— Então Demandred sabe que eu e você nos encontramos — comentou Sammael, impassível. Por que esperara receber algo menos que migalhas, daquela mulher?
— É claro que sabe. Não faz ideia de quanto eu lhe conto, mas sabe que conto uma parte. Estou tentando nos unir, Sammael, antes que seja…
Ele a interrompeu de repente.
— Entregue um recado meu a Demandred. Diga que eu sei o que ele está tramando. — Os acontecimentos do sul traziam a marca de Demandred, que sempre gostara de agir por representantes. — Diga a ele que tome cuidado. Não vou admitir que ele ou que seus amigos interfiram em meus planos. — Talvez pudesse direcionar a atenção de al’Thor para lá. Isso decerto daria um fim nele. Se não fosse possível por outros meios. — Contanto que fiquem longe de mim, os lacaios de Demandred podem escavar o que ele quiser, mas quero que mantenham distância, ou ele é quem vai responder por isso. — Houvera uma longa luta depois que a Fenda foi aberta na prisão do Grande Senhor, muitos anos antes de ser reunida força suficiente para um movimento declarado. Desta vez, quando o último selo fosse destruído, Sammael presentearia o Grande Senhor com nações dispostas a segui-lo. Que diferença faria se não soubessem a quem estavam seguindo? Sammael não falharia, como Be’lal e Rahvin. O Grande Senhor veria quem o servia melhor. — Diga a ele!
— Se é o que você deseja — respondeu Graendal, dando um sorriso relutante. Um instante depois, aquele sorriso indolente retornou a seu rosto. Ela estava sempre mudando de expressão. — Essas ameaças me esgotam. Venha. Escute a música e se acalme. — Sammael começou a dizer que não tinha interesse na música, como ela sabia muito bem, mas a mulher se voltou para o parapeito de mármore. — Lá estão eles. Escute.
O homem de pele muito escura e a mulher tinham ido até o pé do palanque com suas harpas peculiares. Sammael imaginou que os carrilhões acrescentassem algo à melodia, mas não sabia dizer o quê. Ao ver que Graendal os observava, os músicos abriram um sorriso reverente.
Apesar de tê-lo mandado escutar a música, Graendal continuou falando.
— Eles vêm de um lugar bem peculiar. As mulheres capazes de canalizar são forçadas a se casarem com filhos de mulheres com a mesma capacidade, e todas as pessoas dessas linhagens são marcadas com tatuagens no rosto logo ao nascer. Ninguém marcado tem permissão de se casar com alguém não marcado, e qualquer criança que nasça de tal união é morta. Os homens tatuados são mortos no vigésimo primeiro ano de vida, sem exceção, e passam a vida enclausurados, sem nem sequer aprender a ler.
Então ela voltara ao assunto, afinal de contas. Devia mesmo considerá-lo um idiota. Sammael decidiu plantar sua própria farpinha.
— Eles prendem uns aos outros feito criminosos?
Um lampejo de confusão assomou o olhar de Graendal, mas foi logo suprimido. Era evidente que a mulher não pensara no assunto — não havia por que ter pensado naquela relação. Pouca gente da época deles cometera sequer um crime violento, muito menos uma quantidade maior de infrações. Antes da Fenda, pelo menos. Mas claro que a mulher não admitia a própria ignorância. Em alguns momentos era melhor disfarçar a falta de conhecimento, mas Graendal costumava não fazer exceções à regra. Por isso Sammael fizera o comentário: sabia que aquilo a afetaria, e seria uma ótima punição pelas asneiras que ela não cansava de despejar em seus ouvidos.
— Não — respondeu a mulher, como se tivesse entendido. — Os Ayyad, como se denominam, vivem em seus vilarejos, evitando todas as outras pessoas, e supostamente nunca canalizam sem permissão ou por ordem dos Sh’botay ou Sh’boan. Na verdade, eles são o verdadeiro poder, são a razão pela qual os Sh’botay e Sh’boan só governam durante sete anos. — Graendal irrompeu em uma sonora gargalhada. Ela própria sempre acreditara que o melhor era ser o poder por trás do poder. — Pois sim, uma terra fascinante. Longe demais do centro para ser de alguma valia durante muitos anos, é claro. — A mulher fez um gesto sutil de dispensa, abanando os dedos cheios de anéis. — Teremos muito tempo para ver o que pode ser feito de lá, depois do Dia do Retorno.
