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A súbita agitação desencadeada pelas palavras da irmã Marrom deixou muito claro como todas tinham ficado paralisadas. Ela, Carlinya e Anaiya mais que depressa saíram para a antessala, onde estaria a mesa de trabalho da Curadora — Alviarin Freidhen, sob as ordens de Elaida. Uma Branca, por estranho que fosse, já que a Curadora sempre vinha da mesma Ajah da Amyrlin.

Siuan olhou irritada para as mulheres que saíam. Ela sempre dizia que havia mais a se descobrir com os papéis de Alviarin do que os de Elaida, pois a Branca às vezes parecia saber mais do que a mulher a quem supostamente servia, e por duas vezes Siuan encontrou provas de que Alviarin havia ido contra as ordens de Elaida sem repercussão aparente. Não que tivesse revelado tais ordens a Elayne ou Nynaeve. O que Siuan decidia compartilhar era bem limitado.

Sheriam, Beonin e Myrelle se reuniram diante da mesa de Elaida, abriram uma das caixas de laca e começaram a revirar os papéis lá dentro. Era ali que Elaida guardava as correspondências e os relatórios recentes. A caixa, entalhada com gaviões dourados lutando entre as nuvens brancas de um céu azul, cismava em fechar de repente toda vez que uma delas soltava a tampa, até que as mulheres se lembraram de mantê-la presa, mas os papéis também se modificavam durante a leitura. Papel era mesmo uma matéria efêmera. Entre tsc, tsc exaltados e suspiros de irritação, as Aes Sedai perseveraram.

— Aqui tem um relatório de Danelle — anunciou Myrelle, passando os olhos por uma das folhas. Siuan tentou juntar-se a elas, pois Danelle, uma jovem Marrom, fizera parte do grupo de conspiradoras que a depusera; mas Beonin olhou feio para a antiga Amyrlin, que retornou para o canto, resmungando sozinha. Beonin voltou a atenção à caixa e aos documentos antes mesmo que Siuan desse três passos, e as outras duas nem sequer perceberam a troca. Myrelle continuou: — Ela diz que Mattin Stepaneos aceita cordialmente, que Roedran ainda está tentando ouvir de todos os lados e que Alliandre e Tylin querem mais tempo para considerar a resposta. Tem uma observação aqui, na caligrafia de Elaida: “Pressione-os!” — A mulher estalou a língua enquanto o relatório se desfazia em suas mãos, transformando-se em ar. — Não dizia em relação ao quê, mas só pode haver duas possibilidades que envolva aqueles quatro.

Mattin Stepaneos era Rei de Illian, e Roedran, de Murandy, enquanto Alliandre era Rainha de Ghealdan, e Tylin, de Altara. O assunto só podia ser Rand ou as Aes Sedai em oposição a Elaida.

— Pelo menos sabemos que nossas emissárias ainda têm as mesmas chances que as de Elaida — comentou Sheriam.

Claro, Salidar não mandara ninguém até Mattin Stepaneos, pois Lorde Brend, do Conselho dos Nove — na verdade Sammael —, era quem detinha o poder em Illian. Elayne queria muito poder saber que proposta de Elaida Sammael estava disposto a apoiar, ou pelo menos permitir que Mattin Stepaneos dissesse que ele iria apoiar. Tinha certeza de que as três Aes Sedai também queriam muito saber, mas elas apenas continuaram pegando documentos de dentro da caixa de laca.

— O mandado de prisão para Moiraine ainda está em vigor — anunciou Beonin, balançando a cabeça enquanto a folha em sua mão de súbito se transformava em um grosso calhamaço de papéis. — Ela ainda não sabe que Moiraine morreu. — Franzindo o cenho para os papéis, ela os deixou cair. As folhas se espalharam e se dissolveram no ar antes de chegar ao chão. — E Elaida continua pretendendo construir um palácio para si.

— Bem típico dela — retrucou Sheriam, num tom seco. Estendeu a mão com um tranco e apanhou o que parecia um bilhete. — Shemerin fugiu. A Aceita Shemerin.

As três olharam para Elayne antes de voltar a atenção à caixa, que tiveram que abrir outra vez. Ninguém fez qualquer comentário em relação às palavras de Sheriam.

