— Como vocês podem sequer pensar que Rand escutaria qualquer coisa vinda de Elaida? Acham que ele não sabe que ela era da Ajah Vermelha e o que isso significa? Elas não vão oferecer apoio, e vocês sabem disso. Nós precisamos avisá-lo! — Havia contradição naquilo, e ela sabia, mas estava tomada de preocupação. Morreria se alguma coisa acontecesse a Rand.
— E como é que você sugere que nós façamos isso, Aceita? — inquiriu Sheriam, com frieza.
Elayne temia que estivesse parecendo um peixe, com a boca escancarada daquele jeito. Não fazia ideia de que resposta dar. E foi salva por um berro ao longe, de repente, seguido por gritos indistintos vindos da antessala. Estava mais perto da porta, mas quando saiu correndo as outras vieram logo atrás.
O quarto estava vazio, exceto pela escrivaninha da Curadora, com pilhas de papéis e montes de rolos e documentos, e uma fileira de cadeiras encostadas em uma das paredes, onde as Aes Sedai se sentavam enquanto aguardavam para falar com Elaida. Anaiya, Morvrin e Carlinya tinham sumido, mas uma das altas portas de entrada ainda estava se fechando. Os gritos frenéticos de uma mulher ecoavam pela abertura estreita. Sheriam, Myrelle e Beonin quase derrubaram Elayne no desespero de chegar à parede. Podiam ter a aparência indistinta, mas tinham corpos concretos até demais.
— Tomem cuidado — gritou Elayne, mas não havia nada a fazer além de juntar as saias e correr com Siuan.
Adentraram a cena de um pesadelo. Literalmente. A cerca de trinta passos à direita, o corredor cheio de tapeçarias de súbito se abria em uma caverna de pedras que se estendia infinitamente, iluminada em alguns trechos pelo fraco brilho avermelhado das fogueiras e dos braseiros espalhados. Havia Trollocs por toda parte, imensas silhuetas com contornos de gente, os rostos demasiadamente humanos distorcidos por focinhos, trombas e bicos bestiais, além de chifres, presas ou cristas emplumadas. Os que estavam mais longe pareciam mais indefinidos que os próximos, como se os mais distantes não estivessem completamente ali, ao passo que os mais próximos eram gigantes, duas vezes maiores que um homem, maiores até do que um Trolloc de verdade, todos envoltos em couro e malha negra com ponteiras, uivando e cabriolando por entre fogueiras, caldeirões, rodas de tortura, estranhas molduras pregueadas e outros utensílios de metal.
Era de fato um pesadelo, porém maior do que qualquer outro que Elayne já tivesse ouvido Egwene ou as Sábias mencionarem. Depois de deixarem a mente de quem as criava, essas criaturas às vezes vagavam pelo Mundo dos Sonhos e se fixavam em algum lugar. Assim que as encontravam, as Andarilhas dos Sonhos Aiel as destruíam com toda a tranquilidade, mas as Sábias — e Egwene — tinham lhe dito que o melhor a fazer era evitar qualquer criatura com quem topasse. Infelizmente, Carlinya não devia ter prestado atenção quando ela e Nynaeve passaram o conselho adiante.
A irmã Branca estava amarrada e pendurada pelos tornozelos por uma corrente que sumia na escuridão acima. Aos olhos de Elayne, o tênue brilho de saidar ainda a rodeava, mas Carlinya se contorcia e gritava freneticamente enquanto era abaixada de ponta cabeça em direção a um imenso caldeirão negro cheio de óleo fervente.
Ao mesmo tempo que Elayne avançava pelo corredor, Anaiya e Morvrin pararam na fronteira do pesadelo, onde o chão da torre de repente se transformava em caverna. Assim que pararam, suas formas indistintas começaram a se espichar para dentro da borda, feito fumaça entrando em uma chaminé. Na mesma hora ambas surgiram do lado de dentro, Morvrin aos berros enquanto dois Trollocs giravam imensas rodas de ferro que a faziam se esticar cada vez mais, Anaiya pendurada pelos pulsos com Trollocs dançando à sua volta, fustigando-a com chicotes com pontas de metal que deixavam rasgos enormes em seu vestido.
— Precisamos nos unir — anunciou Sheriam, e o brilho tênue que a envolvia se fundiu com o de Myrelle e o de Beonin. Mesmo assim não chegou nem perto do brilho capaz de envolver uma única mulher no mundo desperto, uma mulher que não fosse um sonho nebuloso.
