Mat virou a luneta de volta para o navio. Pela atividade no convés, estavam subindo a pequena embarcação, mas alguns homens no cabrestante já puxavam a âncora para cima, e as velas já estavam sendo sacudidas.
— Parece que eu não vou precisar — murmurou.
Do outro lado do rio, a delegação dos Atha’an Miere desapareceu no desembarcadouro com uma escolta de guardas. Nada daquilo fazia sentido. Pessoas do Povo do Mar a novecentas milhas do mar. Apenas a Senhora dos Navios era mais importante que uma Mestra das Ondas; apenas o Mestre das Lâminas era mais importante que um Mestre da Espada. Não fazia sentido, não pelas lembranças que tinha daqueles outros homens em sua mente. Mas eles eram velhos — Mat “lembrava” que se conhecia menos sobre os Atha’an Miere do que sobre qualquer povo, exceto os Aiel. Sabia mais sobre os Aiel por experiência própria do que por lembranças, e isso já era bem pouco. Talvez alguém que conhecesse o Povo do Mar de hoje em dia pudesse entender o que estava havendo ali.
As velas já ondeavam ao alto do navio, a âncora ainda sendo puxada, encharcada de água, para a proa. Fosse lá o que tanto os apressava, parecia que não os levaria de volta ao mar. A embarcação deslizou rio acima a uma velocidade crescente, traçando uma curva em direção à foz pantanosa do Alguenya, poucas milhas a norte de Maerone.
Bem, não tinha nada a ver com ele. Com uma última olhadela pesarosa para o navio — aquela coisa poderia transportar mais do que todas as embarcações menores que ele conseguira juntas —, Mat enfiou a luneta de volta no bolso e deu as costas para o rio. Estean ainda andava de um lado a outro, encarando-o.
— Pode dispensar os remadores, Estean — disse Mat, com um suspiro, e o taireno saiu pisando firme, resmungando sozinho e esfregando as mãos no cabelo.
Havia mais lama visível desde a última vez que fora até o rio, alguns dias antes. Era só uma nesga viscosa de menos de uma mão de largura entre a água e a tirinha estreita de lama seca da margem, mas era prova de que mesmo um rio como o Erinin estava secando aos poucos. Nada a ver com ele. Pelo menos, nada que pudesse fazer a respeito. Deu meia-volta e retomou as rondas nas tavernas e nos salões. Era importante que nada parecesse fora do normal, naquele dia.
Quando o sol caiu, Mat já estava de volta à estalagem Cervo Dourado, dançando com Betse, agora sem o avental, enquanto os músicos tocavam o mais alto que podiam. Danças regionais, dessa vez. As mesas tinham sido afastadas para dar lugar a seis ou oito casais. A noite trouxe um pouco de frio, mas só em comparação com o dia. Homens bebendo às gargalhadas apinhavam os bancos, e as serventes corriam para levar sopa de carneiro, nabo e cevada às mesas e manter cheias as canecas de cerveja e as taças de vinho.
Por mais surpreendente que fosse, as mulheres pareciam considerar a dança um descanso da tarefa de circular pelo salão com as bandejas. Pelo menos, todas sorriam avidamente quando chegava sua vez de enxugar o suor da face e tirar o avental para uma dança, embora suassem na mesma intensidade depois que a música começava. Talvez a Senhora Daelvin tivesse acertado algum tipo de revezamento. Nesse caso, Betse era exceção. A bela jovem só servia vinho para Mat, só dançava com Mat e a estalajadeira abria sorrisos enormes para o casal, como uma mãe no casamento da filha, o que deixava Mat constrangido. Na verdade, Betse dançava com ele até lhe deixar os pés e as panturrilhas doloridas, mas jamais interrompia o sorriso, os olhos brilhando de puro prazer. Exceto quando paravam para recuperar o fôlego, claro. Ou melhor, para ele recuperar o fôlego — a moça não parecia precisar. Assim que seus pés paravam, a língua disparava a galope. O mesmo, inclusive, acontecia quando ele tentava beijá-la: Betse sempre virava a cabeça e exclamava sobre uma coisa ou outra, de modo que ele acabava por lhe beijar a orelha ou os cabelos, em vez de os lábios. E ela sempre parecia se surpreender. Mat ainda não conseguira concluir se a mulher era muito tonta ou esperta demais.
