Elayne estremeceu.
— Criança — retrucou Anaiya, com gentileza, ajustando o xale de franjas azuis que de súbito surgiu sobre seus braços —, você tem feito um excelente trabalho, mas isso não é desculpa para falar com tamanha irritação.
— Você ganhou muitos privilégios — concordou Myrelle, sem o mesmo tom gentil —, mas parece estar se esquecendo de que são privilégios. — Sua carranca devia ter sido suficiente para fazer até Nynaeve estremecer. Myrelle, nas semanas anteriores, agira de maneira cada vez mais dura com a Aceita. E agora também usava o xale. Todas usavam. Péssimo sinal.
Morvrin bufou audivelmente.
— Quando eu era Aceita, qualquer garota que falasse com uma Aes Sedai dessa maneira teria passado o mês esfregando o chão, mesmo que estivesse para ser elevada no dia seguinte.
Elayne mais que depressa se pronunciou, torcendo para conseguir se antecipar ao desastre. Nynaeve pusera no rosto o que ela acreditava ser uma expressão de complacência, porém estava mais para uma careta emburrada e teimosa.
— Tenho certeza de que ela não teve a menor intenção, Aes Sedai. Temos trabalhado demais. Por favor, nos perdoe. — Incluir a si mesma poderia ser de alguma ajuda, já que não tinha feito nada. E poderia fazer com que as duas acabassem esfregando o chão. Pelo menos aquilo fez Nynaeve olhar para ela. E, ao que parecia, a levou a refletir, já que a amiga assumiu uma expressão de fato complacente, fez uma mesura e encarou o chão, como se estivesse envergonhada. E talvez estivesse mesmo. Talvez. Elayne apressou-se em prosseguir, como se Nynaeve tivesse pedido desculpas formais e as outras tivessem aceitado. — Sei que todas vocês querem passar o máximo de tempo possível na Torre, então talvez seja melhor não nos demorarmos mais? Que tal se todas visualizarem o gabinete de Elaida da maneira exata como o viram da última vez? — Ali em Salidar, Elaida jamais era chamada de Amyrlin. Da mesma forma, o gabinete da Amyrlin na Torre Branca tivera o nome alterado. — Peço que todas visualizem o lugar bem fixamente, para que cheguemos lá juntas.
Anaiya foi a primeira a assentir, mas até Carlinya e Beonin se deixaram contornar.
Não ficou claro se as dez mulheres se deslocaram ou se foi Tel’aran’rhiod que se deslocou em torno delas. Poderia ter sido ambas as coisas, pelo pouco que Elayne de fato compreendia. O Mundo dos Sonhos era de uma maleabilidade quase infinita. Primeiro estavam todas na rua em Salidar, mas, no instante seguinte, se viram no interior de um aposento grande e todo ornamentado. As Aes Sedai assentiram, satisfeitas, ainda inexperientes a ponto de se contentar com tudo o que funcionasse de acordo com o planejado.
Assim como Tel’aran’rhiod refletia o mundo desperto, aquele aposento refletia o poder das mulheres que o haviam ocupado durante os últimos três mil anos. Os grandes abajures de chão dourados estavam apagados, mas havia luz, à maneira estranha dos sonhos e de Tel’aran’rhiod. A comprida lareira era de mármore dourado de Kandor, e o chão, de pedra vermelha polida das Montanhas da Névoa. Os painéis das paredes tinham sido instalados havia relativamente pouco tempo, meros mil anos. Eram de madeira clara, com linhas desiguais e entalhes de bestas e pássaros maravilhosos, que Elayne tinha certeza de serem originários da imaginação do escultor. Reluzentes pedras peroladas emolduravam as imensas janelas em arco que levavam até a sacada com vista para o jardim particular da Amyrlin — aquela pedra fora extraída de uma cidade sem nome, submersa no Mar das Tempestades durante a Ruptura do Mundo, e ninguém jamais encontrara material similar.
