— E eles estão esperando o quê?
O verdadeiro mestre espião contraiu os lábios por um instante, como se uma corda os repuxasse.
— Ainda não sei, milorde.
Balwer não gostava de admitir que existiam segredos que ele era incapaz de desencavar. Tentar descobrir mais que o senso comum sabia sobre os Atha’an Miere era como tentar aprender o segredo da Guilda de Iluminadores para fazer fogos de artifício: completamente inútil. Pelo menos os Ogier talvez acabassem decidindo revelar as decisões tomadas nas tais reuniões.
— Prossiga.
— A notícia razoavelmente mais interessante é… um tanto curiosa, milorde. Fontes confiáveis me informaram que al’Thor foi visto em Caemlyn, em Tear e em Cairhien, por vezes no mesmo dia.
— Confiáveis? Só se for de um confiável louco. As bruxas devem ter dois ou três homens parecidos com al’Thor, parecidos o bastante para enganar qualquer um que não o conheça muito bem. Isso explicaria muita coisa.
— Pode ser, milorde. Meus informantes são confiáveis.
Niall fechou a pasta de couro com força, escondendo o rosto de al’Thor.
— E a notícia de maior interesse?
— Suas fontes em Altara… fontes confiáveis, milorde… informaram que as bruxas de Salidar alegam que a Ajah Vermelha encorajou Logain a se tornar um falso Dragão. Que praticamente o fabricaram, na verdade. As bruxas estão com Logain em Salidar, ou pelo menos com um homem que alegam ser Logain, e o exibem aos nobres que convidam para uma visita. Não tenho provas, mas suspeito de que estejam contando essa história para todos os governantes com quem conseguem contato.
Franzindo o cenho, Niall observou os estandartes expostos na sala. Os símbolos representavam inimigos de quase todas as nações — nenhum daqueles o derrotara duas vezes, poucos tinham conseguido ao menos uma vitória. Os estandartes já estavam velhos, desgastados com o tempo. Assim como Niall. Mas não estava tão velho a ponto de não conseguir ver um fim para o que ele mesmo havia começado. Cada um daqueles estandartes tinha sido capturado em batalhas sangrentas, quando era difícil saber o que estava acontecendo para além do que os olhos podiam informar, quando a certeza da vitória ou da derrota eram igualmente efêmeras. A pior batalha que já lutara, com exércitos trôpegos caindo uns por sobre os outros perto de Moisen, durante as Confusões, parecia movida por artimanhas tão fáceis de compreender quanto as fantasias de uma criança, se comparados àquela batalha que ele travava agora.
Será que estava errado? A Torre estaria mesmo dividida? Haveria mesmo algum conflito entre as Ajahs? Por quê? Por al’Thor? Se as bruxas estavam brigando entre si, muitos dos Filhos se mostrariam prontos para defender a solução de Carridin: um golpe que destruísse Salidar e o máximo de bruxas possível. Muitos dos Filhos eram homens que acreditavam que pensar no dia de amanhã era pensar muito à frente e que nunca consideravam a semana ou o mês seguinte, que dirá o ano que ainda estava por vir. Valda era um deles, e talvez fosse bom que o sujeito ainda não tivesse chegado a Amador. E também Rhadam Asunawa, o Grão-inquisidor dos Questionadores. Valda estava sempre querendo usar o machado, mesmo quando o punhal servia melhor para a tarefa em questão; enquanto Asunawa simplesmente queria — e queria para ontem — ver enforcadas todas as mulheres que tivessem passado uma mísera noite na Torre, ver queimados todos os livros que mencionavam Aes Sedai ou o Poder Único, ver banidas todas as palavras a respeito daquela feitiçaria maligna. Asunawa nunca pensava para além desses objetivos, nem se preocupava com o custo. Niall trabalhara muito duro, arriscara muita coisa, para permitir que aquilo se transformasse, aos olhos do mundo, numa disputa entre os Filhos e a Torre.
Na verdade, não fazia muita diferença ele estar ou não errado. Mesmo que estivesse, ainda conseguiria tirar muitas vantagens da situação. Talvez ainda mais vantagens do que se estivesse certo. Com um pouco de sorte, poderia arrasar a Torre Branca de um jeito irreparável, esmagar as bruxas até virarem pó. Com isso, o poder de al’Thor decerto iria vacilar, mas o falso Dragão continuaria a representar ameaça suficiente para ser usado como isca. E estaria perto da verdade. Muito perto.
