— Muito bom, Balwer. Que assim seja. — Niall tomou um gole maior de vinho. O calor o deixava cada vez mais consciente da própria idade. Sentia que os ossos pareciam frágeis. Mas viveria por tempo suficiente para ver o falso Dragão cair, ver o mundo reunido para enfrentar Tarmon Gai’don. Ainda que não vivesse para liderar a Última Batalha, tinha certeza de que a Luz lhe concederia ao menos isso. — E quero que Elayne Trakand e seu irmão Gawyn sejam localizados e trazidos de volta para Amador. Cuide disso. Agora pode sair.
Em vez de sair, Balwer hesitou.
— Milorde sabe que eu jamais faria nenhuma sugestão sobre como proceder.
— Mas está querendo fazer uma agora? E qual seria?
— Pressione Morgase, milorde. Já passou mais de um mês, e ela ainda está considerando a sua proposta. Ela…
— Já chega, Balwer. — Niall suspirou. Às vezes desejava que Balwer não fosse de Amadícia, e sim um cairhieno que absorvera o jogo das casas junto com o leite da mãe. — Morgase está cada dia mais comprometida comigo, seja lá em que ela acredite. Eu preferiria que ela tivesse aceitado a proposta logo, pois já teria Andor contra al’Thor, e com uma boa quantidade de Filhos para engrossar as fileiras. Mas, a cada dia que a mulher passa como minha hóspede, fica mais e mais atada a mim. Não vai demorar a descobrir que é minha aliada simplesmente porque o mundo acredita que ela é, então estará tão enroscada que será impossível se soltar. E ninguém jamais vai poder dizer que a coagi, Balwer. Isso é muito importante. É sempre mais difícil abandonar uma aliança que o mundo acredita ter sido formada por livre e espontânea vontade do que uma que é possível provar que foi formada à força. Pressa e descuido só levam à ruína, Balwer.
— Muito bem, milorde.
Niall o dispensou com um gesto, e o sujeito fez uma mesura e se retirou. Balwer não compreendia. Morgase era uma oponente de peso. Se fosse pressionada demais, lutaria contra todas as adversidades. No entanto, bastava pressioná-la da maneira certa para que ela se pusesse a enfrentar o inimigo que acreditava ver, então só perceberia a armadilha quando já fosse tarde demais. O tempo urgia, pressionando-o, pesando com todos os anos que já vivera, todos os meses de que precisava tão desesperadamente, mas Niall não deixaria que a pressa arruinasse seus planos.
O falcão arremeteu, lançando-se em um golpe certeiro contra o enorme pato que cruzava os céus, provocando uma explosão de penas. As duas aves se afastaram, e o pato, com o voo interrompido, começou a cair. O falcão mergulhou no céu límpido, inclinando o corpo em um ângulo preciso, e se lançou outra vez contra a presa abatida, prendendo-a entre as garras. O peso considerável do pato atrapalhava o voo, mas, com certo esforço, a ave vitoriosa voou ao encontro das pessoas que a aguardavam em terra.
Morgase se perguntou se ela mesma não seria como o falcão: orgulhosa e determinada demais para perceber que sua presa era maior do que as asas podiam suportar. Tentou relaxar as mãos enluvadas, que agarravam as rédeas com força. O chapéu branco de aba larga, com longas plumas brancas, era uma leve proteção contra o sol impiedoso, mas o suor ainda assim brotava em seu rosto. Em seu vestido de montaria de seda verde com bordados em ouro, Morgase nem parecia uma prisioneira.
Havia outras pessoas a cavalo e a pé no longo campo de grama seca e marrom, mas não chegavam a formar uma multidão. Um grupo de músicos, todos de tabardos azuis com bordados brancos, trazendo flautas, sabiolas e tambores, tocavam uma melodia suave, bem apropriada para a tarde regada a vinho gelado. Uma dezena de adestradores vestindo coletes de couro bem trabalhados por cima das camisas brancas de mangas bufantes afagava os falcões de olhos vendados empoleirados em seus braços protegidos por manoplas ou pitavam os cachimbos e baforavam uma fumaça azul nos rostos das aves. E havia o dobro de serviçais uniformizados circulando com frutas e vinho em cálices dourados apoiados em bandejas também douradas, além de homens usando cotas de malha reluzentes circulando pelos arredores, mantendo-se bem próximos às grandes árvores de galhos nus. Tudo isso para acompanhar o cortejo de Morgase e garantir que a tarde de falcoaria transcorresse sem grandes problemas.
