Eram mais de vinte mulheres vestidas de branco sentadas em semicírculo, observando enquanto Elayne guiava duas outras mulheres em um exercício, as três envoltas pelo brilho tênue de saidar. Tabiya, uma menina sardenta e de olhos verdes, com cerca de dezesseis anos, e Nicola, uma mulher esguia e de cabelos negros da idade de Nynaeve, passavam, inseguras, uma pequenina chama de um lado a outro. A chama tremulava e volta e meia sumia por alguns segundos quando uma das mulheres não era rápida o suficiente em manter a trama que a outra lhe passara. Naquele estado de humor, Nynaeve conseguia ver claramente os fluxos urdidos.
Dezoito noviças tinham sido levadas às pressas quando Sheriam e as outras fugiram da torre, e Tabiya era uma delas, mas a maioria das moças ali era como Nicola: recrutadas depois que as Aes Sedai se estabeleceram em Salidar. Nicola não era a única mais velha que o normal para uma noviça, quase metade das outras mulheres tinha a mesma idade. Quando Nynaeve e Elayne foram para a Torre, era raro as Aes Sedai testarem mulheres mais velhas que Tabiya — Nynaeve era famosa tanto por ser bravia quanto pela idade avançada —, mas, talvez por desespero, as mulheres de Salidar tinham expandido os testes para mulheres até um ou dois anos mais velhas que Nynaeve. E, com isso, aquele acampamento passara a abrigar mais noviças do que a Torre Branca tivera em anos, um sucesso que levou as Aes Sedai a iniciarem novas buscas, cruzando Altara de aldeia em aldeia.
— Você não queria estar dando essa aula?
Nynaeve sentiu o estômago se revirar ao ouvir aquela voz por cima do ombro. Duas vezes na mesma manhã. Ah, como queria ter um pouco de menta-de-ganso na bolsa do cinto. Se continuasse se deixando ser pega de surpresa, acabaria tendo que organizar a papelada de alguma Marrom.
A domanesa bochechuda não era Aes Sedai. Se estivesse na Torre, Theodrin já teria sido elevada ao xale, mas ali fora apenas elevada à uma posição superior à de uma Aceita, porém inferior à de uma irmã plena. Ela usava o anel da Grande Serpente na mão direita, não na esquerda, e o vestido verde caía bem na pele bronzeada, mas ainda não tinha permissão para escolher uma Ajah ou para usar o xale.
— Tenho mais o que fazer do que ensinar um bando de noviças cabeças-duras.
Theodrin apenas sorriu ao notar o tom mordaz de Nynaeve. Ela era sempre tão simpática.
— Uma Aceita cabeça-dura ensinando noviças cabeças-duras? — Bem, nem sempre. — Bom, depois que conseguirmos fazer você canalizar sem estar a ponto de arrancar a cabeça das meninas, também vai ser instrutora. E eu não ia achar nem um pouco surpreendente se você fosse elevada logo em seguida, com todas as coisas que vem descobrindo. Sabe, você nunca me contou o seu truque.
As bravias quase sempre tinham algum truque, desenvolvido logo na primeira vez em que desvelavam a habilidade de canalizar. Outra característica comum era uma espécie de bloqueio, uma barreira mental que escondia o poder de canalização até delas mesmas.
Nynaeve teve que fazer um esforço para manter a expressão serena. Poder canalizar quando bem entendesse, ser elevada a Aes Sedai… Nada disso ia resolver o problema de Moghedien, mas ao menos poderia ir aonde quisesse, estudar o que lhe desse vontade sem ninguém buzinando em seus ouvidos que simplesmente não havia Cura para isso ou aquilo.
— Às vezes, alguns doentes já sem salvação se curavam. Eu ficava tão irritada quando via alguém à beira da morte, mesmo com todos os meus conhecimentos a respeito das ervas… — Ela deu de ombros. — Aí a pessoa ficava boa.
— Muito melhor que o meu. — A mulher esguia suspirou. — Eu podia fazer um rapaz querer me beijar… ou não querer. Meu bloqueio eram os homens, não a raiva. — Nynaeve a encarou, incrédula, e Theodrin deu uma risada. — Bem, e os sentimentos. Se eu estivesse perto de um de quem eu gostasse ou detestasse muito, eu conseguia canalizar. Se não tivesse nenhum sentimento extremo ou se não houvesse homens por perto, eu era praticamente uma árvore para saidar.