Sim, Graendal obviamente queria induzi-lo a pensar que tinha algum interesse naquele lugar. Se de fato tivesse, nunca o teria mencionado. Sammael pôs o cálice intocado na bandeja que o sujeito musculoso estendeu para ele antes mesmo que movesse a mão. Graendal treinava muito bem os serviçais.
— Tenho certeza de que a música deles é fascinante. — Para quem se interessava por esse tipo de coisa. — Mas tenho uns preparativos para coordenar.
Graendal pousou a mão no braço dele.
— Preparativos meticulosos, eu creio? O Grande Senhor não vai gostar nem um pouco se você atrapalhar os planos dele.
Sammael comprimiu os lábios.
— Eu fiz tudo para convencer al’Thor de que não represento ameaça alguma, só faltou me render, mas o homem está obcecado.
— Você poderia abandonar Illian, recomeçar em algum outro lugar.
— Não! — Ele nunca fugira de Lews Therin, e não fugiria daquele bufão provinciano. O Grande Senhor não podia estar pretendendo colocar um sujeito daquele naipe acima dos Escolhidos. Acima dele! — Você me passou as ordens do Grande Senhor?
— Não gosto de ficar me repetindo, Sammael. — Sua voz guardava um toque de exasperação, e os olhos, certa raiva. — Se não acreditou em mim da primeira vez, não vai acreditar agora.
Ele a encarou por mais um instante, depois assentiu em um gesto brusco. Era muito provável que a mulher tivesse dito a verdade — mentir a respeito do Grande Senhor poderia causar um contra-ataque fatal.
— Não vejo motivo para nos encontrarmos outra vez até que você tenha algo a me contar, além da ausência de Semirhage. — Um breve olhar intrigado para os harpistas devia ser suficiente para fazê-la crer que a tentativa de desviar o foco do assunto fora bem-sucedida. Para não ficar muito óbvio, Sammael transformou o olhar em uma expressão de desaprovação para as pessoas que brincavam nas piscinas, os acrobatas e os outros. Todo aquele esforço despendido, toda aquela exibição de carne… tudo aquilo o enojava. — Da próxima vez, você pode ir a Illian.
Graendal deu de ombros, como se aquilo não importasse, mas moveu os lábios bem de leve — a audição dele, intensificada por saidin, captou “isso se você ainda estiver lá”.
Com frieza, Sammael abriu um portão de volta a Illian. O jovem musculoso não conseguiu se mover rápido o bastante — sequer teve tempo de gritar antes de morrer fatiado em dois, bem no meio, junto com a bandeja e a jarra de cristal. A borda de um portão fazia uma navalha parecer uma lâmina cega. Graendal franziu os lábios em um biquinho rabugento pela perda de um de seus bichinhos.
— Se quiser nos ajudar a permanecer vivos — disse Sammael —, descubra como Demandred e os outros pretendem levar adiante as instruções do Grande Senhor. — Sem desviar o olhar, ele adentrou o portão.
Graendal manteve a expressão contrariada até que o portão se fechasse atrás de Sammael, depois permitiu-se tamborilar com as unhas no parapeito de mármore. Sammael, com seus cabelos dourados, poderia ser belo o suficiente para figurar entre seus bichinhos, se deixasse Semirhage — a única que restava com a habilidade para fazer o que outrora fora uma tarefa simples — remover o sulco calcinado naquele rosto. Era inútil pensar naquilo. Melhor ponderar se seu esforço valeria a pena.
Shaofan e Chiape tocavam sua estranha música atonal, muito bonita, repleta de harmonias complexas e dissonâncias estranhas. Seus rostos refletiam a alegria de estar agradando Graendal. Ela assentiu, e o deleite da dupla foi quase palpável. Eles eram muito mais felizes agora do que se ela não os tivesse capturado. Tivera muito trabalho para obtê-los, e só o fizera para aqueles poucos minutos que passara com Sammael. Claro que poderia ter se preocupado menos — qualquer um daquelas terras teria servido —, mas tinha seus critérios, mesmo para preparar um subterfúgio momentâneo. Muito tempo antes, escolhera ir atrás de todos os prazeres, permitir-se tudo o que não a diminuísse aos olhos do Grande Senhor.