Bem, pelo menos era esse o motivo que tinham alegado, embora o povo do Profeta estivesse quase a duzentas milhas ao norte e não fosse muito provável encontrar bandidos tão perto de Amador. Além disso, apesar do grupo de mulheres que a acompanhavam em éguas e capões, todas com vestidos de montaria de seda brilhosa e deslumbrantes chapéus de abas largas com plumagens coloridas, os cabelos compridos divididos em cachos, conforme ditava a moda da corte amadiciana, a verdade era que o cortejo de Morgase consistia apenas em mais duas pessoas: o desajeitado Basel Gill, montado meio torto no cavalo, o colete de discos de metal comprimindo a barriga volumosa por cima do casaco de seda vermelha — casaco esse que a própria Morgase arranjara, para Basel não ser ofuscado pelos serviçais —, e Paitr Conel, que parecia ainda mais desajeitado em seu casaco branco e vermelho de pajem, claramente muito nervoso desde que Morgase o fizera se juntar ao cortejo. As mulheres que os acompanhavam eram nobres da corte de Ailron que tinham se “oferecido” como damas de companhia. O pobre Mestre Gill mexia na espada, distraído, observando os Mantos-brancos com um olhar de pura desilusão. Sim, aqueles homens de cotas de malha eram Mantos-brancos, apesar de sempre abrirem mão do uniforme quando a acompanhavam para fora da Fortaleza da Luz. E também eram vigias: se Morgase tentasse cavalgar para muito longe ou se afastar por muito tempo, o comandante daquele destacamento, Norowhin, um sujeito de olhar duro, que odiava fingir não ser um Manto-branco, “sugeria” que ela retornasse a Amador, dando alguma desculpa como o calor muito intenso ou algum boato de bandoleiros rondando a área. Não havia como discutir com cinquenta homens de armadura sem perder a dignidade. Na primeira vez em que saíram, Norowhin quase tomou as rédeas das mãos dela, e era por isso que Morgase nunca permitia que Tallanvor a acompanhasse nesses passeios. O rapaz era tolo o bastante para insistir em defender a honra e os direitos de Morgase mesmo diante de cem homens. Ele passava o tempo livre praticando com a espada, como se esperasse dar um jeito de abrir o caminho de Morgase à força.
Uma brisa se ergueu de repente, roçando seu rosto, e, com um susto, Morgase percebeu que estava sendo abanada: Laurain estava inclinada na sela, balançando um leque de renda branca. Ela era uma mulher jovem e esbelta, com os olhos escuros um pouco próximos demais, e estava sempre com um sorrisinho coquete.
— Vossa majestade deve ter ficado tão satisfeita em saber que seu filho se juntou aos Filhos da Luz. E que subiu de graduação tão depressa.
— Isso não deveria ser nenhuma surpresa — retrucou Altalin, abanando o próprio rosto gorducho. — Não havia dúvidas de que o filho de Sua Majestade evoluiria rápido, assim como o esplendor do sol não demora em se intensificar. — A mulher se regozijou ao ouvir os murmúrios de concordância de algumas das outras damas de companhia, em resposta àqueles joguinhos de palavras ridículos.
Morgase se esforçava para manter o rosto sereno. A notícia de Niall, que recebera na noite anterior, durante uma das visitas surpresa, tinha sido um verdadeiro choque. Galad, um Manto-branco! Bem, pelo menos ele estava seguro, segundo o Comandante dos Filhos. Mas não podia visitá-la, já que as obrigações de um Filho da Luz o mantinham afastado. Claro que ele faria parte de sua escolta quando ela retornasse a Andor, liderando um exército de Filhos.