Nynaeve agarrou a trança com firmeza, indicação precisa de que estava ficando irritada. Pela primeira vez, Elayne concordou plenamente com a irritação. Era muito difícil ensinar a alunas que acreditavam saber mais do que de fato sabiam e que se achavam no direito de repreender a professora quando não aceitavam o contrário. Claro, as outras eram muito piores do que Siuan ou Leane. Onde estavam as outras?
Um movimento surgiu na rua. Seis mulheres envoltas no brilho tênue de saidar, que não desapareceram. Como de costume, Sheriam e o restante do conselho tinham se transportado em sonho a seus próprios aposentos e ido para a rua. Elayne não sabia ao certo quanto elas já compreendiam acerca dos atributos de Tel’aran’rhiod. De todo modo, as mulheres com frequência insistiam em fazer coisas do próprio jeito, mesmo quando havia um modo melhor de fazê-las. Quem poderia saber mais que uma Aes Sedai?
As seis mulheres recém-chegadas de fato eram novatas em Tel’aran’rhiod, e a cada vez que Elayne as olhava seus vestidos tinham mudado. De início, uma delas usava o xale bordado de Aes Sedai, com franjas na cor de sua Ajah e a Chama de Tar Valon — uma robusta lágrima branca — bordada na parte de trás. Depois quatro delas vestiam o xale. Depois nenhuma. Por vezes, alguma usava uma capa leve de viagem daquelas que só servem para impedir a poeira da estrada de sujar as roupas, sempre com a Chama atrás e do lado esquerdo do peito. Suas feições etéreas não se mostravam afetadas pelo calor, claro — as Aes Sedai nunca demonstravam sentir calor —, nem que estavam cientes das alterações em suas vestimentas.
As mulheres pareciam tão indistintas quanto Nynaeve ou Leane. Sheriam e as outras confiavam mais nos ter’angreal que requeriam canalização para adentrar os sonhos do que nos anéis. Simplesmente não pareciam querer crer que Tel’aran’rhiod não tinha relação alguma com o Poder Único. Pelo menos Elayne não podia dizer quais delas estavam usando as cópias. Dentre as mulheres, haveria três com um disquinho feito de um material que um dia fora ferro, gravado dos dois lados com uma espiral compacta e acionado por um fluxo de Espírito, o único dos Cinco Poderes capaz de ser canalizado durante o sono — com exceção de onde estavam, é claro. As outras três estariam portando pequenas placas que um dia foram de âmbar, com uma mulher dormindo gravada dentro de cada uma. Ainda que tivesse diante de si todos os seis ter’angreal, Elayne não seria capaz de distinguir os três originais. As cópias tinham saído muito boas. Mesmo assim, eram cópias.
Pôde ouvir o fim da conversa enquanto as Aes Sedai vinham descendo a rua de terra batida, mas não entendeu nada.
— … vão desdenhar da nossa escolha, Carlinya — dizia Sheriam, com seus cabelos de fogo —, mas vão desprezar qualquer escolha que façamos. Nós podemos muito bem manter a nossa decisão. Você não precisa que eu liste os motivos outra vez.
Morvrin, uma corpulenta irmã Marrom com mechas grisalhas nos cabelos, riu com desdém.
— Depois de todo o nosso trabalho com o Salão, teríamos um trabalhão para fazê-las mudar de ideia.
— Desde que nenhum governante nos ridicularize, de que isso nos importa? — indagou Myrelle, em um tom acalorado. A mais jovem das seis, Aes Sedai havia poucos anos, ela parecia bastante irritada.
— Que governante ousaria? — perguntou Anaiya, parecendo uma dona de casa inquirindo que criança ousaria pisar em seus carpetes com os sapatos sujos de lama. — De todo modo, nenhum rei ou rainha sabe o bastante do que se passa entre as Aes Sedai para entender. Só a opinião das irmãs deve ser motivo de preocupação, não a deles.
— O que me preocupa — retrucou Carlinya, impassível — é que, se tivermos facilidade em manipulá-la, outros também podem ter. — A irmã Branca, de pele pálida e olhos quase negros, estava sempre impassível, alguns diriam gélida.
