Avistou Dagdara Finchey, que era tão robusta quanto qualquer homem ali na rua e mais alta do que a média, avançando por entre a multidão. Ver a Amarela de rosto redondo só a deixou mais irritada. Um dos motivos para permanecer ali em Salidar era estudar com as Amarelas, que todos diziam conhecer a arte da Cura melhor do que ninguém. Bem, se alguma delas sabia mais que Nynaeve sobre Cura, não estava disposta a compartilhar seus conhecimentos com uma reles Aceita. Tinha pensado que as Amarelas seriam as mais receptivas ao seu desejo de Curar tudo e todos, inclusive o estancamento, mas era o grupo que parecia menos animado com a ideia. Não fosse a intervenção de Sheriam, Dagdara a teria mandado esfregar o chão dia e noite até ela desistir dessas “bobagens e perdas de tempo”; e Nisao Dachen, uma Amarela bem baixinha de olhos penetrantes, se recusava até a falar com Nynaeve enquanto ela insistisse em tentar “alterar a forma da trama do Padrão”.
E, para piorar a situação, os sentidos ainda diziam que uma tempestade estava para chegar, cada vez mais próxima, embora ela continuasse sofrendo os efeitos do céu completamente sem nuvens com um sol escaldante.
Resmungando sozinha, Nynaeve enfiou a caneca de barro na traseira de um carrinho de madeira e seguiu pela rua abarrotada desviando dos outros transeuntes. Sua única opção era seguir com o dia até Moghedien estar livre, e só a Luz sabia quanto isso ia demorar. Uma manhã inteira perdida somada a uma longa lista de dias perdidos.
Muitas das Aes Sedai meneavam a cabeça e sorriam para ela, mas bastava forçar um sorriso de desculpas e acelerar um tantinho o passo, como se estivesse com pressa, para evitar ser parada pelas inevitáveis perguntas sobre que novidades podiam esperar dela. Com seu humor atual, poderia acabar respondendo exatamente o que estava pensando, uma atitude extremamente tola. Ficavam ali fazendo nada. Querendo que ela adivinhasse o que Rand faria. Mandando-a cortar o cabelo. Argh!
Claro que não recebeu apenas sorrisos. Quando se deparou com a pequena Nisao, que agiu como se ela fosse invisível, ainda teve que pular para fora do caminho para não ser atropelada pela Amarela. E uma Aes Sedai altiva, de cabelos claros, olhos azuis e queixo proeminente, guiando um capão ruano alto pela multidão, passou olhando feio para ela. Nynaeve não a reconheceu. Ela estava muito arrumada, usando um vestido de montaria de seda cinza-claro, mas a capa de linho leve dobrada na frente da sela indicava que a mulher tinha acabado de chegar — outro indício era o Guardião magricela de casaco verde que vinha atrás dela, montado em um cavalo de batalha alto e cinzento e com um ar apreensivo. Os Guardiões nunca pareciam apreensivos, mas Nynaeve imaginou que poderiam abrir uma exceção quando sua Aes Sedai decidia se juntar a uma rebelião contra a Torre. Luz! Até os recém-chegados a irritavam!
Então viu Uno, com sua cara cheia de cicatrizes, o cabelo todo raspado, exceto pelo rabo de cavalo no topo da cabeça e o tapa-olho com um olho falso horroroso pintado em vermelho-vivo. Uno parou ao ouvir o berro assustado de um jovem a cavalo vestido com armadura de placa e malha, com uma lança amarrada à sela. O jovem passou de assustado a envergonhado na mesma hora. Uno abriu um sorriso afetuoso para Nynaeve. Bem, até poderia ser afetuoso, não fosse o tapa-olho. A Aceita respondeu com uma careta que o fez piscar e dar meia-volta para ralhar com o soldado.