— E como foi que você conseguiu superar isso? — perguntou Nynaeve, curiosa.
Elayne tinha dividido as noviças em duplas, e as garotas, muito sem jeito, passavam pequenas chamas de uma para a outra.
O sorriso de Theodrin cresceu, e seu rosto corou.
— Um rapaz chamado Charel, criado dos estábulos da Torre, começou a me olhar diferente… Eu tinha quinze anos, e o sorriso dele era lindo. As Aes Sedai permitiam que ele ficasse em silêncio em um canto durante as minhas aulas, até eu conseguir canalizar. Só que até o nosso primeiro encontro tinha sido planejado por Sheriam, eu não fazia ideia. — Ela enrubesceu ainda mais. — E também não sabia que ele tinha uma irmã gêmea. Nem que, depois de uns dias, o Charel sentado diante de mim na realidade era a Marel. Um dia ela tirou o casaco e a camisa no meio de uma aula, e eu fiquei em estado de choque, quase desmaiei… mas depois disso passei a conseguir canalizar sempre que quisesse.
Nynaeve não conseguiu evitar cair na gargalhada, e, apesar do rosto corado, Theodrin riu junto sem o menor constrangimento.
— Ah, queria que também fosse fácil assim para mim.
— Nós vamos romper esse seu bloqueio, não importa quão difícil seja — respondeu Theodrin, parando de rir. — Hoje à tarde…
— Hoje à tarde eu vou estudar Siuan — interrompeu Nynaeve, mais do que depressa, e Theodrin comprimiu os lábios.
— Você tem me evitado, Nynaeve. No mês passado só tivemos três encontros, você conseguiu escapar de todas as outras aulas. Não tenho problemas com suas tentativas falhas, mas não vou tolerar que você fique com medo de tentar.
— Eu não estou com medo… — começou Nynaeve, indignada, mas uma vozinha perguntou se ela estava tentando esconder a verdade de si mesma. Era tão desanimador tentar, tentar, tentar… sem nunca conseguir.
Theodrin não permitiu que ela continuasse a frase.
— Vou acreditar que você já tem um compromisso hoje — respondeu, muito calma —, mas vamos ter que nos encontrar amanhã e todos os dias seguintes, ou serei forçada a tomar uma atitude. Não quero apelar para outros métodos, e você também não quer que eu faça isso, mas vou quebrar esse seu bloqueio. Myrelle me pediu para dedicar uma atenção especial a isso, e juro que é exatamente o que farei.
Aquilo era quase um eco do que Nynaeve dissera a Siuan, e a antiga Sabedoria ficou de queixo caído. Era a primeira vez que Theodrin usava a autoridade de sua posição, e, considerando sua sorte desde que acordara naquele dia, era capaz de Nynaeve acabar tendo que ir junto com Siuan fazer uma visita à Tiana.
Theodrin não esperou resposta, simplesmente assentiu, como se as duas estivessem de acordo, e saiu deslizando rua afora. Nynaeve quase podia ver um xale franjado sobre os ombros dela. A manhã não estava indo nada bem. E de novo Myrelle se metendo! Quase deu um berro.
Elayne, no meio de suas noviças, sorriu orgulhosa para ela, mas Nynaeve apenas balançou a cabeça e virou as costas. Ia voltar para o quarto. E, como se para ficar bem claro o desastre que estava sendo aquele dia, antes de chegar na metade do caminho Nynaeve trombou com Dagdara Finchey, que passou correndo e a derrubou. Correndo! Uma Aes Sedai! A grandalhona não parou e nem se dignou a se virar para pedir desculpas enquanto seguia abrindo caminho pela multidão.
Nynaeve se levantou, espanou a poeira do vestido, foi até o quarto pisando firme, entrou e bateu a porta com força. Lá dentro estava quente e sufocante, e as camas desfeitas ainda aguardavam Moghedien vir arrumá-las. E o pior de tudo era aquela sensação de que uma chuva de granizo deveria estar se abatendo sobre Salidar naquele exato instante. Bem, ela não seria surpreendida nem derrubada.