Sem tirar os olhos dos estandartes, o Senhor Capitão Comandante dos Filhos da Luz respondeu:
— A cisão da Torre é real. A Ajah Negra se revelou. As vitoriosas detêm a Torre, e as perdedoras foram expulsas e estão lambendo as feridas em Salidar. — Niall olhou para Balwer e quase abriu um sorriso. Qualquer outro dos Filhos já estaria protestando, dizendo que não havia Ajah Negra, ou então que todas as bruxas eram Amigas das Trevas. Até o recruta mais novo teria feito isso. Mas Balwer mal olhou para ele, sem nem piscar diante de sua blasfêmia contra tudo o que os Filhos representavam. — Só nos resta decidir se a Ajah Negra ganhou ou perdeu. Acho que ganhou. A maioria vai considerar que as verdadeiras Aes Sedai são as da Torre. E é mesmo melhor que associem as verdadeiras Aes Sedai com a Ajah Negra. Al’Thor é uma criatura da Torre, um vassalo da Ajah Negra. — Ele pegou a taça que estava na mesa e bebericou, o que não ajudou em nada a aplacar o calor. — Talvez eu possa me aproveitar disso como mais uma desculpa para ainda não ter agido contra Salidar. — Por meio de seus emissários, ele alegava que o fato de não ter tomado providências era prova de como acreditava que al’Thor era uma ameaça terrível, já que preferira permitir que as bruxas se reunissem às portas de Amadícia a desviar os esforços das forças dos Filhos contra o perigo do falso Dragão. — Aquelas mulheres de lá estão horrorizadas, assombradas em finalmente ver, depois de tantos anos, a extensão do avanço da Ajah Negra. Finalmente se rebelaram contra a maldade em que estavam imersas… — Ele foi perdendo o vigor da imaginação. Aquelas mulheres eram todas servas do Tenebroso, que tipo de mal as faria se rebelar? Porém, depois de um instante, Balwer tomou a palavra:
— Pode ser que elas tenham decidido se jogar à mercê do senhor, milorde, ou até pedir sua proteção. Saíram derrotadas de uma rebelião, mais fracas que as inimigas, e temem ser subjugadas. Um homem à beira do precipício, já certo de sua morte, estende a mão para pedir ajuda até a seu pior inimigo. Pode ser que… — Balwer tamborilou os dedos ossudos sobre os lábios, pensativo. — Pode ser que estejam prontas para se arrepender de seus pecados e abdicar da posição de Aes Sedai?
Niall o encarou. Suspeitava de que os pecados das bruxas de Tar Valon fossem mais uma das coisas em que Balwer não acreditava.
— Isso é absurdo — retrucou, impassível. — O tipo de coisa que se poderia esperar de Omerna.
O secretário manteve a mesma expressão afetada de sempre, mas começou a esfregar as mãos, como sempre fazia quando se sentia insultado.
— É mesmo o que milorde esperaria dele, mas é o tipo de coisa que seria repetida onde ele mais colhe informações, nas ruas e nos salões onde os nobres fofocam enquanto bebem vinho. Ninguém nunca ri dos absurdos, nesses lugares, apenas escuta. O que pode parecer absurdo demais para acreditar é tomado como verdade justamente por ser absurdo demais para ser mentira.
— E como é que você apresentaria isso? Não vou plantar nenhum boato sobre uma possível ligação dos Filhos com as bruxas.
— Seriam apenas rumores, milorde. — Niall endureceu o olhar, e Balwer espalmou as mãos. — Como milorde desejar. A cada conto se aumenta um ponto, então a história mais simples tem mais chance de preservar sua essência. Sugiro quatro rumores, milorde, não apenas um. Primeiro, espalhamos o boato de que a cisão da Torre foi causada por uma insurreição da Ajah Negra. Segundo, que a Ajah Negra saiu vitoriosa e agora controla a Torre Branca. Terceiro, que as Aes Sedai em Salidar, expulsas e apavoradas, renunciaram ao posto de Aes Sedai. E quarto, que as mulheres vieram até o senhor em busca de piedade e proteção. Para o povo, cada história servirá como confirmação das outras. — Ajeitando a lapela, Balwer abriu um sorrisinho de satisfação.