o tal sujeito Taim, que já conseguia? Rand mencionara como se não fosse nada muito relevante. Mazrim Taim, o maldito falso Dragão, ensinando aos malditos alunos de Rand — ou fosse lá o que fossem aqueles homens. Quando todos começassem a enlouquecer, Mat não queria estar nem a mil milhas deles.

Só que tinha tanta opção quanto uma folha em um redemoinho. Era ta’veren, porém Rand era mais. Nada havia nas Profecias do Dragão sobre Mat Cauthon, mas ele fora capturado e preso, feito um leitãozinho. Luz, queria nunca ter posto os olhos na Trombeta de Valere.

Com a expressão sombria, avançou pelas tavernas e pelos salões, afastando-se dos entornos da Cervo Dourado. Não eram diferentes da primeira que vistoriara: mesas abarrotadas de homens bebendo, jogando e brigando, os músicos sempre abafados pelo burburinho, Braços Vermelhos apartando as brigas assim que começavam. Em uma, um menestrel recitava A Grande Caçada — popular mesmo sem Caçadores por perto —, em outra, uma mulher branca e pequenina entoava uma canção um tanto obscena, que ficava ainda mais escandalosa ao ser recitada por alguém de rosto redondo e olhos tão grandes e inocentes.

Ainda desanimado, abandonou a Trombeta de Prata — que nome idiota! — e sua cantora de rosto inocente. Talvez tenha sido por isso que saiu disparado em direção à gritaria que estourava na rua, logo na frente de outra estalagem. Se houvesse soldados envolvidos, os Braços Vermelhos cuidariam da situação, mas mesmo assim Mat foi se embrenhando pela multidão. Rand estava enlouquecendo e largando-o no meio da tempestade, com Taim e aqueles outros idiotas prontos para adentrar a loucura com ele. Sammael aguardava em Illian e nem a Luz sabia onde estava o restante dos Abandonados — todos decerto à procura de uma chance de arrancar sua cabeça pelo caminho. Isso sem levar em conta o que as Aes Sedai fariam se pusessem as mãos nele outra vez — pelo menos, as que sabiam demais. E todo mundo pensando que ele ia dar as caras e virar um maldito herói! Em geral, tentava se safar das brigas na lábia quando não conseguia passar longe delas, mas naquele momento queria uma desculpa para meter um soco bem no meio da cara de alguém. O que encontrou não foi nada do que esperava.

Um grupo de cidadãos — cairhienos baixos usando roupas discretas e um punhado de andorianos mais altos vestidos em cores mais vivas — rodeava, inexpressivo, dois homens compridos e magros de bigodes curvos, que usavam casacos murandianos longos de seda brilhosa e portavam espadas ornamentadas de pomos e guarda-mãos dourados. O sujeito de casaco vermelho exibia um sorriso largo, divertindo-se ao observar o de amarelo agarrar a gola da camisa de um garoto pouco mais alto que a cintura de Mat, sacudindo-o como um cachorro sacode um rato.

Ele manteve a calma. Lembrou a si mesmo de que não sabia o motivo de tudo aquilo.

— Vá com calma com o garoto — mandou, pousando a mão no braço do casaco amarelo. — O que foi que ele fez para merecer…?

— Ele tocou o meu cavalo! — vociferou o sujeito com sotaque de Mindea, afastando a mão de Mat com uma sacudida. Os mindeanos se gabavam de ter o pior temperamento de todos em Murandy. Se gabavam! — Vou torcer esse pescocinho de camponês! Vou esmagar esse moleque magricela…!

Sem dizer outra palavra, Mat ergueu a base da lança e a enfiou direto no meio das pernas do sujeito. O murandiano abriu a boca, mas não emitiu som algum. Seus olhos se reviraram até ficarem completamente brancos. O garoto disparou assim que o homem desabou de joelhos, as pernas moles e a cara no chão da rua.

— Não vai, não — retrucou Mat.