Cada mulher que utilizava aquele aposento deixava ali sua própria marca, ainda que apenas durante o período de sua posse, e com Elaida não era diferente. Uma pesada cadeira com ares de trono, com uma Chama de Tar Valon de marfim coroando o espaldar alto, jazia atrás de uma pesada escrivaninha ornamentada com entalhes de três anéis conectados. Sobre a mesa havia apenas três caixas de laca altaranas, cada uma precisamente à mesma distância das outras. Um vaso branco liso repousava no topo de um austero pedestal recostado a uma parede. O vaso continha rosas cujo número e cor mudavam a cada olhada, porém sempre dispostas em arranjos muito sóbrios e rígidos. Rosas naquela época do ano, com aquele clima! O Poder Único fora desperdiçado só para fazê-las florescer. Elaida fazia o mesmo quando era conselheira da mãe de Elayne.
Acima da lareira estava pendurada uma pintura no novo estilo, em lona estendida, de dois homens lutando entre as nuvens, disparando raios. Um deles tinha rosto de fogo, o outro era Rand. Elayne estivera em Falme durante aquele episódio, e a pintura não estava muito longe da realidade. A tela fora rasgada bem em cima do rosto de Rand, ao que parecia pelo arremesso de um objeto pesado, e havia um remendo quase invisível. Estava claro que Elaida queria uma lembrança constante do Dragão Renascido — e estava igualmente claro que a mulher não ficava muito feliz em ter que olhar para ele.
— Se me dão licença — pediu Leane, antes mesmo que todas terminassem de menear a cabeça, satisfeitas —, preciso ver se meu povo recebeu minhas mensagens.
Todas as Ajahs, exceto a Branca, tinham uma rede de olhos-e-ouvidos espalhada pelas nações, e um bom número de Aes Sedai tinha sua rede própria, mas Leane era rara, talvez única — como Curadora, criara uma rede dentro da própria Tar Valon. No instante em que falou, a mulher desapareceu.
— Ela não devia andar por aqui sozinha — comentou Sheriam, exasperada. — Nynaeve, vá atrás dela. E fiquem juntas.
Nynaeve deu um puxão na trança.
— Eu não acho que…
— Você “não acha” um pouco demais — interrompeu Myrelle. — Pelo menos uma vez na vida, Aceita, faça o que lhe for mandado. E na hora em que for mandado.
Trocando um olhar azedo com Elayne, Nynaeve assentiu, claramente engolindo uma bufada, e desapareceu. Elayne não foi muito simpática ao sofrimento da amiga. Se Nynaeve não tivesse cedido à própria irritação em Salidar, talvez tivesse podido explicar que seria impossível encontrar Leane, que a mulher podia estar em qualquer lugar da cidade e que fazia semanas que ela vinha se aventurando sozinha em Tel’aran’rhiod.
— Agora vamos ver o que podemos descobrir — disse Morvrin.
Porém, antes que as outras pudessem se mexer, Elaida surgiu atrás da escrivaninha, os olhos vidrados. Uma mulher inflexível, de beleza masculina e olhos e cabelos escuros, Elaida usava um vestido vermelho-sangue e a estola listrada do Trono de Amyrlin por sobre os ombros.
— Como eu Previ — entoou. — A Torre Branca vai se reunir sob o meu comando. Sob o meu comando! — Ela apontou para o chão, irritada. — Ajoelhem-se e peçam perdão por seus pecados! — Com isso, ela sumiu.
Elayne soltou um longo suspiro, então sentiu-se grata ao perceber que não fora a única.
— Uma Previsão? — Beonin franziu a testa, pensativa. Não parecia preocupada, mas poderia muito bem estar. Elaida de fato tinha o dom da Previsão, ainda que não fosse constante. Quando a Previsão dominava uma mulher e ela previa um acontecimento, acontecia.
— Um sonho — retrucou Elayne, e ficou surpresa em ver como sua voz estava firme. — Ela está dormindo e sonhando. Não me admira que sonhe tudo conforme seu gosto. — Por favor, Luz, que seja apenas isso.
— Perceberam a estola? — perguntou Anaiya, a ninguém em particular. — Não tinha listra azul. — A estola da Amyrlin deveria exibir uma listra para cada uma das sete Ajahs.
— Um sonho — repetiu Sheriam, inexpressiva. Soava destemida, mas usava outra vez o xale de franjas azuis, que apertava em volta do corpo. Anaiya também.
— Seja isso ou não — interveio Morvrin, muito calma —, é melhor fazermos o que viemos fazer. — Pouca coisa a amedrontava.