Não foram Uno e seu tapa-olho que tinham deixado Nynaeve amarga. Não exatamente. Uno acompanhara ela e Elayne até Salidar e até prometera roubar cavalos — “pegar emprestado”, como ele dizia —, caso elas quisessem partir, mas já não havia a menor chance disso. Uno passara a usar uma faixa dourada trançada nos punhos do casaco escuro e surrado, indicando seu posto de oficial — ele estava treinando uma cavalaria pesada para Gareth Bryne, estava dedicado demais para se preocupar com Nynaeve. Não, não era verdade. Se ela dissesse que queria ir embora, Uno arranjaria cavalos em questão de horas, e ela partiria com uma escolta de shienaranos de rabos de cavalo que haviam jurado lealdade a Rand e só estavam ali em Salidar porque ela e Elayne tinham levado todos até lá. Só que para isso ela precisaria admitir que estivera errada ao decidir ficar ali, precisaria admitir que tinha mentido todas as vezes que afirmara estar muito feliz em Salidar. E não era capaz de admitir tudo isso. Uno só estava ali porque acreditava que deveria cuidar dela e de Elayne, e Nynaeve não admitiria nada para ele!
Aquela ideia de sair de Salidar era nova, uma vontade despertada ao ver Uno, e Nynaeve começou a pensar seriamente no assunto. Se Thom e Juilin não tivessem ido embora para Amadícia… Não que os dois tivessem decidido viajar a passeio, é claro. Quando morrer ali como Aes Sedai ainda lhe parecia valer de alguma coisa, aqueles dois tinham se oferecido para descobrir o que estava acontecendo do outro lado do rio. Como queriam avançar até a própria Amador, eles já estavam afastados havia bem mais de um mês — e, na melhor das hipóteses, ainda levariam mais uns dias para voltar. Claro que os dois não eram os únicos despachados para descobrir o que estava acontecendo. Haviam mandado até algumas Aes Sedai, mas a maioria tinha ido mais para oeste, na direção de Tarabon. Entre fingir estar fazendo alguma coisa e a demora no retorno dos dois, Nynaeve tinha boas desculpas para esperar. Desejou não ter deixado os dois partirem — nenhum deles teria ido se ela tivesse dito não.
Thom era um velho menestrel, embora já tivesse sido muito mais que isso, e Juilin era um apanhador de ladrões de Tear: dois homens competentes que sabiam como agir em terras estranhas, além de dotados de um sem-número de capacidades úteis. Os dois também tinham acompanhado Nynaeve e Elayne até Salidar, e nenhum teria questionado caso ela dissesse que queria ir embora. Com certeza falariam dela pelas costas, mas não pela frente, como no caso de Uno.
Era horrível ter que admitir que de fato precisava daqueles dois, mas não tinha a menor ideia de como faria para roubar um cavalo. E, além disso, uma Aceita rondando os estábulos ou as fileiras de estacas dos soldados não passaria despercebida. E, se tirasse o vestido branco, seria vista e denunciada antes mesmo de chegar perto de um casco. E, mesmo que conseguisse fugir, seria perseguida. Quase todas as Aceitas e noviças fugidas eram capturadas e sofriam punições amargas que reduziam a pó qualquer ideia de uma segunda tentativa. Depois de começado, o treinamento para ser Aes Sedai só terminava quando as Aes Sedai diziam que tinha terminado.
Claro que não era o medo da punição que a impedia — o que eram uma ou duas varadas diante da possibilidade de ser morta pela Ajah Negra ou de ter que enfrentar um dos Abandonados? Só não sabia se queria mesmo ir. E para onde iria? Para Caemlyn, atrás de Rand? Encontrar Egwene em Cairhien? E será que Elayne iria junto? Ah, a menina com certeza iria se fossem para Caemlyn. Será que aquela sua ansiedade era uma vontade de agir, de fazer qualquer coisa que fosse, ou o medo de que as Aes Sedai descobrissem Moghedien? A punição para uma fuga não seria páreo para isso! Ainda não tinha chegado a nenhuma conclusão quando virou uma curva e se deparou com a turma de noviças de Elayne, todas reunidas em um espaço aberto entre duas casas de pedra e telhado de palha, onde antes ficavam as ruínas de outra casa.