O relógio já marcava quase duas da manhã quando ele enfim disse a Betse que ia parar pela noite. A decepção se estampou no belo rosto, e um biquinho apareceu. A moça tinha ânimo para dançar até amanhecer. Não estava só: uma das servas mais velhas massageava um dos pés, apoiada em uma parede, mas as outras pareciam tão animadas e alertas quanto Betse. A maioria dos homens parecia exausta e os que se deixavam arrastar para longe dos bancos estampavam sorrisos petrificados, mas a maior parte apenas recusava a dança. Mat não entendia. Concluiu que devia ser porque, na dança, quase todo o esforço ficava a cargo dos homens, tendo de conduzir tantas levantadas e rodopios. Além do mais, as mulheres eram leves, pular de um lado a outro simplesmente consumia menos de sua energia. Piscando para uma servente corpulenta que rodopiava Estean pelo salão, em vez do contrário — o homem sabia dançar, esse talento ele tinha —, Mat apertou uma moeda de ouro na mão de Betse, uma coroa andoriana bem gorda, para que ela comprasse algo bonito.
A mulher analisou a coroa por um instante, então se pôs nas pontas dos pés e o beijou de leve na boca, feito o roçar de uma pluma.
— Eu nunca enforcaria você, não importa o que fizesse. Dança comigo amanhã? — Antes que ele pudesse responder, a mulher deu uma risadinha e saiu em disparada, olhando-o por cima do ombro até começar a tentar puxar Edorion para a área da dança. A Senhora Daelvin interceptou o casal e enfiando um avental nas mãos de Betse, apontou o polegar na direção da cozinha.
Mat mancou de leve ao andar até a mesa encostada na parede dos fundos, onde Talmanes, Daerid e Nalesean haviam se escondido. Talmanes encarava a taça de vinho como se ali fosse encontrar respostas a questões profundas. Daerid, com um sorriso de orelha a orelha, observava Nalesean tentando se desvencilhar de uma servente roliça de olhos cinza e cabelos castanho-claros sem querer admitir para a moça que estava com os pés doloridos. Mat apoiou os punhos na mesa.
— O Bando segue para o sul ao amanhecer. É melhor vocês começarem a se aprontar.
Os três o encararam, boquiabertos.
— Mas isso é daqui a algumas horas — protestou Talmanes.
— Vai levar esse tempo só para tirar esses homens dos salões — disse Nalesean, ao mesmo tempo.
Estremecendo, Daerid sacudiu a cabeça.
— Ninguém vai dormir hoje à noite.
— Eu vou — respondeu Mat. — Algum de vocês me acorde daqui a duas horas. Assim que amanhecer, quero todo mundo em marcha.
E foi assim que se viu montado em Pips, seu robusto capão marrom, à cinzenta luz da aurora, levando a lança na sela e o arco longo sob a cilha. Estava com o sono atrasado e uma dor atrás dos olhos, observando o Bando da Mão Vermelha deixar Maerone. Todos os seis mil homens. Metade a cavalo, metade a pé, fazendo barulho o bastante para acordar os mortos. Apesar da hora, o povo se enfileirava nas ruas e olhava, atordoado, por detrás das janelas.
O estandarte quadrado de franjas vermelhas do Bando guiava o caminho, uma mão vermelha sobre um fundo branco, o lema bordado em carmesim logo abaixo: Dovie’andi se tovya sagain. “É hora de rolar os dados.” Nalesean, Daerid e Talmanes seguiam com o estandarte, dez homens montados batiam em atabales de latão com panos escarlate amarrados, e o mesmo número de trombeteiros somavam floreios aos sons. Atrás vinha a cavalaria de Nalesean, composta por uma mistura de cavaleiros tairenos e Defensores da Pedra, fidalgotes cairhienos ostentando con nas costas — os pequeninos estandartes que identificavam os oficiais de Cairhien — e serviçais em seu encalço, e um punhado de andorianos. Cada esquadrão e tropa tinha seu próprio estandarte comprido exibindo a Mão Vermelha, uma espada e um número. Mat os fizera sortear quem ficaria com cada número.
A mistura causara certa reclamação, ou mais do que isso, verdade fosse dita. No início, os cavalos cairhienos seguiam Talmanes, e os tairenos, Nalesean. Os homens a pé desde sempre se configuraram um grupo heterogêneo. Também houvera reclamações para que cada unidade tivesse o mesmo número de homens, além de protestos quanto aos números nas flâmulas. Os lordes e os capitães sempre reuniram o máximo de homens capazes de segui-los, e os grupos ficavam conhecidos como homens de Edorion, Meresin ou Alhandrin. Eles ainda faziam isso um pouco — por exemplo, os quinhentos de Edorion chamavam a si mesmos de Martelos de Edorion, não de Primeiro Esquadrão —, mas Mat lhes incutira a noção de que todos os homens pertenciam ao Bando, não às nações onde por acaso tivessem nascido, e quem não gostasse de fazer as coisas do jeito dele, que se sentisse livre para ir embora. O mais impressionante era que ninguém tinha ido.