— Não! — gritou Elayne, desesperada. — Vocês não podem aceitar isso como real! Tem que tratar a situação como… — Ela agarrou o braço de Sheriam, mas o fluxo de Fogo que as três haviam urdido, tênue mesmo com o elo, tocou a fronteira entre sonho e pesadelo. A trama desapareceu, como se absorvida pelo pesadelo, e no mesmo instante as três começaram a se espichar feito brumas levadas pelo vento. Só tiveram tempo de gritar, surpresas, antes de tocar a fronteira e desaparecer. Sheriam ressurgiu lá dentro com a cabeça para fora de um objeto de metal escuro em formato de sino; ao seu redor os Trollocs giravam manivelas e impulsionavam alavancas, e os cabelos ruivos da Aes Sedai balançavam enquanto ela guinchava cada vez mais alto. Das outras duas não havia sinal, mas Elayne achou que ouvia mais berros ao longe, com gritos ininterruptos de “Não!” e mais pedidos de ajuda.
— Você lembra o que lhe dissemos sobre como desfazer pesadelos? — perguntou Elayne.
Com os olhos fixos na cena à frente, Siuan assentiu.
— Negar a realidade deles. Tentar visualizar mentalmente como as coisas seriam fora dele.
Aquele tinha sido o erro de Sheriam, e decerto o erro de todas as outras Aes Sedai. Ao tentar canalizar para combater o pesadelo, elas o tinham aceitado como verdade, e essa aceitação tragara todas para dentro do pesadelo exatamente como se elas o estivessem sonhando, deixando-as impotentes. A única saída era recordar o conselho, o que elas não davam sinal de sequer tentar fazer. Os ganidos cada vez mais altos penetravam os ouvidos de Elayne.
— O corredor — murmurou a Filha-herdeira, tentando formar na mente a imagem da última vez que o vira. — Pense em como era o corredor.
— Estou tentando, garota — rosnou Siuan. — Não está funcionando.
Elayne suspirou. Siuan tinha razão. Nenhuma linha da cena diante delas sequer estremeceu. A cabeça de Sheriam quase vibrava acima da mortalha de metal que envolvia o restante de seu corpo. Os uivos de Morvrin saíam feito arquejos contidos, e Elayne quase podia ouvir suas articulações sendo rompidas. Os cabelos de Carlinya, pendurados logo abaixo do corpo de ponta-cabeça, já quase tocavam a superfície borbulhante do óleo quente. Duas mulheres não eram o bastante. O pesadelo era grande demais.
— Precisamos das outras — anunciou.
— Leane e Nynaeve? Garota, mesmo que soubéssemos onde encontrá-las, Sheriam e as outras estariam mortas antes de… — Siuan foi baixando a voz, encarando Elayne. — Você não está falando de Leane e Nynaeve, está? Está falando de Sheriam e… — Elayne apenas assentiu, assustada demais para verbalizar. — Acho que elas não podem nos ouvir daqui, nem nos ver. Esses Trollocs nem sequer olharam na nossa direção. O que quer dizer que teremos que tentar fazer isso pelo lado de dentro. — Elayne assentiu outra vez. — Garota — a voz de Siuan estava inexpressiva —, você tem a coragem de um leão, mas o bom senso de um pássaro-peixe. — Com um suspiro pesado, ela acrescentou: — Bem, eu mesma não vejo outra maneira.
Elayne concordava com tudo, menos em relação à coragem. Se não estivesse com os joelhos travados, já teria se jogado aos soluços no chão de azulejos com as cores de todas as Ajahs. Percebeu que tinha uma espada na mão, uma lâmina comprida de aço reluzente completamente inútil ali, mesmo se soubesse como empunhá-la. Largou a arma, que desapareceu antes de tocar o chão.
— Essa demora não está ajudando em nada — resmungou. Mais algum tempo, e a pouca coragem que conseguira reunir acabaria por evaporar.
Juntas, ela e Siuan deram um passo em direção à fronteira. Elayne deixou o pé tocar aquela linha divisória, e de súbito se sentiu sendo puxada para dentro, sugada feito água por um tubo.
Primeiro estava parada de pé no corredor, encarando aqueles horrores, e, no instante seguinte, estava deitada de barriga para baixo na pedra cinza bruta, os pulsos e os tornozelos presos bem forte às costas, com os mesmos horrores à sua volta. A caverna se estendia infinitamente em todas as direções, e o corredor da torre já não parecia existir. Gritos ecoavam pelo ar, vindos das paredes de pedra e do teto cheio de estalactites. A poucos passos, um imenso caldeirão negro borbulhava sobre um fogo imenso e crepitante. Um Trolloc com focinho de javali, arrematado com presas, jogava lá dentro uns caroços que pareciam raízes impossíveis de identificar. Um panelão. Trollocs comiam qualquer coisa. Até gente. Elayne pensou nas mãos e nos pés livres, mas a corda áspera ainda comprimia sua carne. Até a sombra pálida de saidar desparecera, a Fonte Verdadeira já não existia para ela — não ali. Um pesadelo de verdade, e fora capturada por completo.