Aquilo não foi o fim, claro. O homem de casaco vermelho agarrou a própria espada. Até conseguiu desembainhar um pedacinho antes que Mat lhe acertasse o pulso com a base da lança. Grunhindo, o sujeito largou o cabo, mas esticou a outra mão para agarrar a adaga de lâmina comprida pendurada em seu cinto. Mais que depressa, Mat o golpeou acima da orelha. Não foi com força, mas o sujeito caiu em cima de seu companheiro. Que imbecil! Mat não soube ao certo se estava pensando no sujeito do casaco vermelho ou em si mesmo.

Finalmente chegaram alguns Braços Vermelhos, abrindo caminho por entre os observadores. Eram cavaleiros tairenos de costas largas, pareciam meio sem jeito andando a pé com as botas até os joelhos, as mangas douradas espremidas embaixo das braçadeiras. Edorion agarrara o garoto, um menino encovado e emburrado de cerca de seis anos, arrastando os dedos nus pela terra e de vez em quando tentando dar um tranco no braço de seu captor. Talvez fosse a criança mais feia que Mat já vira, com nariz achatado, boca grande demais para o rosto e orelhas imensas despontando das laterais da cabeça. Pelos rombos em seu casaco e calças, era um dos refugiados. Parecia imundo.

— Dê um jeito nisso, Harnan — mandou Mat. Harnan era um Braço Vermelho de queixo comprido, um líder de destacamento de expressão tolerante com uma tatuagem tosca de um gavião na bochecha esquerda. A moda parecia estar se difundindo pelo Bando, mas a maioria se limitava a marcar partes do corpo que costumavam ficar encobertas. — Descubra o motivo disso tudo, depois mande esses dois grosseirões para fora da cidade. — Eles mereciam, fosse lá qual tivesse sido a provocação.

Um magricelo de casaco murandiano de lã escura serpenteou por entre o povo e caiu de joelhos ao lado dos dois, no chão. O de casaco amarelo começara a emitir grunhidos abafados e o de casaco vermelho já agarrava a cabeça, murmurando algo que pareciam xingamentos. O recém-chegado fez mais barulho que os dois juntos.

— Ah, milordes! Milorde Paers! Milorde Culen! Os senhores foram mortos? — Ele estendeu as mãos trêmulas na direção de Mat. — Ah, mas não mate os dois, milorde! Não assim, indefesos. Eles são Caçadores da Trombeta, milorde. Eu sou Padry, servo deles. São heróis, milorde, são sim.

— Eu não vou matar ninguém — interrompeu Mat, enojado. — Você faça esses heróis montarem em seus cavalos e caia fora de Maerone até o anoitecer. Não gosto de marmanjos que ameaçam torcer o pescoço de uma criança. Eles têm até o anoitecer!

— Mas, milorde, eles estão machucados. Era é só um camponesinho, e estava bulindo no cavalo de Lorde Paers.

— Eu só sentei no cavalo — gritou o garoto. — Eu não estava… isso aí que o senhor disse.

Mat assentiu, de cara feia.

— Não se quebra o pescoço de uma criança por se sentar em um cavalo, Padry. Nem se for um camponesinho. Tire esses dois daqui, ou eu é que vou torcer o pescoço deles. — Gesticulou para Harnan que assentiu depressa para os outros Braços Vermelhos. Os líderes de destacamento nunca faziam nada sozinhos, assim como os porta-estandartes. O grupo ergueu Paers e Culen com violência e os atirou para longe, grunhindo. Padry foi atrás, contorcendo as mãos e gritando, em protesto, que seus mestres não estavam em condições de cavalgar, que eram Caçadores da Trombeta e heróis.

Mat percebeu que Edorion ainda agarrava o braço da causa de todo aquele problema. Os Braços Vermelhos tinham ido embora, os habitantes da cidade já se dispersavam. Ninguém prestava atenção ao garoto, todos tinham suas próprias crianças para cuidar, tarefa que já era bastante difícil. Mat suspirou pesadamente.

— Você não entende que pode se machucar “só sentando” em um cavalo estranho, garoto? O garanhão que esse tipo de sujeito cavalga é capaz de pisotear um garotinho que nem você em sua baia e ninguém nunca mais o encontraria.