Elayne quase rangeu os dentes. Ela e Nynaeve tinham dito às outras que Elaida estava rebaixando Shemerin, uma irmã Amarela, a Aceita, mas elas naturalmente não tinham acreditado. Era possível obrigar uma Aes Sedai a cumprir penitências, era possível bani-la, mas não era possível rebaixá-la, a não ser que fosse estancada. Porém, fora exatamente isso que Elaida fizera, fossem quais fossem as leis da Torre. Talvez ela estivesse reescrevendo as leis da Torre.

A verdade era que muitas coisas que haviam contado àquelas mulheres não tinham sido levadas a sério. Moças tão novas, Aceitas, não podiam ter tanto conhecimento sobre o mundo a ponto de saberem o que podia ou não ser verdade. Jovens eram crédulas, ingênuas, podiam muito bem ver e acreditar em algo que com certeza não existia. Elayne se esforçou para não bater o pé. Uma Aceita aceitava o que as Aes Sedai desejassem oferecer e não pedia o que as Aes Sedai escolhessem guardar para si. Como pedidos de desculpas. A Filha-herdeira preservou o rosto sereno e conteve a ira.

Siuan não se sentia presa a tais amarras. Pelo menos, não na maior parte do tempo. Quando as Aes Sedai não estavam olhando, sempre lhes dispensava uma carranca. Naturalmente, se uma das três lhe dirigisse o olhar, ela na mesma hora assumia uma expressão mansa. Era muito experiente nisso. Um leão sobrevive sendo leão, dissera certa vez a Elayne, e um rato, sendo rato. Mas Siuan dava um rato muito pertinaz.

Elayne pensou ter detectado preocupação nos olhos da antiga Amyrlin. Aquela tarefa fora dela desde que Siuan provara às Aes Sedai que podia usar o anel com segurança — na verdade, depois de ela e Leane terem aulas secretas ministradas por Nynaeve e Elayne —, além de ser uma excelente fonte de informações. Restabelecer contato com os olhos-e-ouvidos espalhados pelas nações e redirecionar os informes da Torre para Salidar levava tempo. Se Sheriam e as outras pretendiam assumir o controle daquilo, Siuan poderia se tornar menos útil. Nenhuma rede de agentes da história da Torre jamais fora comandada por ninguém menos que uma irmã completa antes que a antiga Amyrlin chegasse a Salidar com seu conhecimento sobre os olhos-e-ouvidos do Trono e da Ajah Azul, que ela comandara antes de se tornar Amyrlin. Beonin e Carlinya mostravam relutância em depender de uma mulher que já não era uma delas, e as outras não pareciam pensar muito diferente. Verdade fosse dita, nenhuma delas se sentia muito confortável perto de uma mulher estancada.

E também não havia nada que Elayne pudesse fazer. As Aes Sedai poderiam chamar aquilo de instrução, poderiam até pensar que fosse, mas ela sabia por experiência própria que, se tentasse ensinar qualquer coisa sem que lhe fosse solicitado, seria repreendida na hora. Estava ali para responder às perguntas e nada mais. Pensou em um banquinho que apareceu na mesma hora — tinha entalhes de vinhas nos pés —, e se sentou para esperar. Uma cadeira seria mais confortável, mas talvez gerasse comentários. Uma Aceita sentada muito confortavelmente em geral era considerada uma Aceita sem tarefas o bastante. Depois de um instante, Siuan conjurou um banquinho quase idêntico e abriu um sorriso tenso para Elayne… e uma careta de desprezo para as costas das Aes Sedai.

Da primeira vez que Elayne visitara aquele aposento em Tel’aran’rhiod, havia um semicírculo de banquinhos similares, uma dúzia ou mais, diante da robusta mesa entalhada. A cada visita havia menos, e agora, ela não via nenhum. Tinha certeza de que isso indicava alguma coisa, embora não conseguisse imaginar o quê. Tinha certeza de que Siuan pensava o mesmo e que, muito provavelmente, já desvendara a razão. Mas, se era o caso, não compartilhara a explicação com Elayne e Nynaeve.

— Os combates em Shienar e Arafel estão arrefecendo — murmurou Sheriam, meio que para si mesma —, mas ainda não tem nada aqui que indique por que começaram. Apenas escaramuças, só que os homens da Fronteira não lutam entre si. Eles têm que lidar com a Praga. — Ela era de Saldaea, uma das Terras da Fronteira.

— Pelo menos a Praga continua em paz — comentou Myrelle. — Paz até demais. Isso não vai durar muito. Ainda bem que Elaida tem muitos olhos-e-ouvidos pelas Terras da Fronteira.