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Não, Galad estava tão em perigo quanto Elayne ou Gawyn — talvez até mais. Quisesse a Luz que Elayne estivesse em segurança na Torre Branca. Quisesse a Luz que Gawyn estivesse vivo. Niall alegava não saber o paradeiro do garoto, só tinha certeza de que Gawyn não estava em Tar Valon. E Galad agora era como uma faca em sua garganta — claro que Niall jamais seria cruel a ponto de sugerir uma coisa dessas, mas bastaria uma ordem dele para que o menino fosse enviado em alguma missão de morte certa. A única coisa que o mantinha em segurança era o fato de Niall achar que Morgase não ligava tanto para ele quanto para Elayne e Gawyn.

— Fico feliz por ele, se é isso o que o rapaz busca — respondeu, indiferente. — Mas Galad é filho de Taringail, não meu. Meu casamento com Taringail foi arranjado, vocês sabem como são essas coisas. Pode parecer estranho, mas ele já está morto há tanto tempo que mal me lembro de seu rosto. Galad é livre para fazer o que bem entender. Gawyn é quem será o Primeiro Príncipe da Espada quando Elayne ocupar o Trono do Leão. — Ela dispensou um serviçal que trazia um cálice de vinho numa bandeja. — Niall poderia ao menos ter providenciado um vinho decente.

Esse último comentário gerou uma onda de risadinhas nervosas. Morgase até conseguira se aproximar um pouco daquelas mulheres, mas ninguém se sentia à vontade para ofender Pedron Niall — ao menos não ali, onde qualquer comentário poderia chegar aos ouvidos dele. Morgase aproveitava toda e qualquer oportunidade de reclamar do Comandante dos Filhos quando as damas de companhia podiam ouvir: a atitude de desafio servia para convencê-las de sua valentia, o que era importante se quisesse forjar alianças, mesmo que parciais. E mais importante, pelo menos para ela, era que ajudava a preservar a ilusão de que não era prisioneira ali.

— Ouvi dizer que Rand al’Thor exibe o Trono do Leão feito um troféu de caça.

O comentário tinha vindo de Marande, uma bela mulher com rosto em formato de coração, um tanto mais velha que as outras. Era irmã do Grão-trono da Casa Algoran, o que por si só já a tornava bastante poderosa — talvez o bastante para se opor a Ailron, mas não a Niall. As outras afastaram as montarias para que Marande se aproximasse no capão baio. Não havia a menor chance de forjar qualquer tipo de aliança ou amizade com aquela mulher.

— Pois ouvi dizer o mesmo — retrucou Morgase, displicente. — O leão é um animal perigoso de se caçar, e o Trono do Leão mais ainda. Sobretudo para um homem. Os homens que se aventuram sempre acabam mortos.

Marande abriu um sorriso.

— Também ouvi dizer que al’Thor deixa os homens capazes de canalizar em postos altos de seu exército.

A frase provocou uma troca de olhares desconfortáveis entre as demais presentes, acompanhados de um burburinho de murmúrios de preocupação. Uma das mais jovens, a esguia Marewin, ainda quase uma menina, se desequilibrou na sela de patilho alto, parecendo prestes a desmaiar. As notícias da anistia de al’Thor vinham acompanhadas de histórias assustadoras — conversas que Morgase desejava fervorosamente que fossem apenas boatos. Quisesse a Luz que todas as notícias não passassem de boatos: homens capazes de canalizar se reunindo em Caemlyn, bebendo e festejando no Palácio Real, aterrorizando a cidade.

— Você ouve bastante coisa — retrucou. — Por acaso passa o dia escutando atrás das portas?

Marande alargou o sorriso. Havia sido incapaz de resistir à pressão de se tornar uma das damas de companhia de Morgase, mas tinha poder o suficiente para exibir sua insatisfação sem medo. Era como um espinho cravado fundo no pé: impossível de remover e provocava uma pontada de dor a cada passo.

— O prazer de servir Vossa Majestade me deixa com pouco tempo livre, mas de fato tento ouvir tudo o que chega de notícias de Andor. Para tratar delas com Vossa Majestade, claro. Ouvi dizer que o falso Dragão se reúne diariamente com os nobres andorianos. Lady Arymilla e Lady Naean, Lorde Jarid e Lorde Lir. E outros amigos deles.