Fosse qual fosse o assunto, não era nada que quisessem debater na frente de Elayne e das outras. Logo antes de encontrá-las, as mulheres se calaram.
Siuan e Leane reagiram às recém-chegadas dando subitamente as costas uma para a outra, como se sua conversa tivesse sido interrompida pelas Aes Sedai. Elayne, por sua vez, na mesma hora baixou a cabeça para conferir o vestido. Era o correto, branco com as listras. Não sabia como se sentia a respeito de ter surgido, sem nem pensar, já com o vestido certo — podia apostar que Nynaeve tivera de trocar a roupa depois de chegar. Por outro lado, Nynaeve era muito mais intrépida do que ela, desafiando limites aos quais ela mesma se sujeitara. Como conseguiria governar Andor? Isso se sua mãe estivesse morta. Se.
Sheriam, meio gorducha e com as maçãs do rosto proeminentes, voltou os olhos verdes e oblíquos para Siuan e Leane. Por um momento, usava um xale de franjas azuis.
— Se vocês duas não aprenderem a se dar bem, juro que as mandarei para Tiana. — Parecia algo dito com tanta frequência que já perdera o tom de ameaça.
— Vocês trabalharam juntas por bastante tempo — interveio Beonin, com seu sotaque taraboniano carregado. Era uma bela irmã Cinza, com cabelos cor de mel em uma infinidade de tranças e olhos azuis acinzentados que pareciam sempre sobressaltados. No entanto, nada surpreendia Beonin. A cada novo dia, ela só acreditava no nascer do sol se o visse com os próprios olhos, e Elayne achava que, se alguma manhã não visse o sol nascer, Beonin não arrepiaria um só fio de cabelo. Só se consideraria vingada por sempre ter exigido provas. — Então podem e devem trabalhar juntas outra vez.
Beonin soava como se tivesse dito aquilo tantas vezes que mal tinha que pensar para repetir a frase. Todas as Aes Sedai estavam acostumadas com Siuan e Leane. Tinham começado a tratá-las da mesma forma que tratariam garotinhas incapazes de parar de brigar. As Aes Sedai de fato tendiam a ver qualquer adulto como criança. Até aquelas duas, que um dia haviam sido suas irmãs.
— Você pode mandar as duas para Tiana ou não — vociferou Myrelle —, mas pare de falar nisso. — Elayne não achava que a mulher de beleza soturna estivesse irritada com Siuan ou Leane. Talvez não fosse nada ou ninguém em particular. Seu temperamento difícil era famoso até entre as Verdes. O vestido de seda amarelo-ouro passou a ostentar uma gola alta, mas com um recorte oval que expunha o topo dos seios. Ela também usava um colar curioso, uma larga gargantilha de prata sustentando três pequenas adagas cujos punhos repousavam sobre o decote. Uma quarta adaga apareceu e desapareceu tão depressa que poderia ter sido imaginação. Ela olhou Nynaeve de cima a baixo, como se buscasse alguma imperfeição. — Estamos indo para a Torre ou não? Se temos que fazer isso, podemos muito bem aproveitar o tempo gasto para fazer algo de útil.
Elayne então entendeu o motivo da irritação de Myrelle. Logo que ela e Nynaeve chegaram a Salidar, tinham encontros com Egwene em Tel’aran’rhiod a cada sete dias para compartilhar suas descobertas. O que nem sempre era fácil, já que Egwene era acompanhada de pelo menos uma das Andarilhas do Sonho Aiel com quem estava estudando. Encontrar-se sem uma ou duas das Sábias fora um tanto difícil. De todo modo, tudo aquilo acabou quando elas chegaram a Salidar. Aquelas seis Aes Sedai do conselho de Sheriam tinham assumido o controle dos encontros, mas tinham apenas os três ter’angreal originais e pouco conhecimento acerca de Tel’aran’rhiod além de como adentrá-lo. Tinha sido exatamente na época em que Egwene fora ferida, de forma que as Aes Sedai tinham que lidar sozinhas com as Sábias. Eram encontros de dois grupos de mulheres orgulhosas e resolutas, cada um desconfiado do que o outro queria, nenhum disposto a ceder ou baixar a cabeça um tantinho que fosse.