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Niall só escutava com atenção suficiente para saber a hora de assentir. Omerna tinha sido bem adequado ao papel de comandante de campo, só precisava que alguém lhe dissesse como proceder, mas, agora que mudara de posto, era cansativo lidar com tanta tolice e ingenuidade. O homem havia relatado a morte de Morgase, afirmando com absoluta certeza que seu corpo fora visto e identificado, e mantivera a história até que Niall o pôs frente a frente com a antiga rainha. Omerna escarnecera dos “rumores” de que a Pedra de Tear tinha caído, e até hoje negava que a fortaleza mais poderosa do mundo pudesse ter sido tomada por qualquer força externa — insistia que era algum caso de traição, que algum Grão-lorde entregara a Pedra a al’Thor e a Tar Valon. E ele insistia em dizer que o desastre em Falme e as questões em Tarabon e Arad Doman eram obra do retorno dos exércitos de Artur Asa-de-gavião pelo Oceano de Aryth. Estava convencido de que Siuan Sanche não havia sido deposta; de que al’Thor estava louco e à beira da morte; de que Tar Valon tramara a morte do Rei Galldrian para deflagrar a guerra civil em Cairhien; e de que esses três “fatos” estavam ligados aos rumores ridículos de gente irrompendo em chamas e pesadelos brotando do nada e massacrando aldeias inteiras — que eram sempre convenientemente relatados por alguém que vivia num lugar muito distante. Ele ainda não tinha muita certeza de nada, mas estava trabalhando numa grande teoria que prometia revelar a qualquer momento — uma teoria que supostamente acabaria com toda aquela conspiração das bruxas e deixaria Tar Valon nas mãos de Niall.

Com Omerna era assim: ou ele inventava razões mirabolantes para os acontecimentos, ou pescava as fofocas nas ruas e as engolia sem nem refletir. Passava boa parte do tempo escutando fofocas nas mansões e nas ruas. Além de ter sido visto bebendo nas tavernas com Caçadores da Trombeta, não era segredo que ele desembolsara quantias enormes de dinheiro por nada menos que três supostas Trombetas de Valere. E, nas três vezes, Omerna levara o objeto para o interior e passara dias soprando o negócio, até ter que admitir que nenhum herói lendário morto sairia cavalgando do túmulo. Mesmo assim, os fracassos provavelmente não o impediriam de fazer novas compras nos becos escuros e nos fundos das tavernas. O problema era fácil de explicar: enquanto um mestre espião duvidava até mesmo do próprio reflexo no espelho, Omerna acreditava em qualquer coisa.

O homem enfim esgotou o falatório, e Niall disse:

— Lerei seus relatórios com a devida atenção, Omerna. Bom trabalho. — Ah, como ele ficou feliz com o elogio, alisando o tabardo, todo orgulhoso. — Agora vá. E mande Balwer entrar quando estiver saindo. Tenho que ditar algumas cartas.

— Claro, meu Senhor Capitão Comandante. Ah. — Omerna parou no meio de uma mesura, franziu o cenho e revirou o bolso do colete branco e puxou um pequenino cilindro de osso que entregou a Niall. — Isso aqui chegou no pombal hoje de manhã.

O cilindro estava marcado com três finas linhas vermelhas de cima a baixo, o que indicava que deveria ser entregue a Niall com os selos de cera intactos. E o homem quase se esquecera.

Omerna aguardou, decerto esperando alguma dica sobre o conteúdo do cilindro, mas Niall o dispensou com um aceno.

— Não se esqueça de falar com Balwer. Se existe alguma chance de Mattin Stepaneos se juntar a mim, é melhor eu escrever e ver se consigo influenciá-lo a tomar a decisão certa. — Omerna não teve escolha a não ser curvar-se em mais uma mesura e sair.

Mesmo depois de o homem fechar a porta, Niall simplesmente correu os dedos pelo cilindro por um tempo. Aquelas raras mensagens especiais quase nunca traziam boas notícias. Ele se levantou com cuidado — nos últimos tempos, a idade andava lhe pesando nos ossos — e encheu de ponche um cálice de prata, que deixou em cima da mesa para ir abrir uma pasta de couro trabalhado presa por um fio de linho. A pasta continha uma única folha de papel grosso, amassado e parcialmente rasgado, com um desenho a giz de um artista de rua: dois homens lutando entre nuvens, um com o rosto de fogo, o outro de cabelos vermelhos e escuros. Al’Thor.

Todos os seus planos de impedir o falso Dragão tinham dado errado, todas as suas esperanças de conter a crescente maré de conquista daquele homem, de desviá-lo de seu caminho de vitórias. Será que tinha esperado demais, deixando al’Thor ficar ainda mais poderoso? Se fosse o caso, havia apenas uma forma de lidar de vez com aquilo: uma faca no escuro, uma flecha lançada de algum telhado. Quanto tempo ousaria esperar? Ousaria correr o risco de não esperar? Tanto a pressa quanto a espera poderiam causar um desastre.

— Milorde mandou me chamar?

Niall encarou o homem que entrara tão silenciosamente. À primeira vista, Balwer não parecia capaz de se mover sem nem um farfalhar seco para denunciar sua presença. Tudo nele era tenso e aflitivo. O casaco marrom caía sobre os ombros calombentos, as pernas pareciam prestes a quebrar com o peso do corpo esquelético. O sujeito se movia feito um pássaro saltando de galho em galho.

— Você acredita que a Trombeta de Valere vai convocar os heróis mortos para nos salvar, Balwer?

— Pode ser que sim, milorde — respondeu o homem, remexendo as mãos, nervoso. — Pode ser que não. Eu não contaria muito com isso.

Niall assentiu.

— E você acha que Mattin Stepaneos vai se juntar a mim?

— Mais uma vez, pode ser que sim. Ele não vai querer acabar morto ou feito de marionete. O homem só quer agarrar a Coroa de Louros, e o exército que está se reunindo em Tear provavelmente vai fazer ele suar para conseguir o que quer. — Balwer abriu um sorriso minúsculo, não mais que um esgar de lábios. — Ele já falou abertamente sobre a inclinação de aceitar sua proposta, milorde, mas, por outro lado, acabei de saber que Mattin anda se comunicando com a Torre Branca. Ao que parece, ele concordou em fazer alguma coisa, mas ainda não sei o quê.

Todo mundo sabia que Abdel Omerna era o espião-mestre dos Filhos. A posição deveria ser um segredo, é claro, apesar de qualquer pedinte ou cavalariço ser capaz de apontar Omerna na rua — ainda que o fizessem discretamente, para não serem pegos em flagrante por quem consideravam o homem mais perigoso de Amadícia. Mas a verdade era que Omerna era um chamariz, um idiota que sequer sabia que só servia para encobrir o verdadeiro espião-mestre da Fortaleza da Luz: Sebban Balwer, o secretário empertigado e enrugado de Niall, com a constante cara de desaprovação. Um homem acima de qualquer suspeita, um nome em que ninguém acreditaria, se ouvisse em alguma confissão.

Enquanto Omerna acreditava em todo e qualquer rumor, Balwer era um cético — talvez não acreditasse nem nos Amigos das Trevas nem no Tenebroso. Balwer acreditava na eficiência de espreitar os outros, escutar seus sussurros e arrancar seus segredos. Naturalmente, o homem teria servido a qualquer outro mestre tão bem quanto servia a Niall, o que só o tornava um espião melhor. As descobertas de Balwer nunca eram maculadas pelo que ele supunha — ou pelo que desejava — ser a verdade. Como duvidava de tudo, o homem sempre conseguia desencavar os fatos.