Um dos falcoeiros ergueu uma ave cinza de asas negras e olhos vendados para Morgase. Os sinos de prata presos nas tiras de couro das patas tilintavam enquanto a ave andava pela manopla do adestrador.

— Obrigada, mas já cacei bastante por hoje — respondeu Morgase, então ergueu a voz: — Mestre Gill, reúna a escolta. Estou voltando para a cidade.

Gill levou um susto. Sabia muito bem que só estava ali para cavalgar na cola dela, mas começou a acenar e gritar ordens aos Mantos-brancos como se acreditasse que os homens fossem obedecer. Morgase, por sua vez, deu meia-volta com a égua negra, mas conduziu o animal a um passo lento, claro. Norowhin sairia em disparada atrás dela se suspeitasse da menor possibilidade de uma tentativa de fuga.

Claro que os Mantos-brancos sem mantos saíram a galope, formando a escolta antes mesmo que a égua pudesse avançar dez passos. E, antes que Morgase chegasse à beirada do gramado, Norowhin já estava a seu lado com uma dezena de homens à frente e o restante seguindo atrás, bem de perto. Os serviçais, os músicos e os falcoeiros foram deixados para trás, para ajeitarem as cargas e seguirem o mais depressa possível.

Gill e Paitr tomaram suas posições atrás de Morgase, seguidos pelas damas de companhia. Marande sorria triunfante, embora algumas das outras exibissem caretas de desaprovação. Nada muito explícito — mesmo que tivesse que se submeter à vontade de Niall, Marande tinha um poder considerável dentro de Amadícia —, mas a maioria daquelas mulheres tentava se esforçar na tarefa de dama de companhia, mesmo tendo sido forçadas àquilo. A maioria delas provavelmente teria assistido Morgase de bom grado, apenas não gostava de ter que morar na Fortaleza da Luz.

A própria Morgase teria sorrido, se tivesse certeza de que Marande não notaria. A língua solta era a única razão pela qual não insistira, semanas antes, para que a mulher fosse dispensada. Marande gostava de alfinetá-la apontando a extensão dos problemas em Andor como se fossem indícios de que o poder da rainha estava esgotado, mas os nomes que citava eram um bálsamo para Morgase: todos de homens e mulheres que se opuseram a ela durante a Sucessão, todos bajuladores de Gaebril. Daqueles nobres, não esperava nada menos — nem nada mais — do que essa atitude. Se Marande tivesse citado outros nomes, seria diferente. Se ela falasse de Lorde Pelivar, Abelle, Luan, Lady Arathelle, Ellorien ou Aemlyn. Ou outros. Mas aqueles nobres nunca tinham sido citados nas provocações de Marande, e o nome deles com certeza estaria presente caso o mais leve sussurro vindo de Andor os pusesse em suspeita. Enquanto Marande não mencionasse aqueles nobres, haveria esperança de que não tinham se ajoelhado diante de al’Thor. Aquelas pessoas a apoiaram na primeira reivindicação ao trono e, se a Luz quisesse, poderiam apoiá-la de novo.

A floresta de árvores quase secas deu lugar a uma estrada de terra batida, e o grupo foi avançando para o sul, em direção a Amador. Passaram por trechos em que a mata tinha sido reduzida a tocos de troncos de árvores derrubadas e descampados de grama amarelada envoltos por cercas de pedra caídas, com casas de pedra com telhados de palha e celeiros bem afastados da estrada. Tinha bastante gente na estrada, todos levantando poeira ao andar, e Morgase teve que cobrir o rosto com um lenço de seda, embora o povo abrisse caminho ao avistar um grupo tão grande de homens com armas e armaduras. Alguns até corriam para as árvores ou saltavam por cima das pedras das cercas caídas e disparavam campo adentro. Os Mantos-brancos ignoravam as pessoas, e nenhum fazendeiro ergueu os punhos ou gritou com os invasores. Muitas fazendas pareciam abandonadas, sem galinhas ou qualquer outro animal à vista.

Por entre o povo que andava pela estrada Morgase viu uma carroça de bois, um homem conduzindo algumas ovelhas e até mesmo uma jovem guiando um grupo de gansos. Todos eram obviamente locais. Alguns levavam trouxas nos ombros ou alforjes abarrotados, mas a maioria ia de mãos vazias, como se não tivesse ideia de para onde seguia. E essa maioria parecia maior a cada vez que Morgase recebia permissão para sair de Amador, não importava para que direção seguisse com a comitiva.