Ajustando o lenço sobre o nariz, Morgase olhou Norowhin de esguelha. O sujeito tinha mais ou menos a mesma idade e altura de Tallanvor, mas as semelhanças acabavam por aí. Norowhin nunca fora bonito, com o rosto vermelho coberto pelo capacete reluzente em forma de cone e a pele descascada por conta do sol. Era magricela, desengonçado e tinha um nariz proeminente que lembrava uma picareta. Ele liderava a “escolta” sempre que Morgase saía da Fortaleza da Luz, e ela sempre tentava engatar conversa. Manto-branco ou não, ela considerava uma vitória cada passinho que avançava na empreitada de convencê-lo de que não precisava tratá-la como prisioneira.
— Esses são os refugiados do Profeta, Norowhin?
Não podiam ser, pelo menos não todos. Havia tanta gente rumando para o norte quanto para o sul.
— Não. — Foi a resposta rude, e ele nem se dignou a encará-la. Seus olhos esquadrinhavam a beira da estrada, como se ele esperasse que alguém fosse aparecer do nada para resgatá-la.
Infelizmente, era o único tipo de reação que Morgase conseguia arrancar dele. Mesmo assim insistiu:
— E quem são, homem? Com certeza não são tarabonianos. Vocês estão mesmo conseguindo manter esse povo longe de Amadícia. — Tinha visto Mantos-brancos a cavalo acompanhando um grupo de tarabonianos para oeste, mais cedo. Cinquenta e tantos homens, mulheres e crianças imundos e quase caindo de cansaço sendo conduzidos feito gado. Só tinha conseguido conter a língua por saber que não havia nada que pudesse fazer sobre o assunto. — Amadícia é uma terra rica. Nem mesmo uma seca dessas teria conseguido expulsar tanta gente de suas fazendas em uns poucos meses.
Norowhin pareceu tentar conter uma careta.
— Não são — respondeu enfim. — São refugiados do falso Dragão.
— Mas como? Ele está a centenas de léguas daqui.
A relutância do homem ficou mais uma vez estampada no rosto queimado de sol, só não era possível saber se ele hesitava em busca das palavras certas ou se estava considerando se deveria responder ou não.
— Essas pessoas acreditam que ele seja o verdadeiro Dragão Renascido — disse, por fim, parecendo enojado. — Alegam que ele quebrou todos os elos, segundo as Profecias. Homens renunciaram a seus lordes, aprendizes largaram os mestres. Maridos abandonaram as famílias, e as esposas deixaram os maridos. É uma praga levada pelo vento, um vento que vem do falso Dragão.
Morgase avistou um jovem casal abraçado que observava a passagem da comitiva. O suor escorria em seus rostos, sujos da mesma poeira que cobria as roupas simplórias. Pareciam famintos, de rosto encovado e olhos arregalados. Será que coisa parecida poderia estar acontecendo em Andor? Será que Rand al’Thor também teria causado isso em sua terra? Se tiver, ele vai pagar. O problema era conseguir ter certeza de que a cura não seria pior do que a doença. Se resgatasse Andor, mesmo que de uma situação dessas, e a entregasse aos Mantos-brancos…
Tentou continuar a conversa, mas, depois de lhe dirigir mais palavras do que já tinha conseguido dizer de uma só vez, Norowhin retomou as respostas monossilábicas. Não importava: se conseguira abrir aquela casca uma vez, poderia repetir o feito.
Morgase se remexeu sobre a sela para tentar ver melhor o casal de jovens, mas eles estavam ocultos atrás dos soldados Mantos-brancos. Isso também não importava. Aqueles rostos permaneceriam guardados em sua memória, assim como sua promessa.
CAPÍTULO 10
Um ditado das Terras da Fronteira
Rand estava com saudade dos dias em que teria sido possível caminhar sozinho pelos corredores do Palácio. Naquela manhã, estava acompanhado por Sulin e mais vinte Donzelas; por Bael, o chefe de clã dos Aiel Goshien, com seus cinco Sovin Nai, os Mãos de Faca dos Jhirad Goshien, pela honra do chefe de clã; e por Bashere, escoltado por homens de Saldaea com os típicos narizes de gavião. A comitiva apinhava o amplo corredor com paredes cobertas de tapeçarias. As Far Dareis Mai e os Sovin Nai, vestidos em seu cadin’sor, nem olhavam para os serviçais que se curvavam em mesuras e reverências rápidas logo e saíam do caminho. Já os saldaeanos, mais jovens, avançavam com um ar afetado, vestidos com casacos curtos e calças largas enfiadas nas botas. Estava fazendo calor até ali, naquela passagem sombreada, com grãozinhos de poeira dançando no ar. Alguns serviçais ostentavam o uniforme vermelho e branco dos tempos do governo de Morgase, mas a maioria era recém-chegada e ainda usava as mesmas roupas de quando se candidatara ao trabalho: a lã típica de fazendeiros e comerciantes, os tecidos quase todos escuros e lisos, mas de diversas cores, com bordados ou pedacinhos de renda aqui e ali.
Rand fez uma anotação mental para não se esquecer de mandar a Senhora Harfor, a Criada-chefe, providenciar uniformes para todos, de modo que os recém-chegados não sentissem que precisavam usar suas melhores roupas para trabalhar. Os uniformes do Palácio com certeza seriam de qualidade superior à de qualquer roupa dos camponeses, exceto talvez pelas suas roupas de festa. Havia menos serviçais do que durante o governo de Morgase, e boa parte dos homens e mulheres vestidos em vermelho e branco eram grisalhos e meio corcundas, pois tinham sido convocados dos alojamentos dos aposentados. Em vez de fugir, como tantos outros, aqueles serviçais preferiram abdicar da aposentadoria a ver o palácio destruído. Outra anotação mental. Mandar a Senhora Harfor — Criada-chefe não era um título muito glorioso, mas era Reene Harfor quem comandava o dia a dia do Palácio Real — encontrar serviçais o bastante para que os mais velhos pudessem desfrutar da aposentadoria. Será que o benefício ainda estava sendo pago, agora que Morgase morrera? Devia ter pensado nisso antes. Bem, Halwin Norry, guarda-livros-chefe, saberia. Rand se sentia como se estivesse sendo espancado por penas até a morte. Cada coisa o fazia lembrar-se de outra que precisava ser feita. E ainda tinha o problema com os Caminhos… as penas não eram nada macias. Mandara uma guarda vigiar o Portal dos Caminhos ali em Caemlyn, além de todas as entradas próximas a Tear e Cairhien, mas não tinha nem como ter certeza de quantos existiam.
Sim, trocaria todas as mesuras e reverências, toda a guarda de honra, todas aquelas questões e incumbências, toda aquela gente com necessidades a serem atendidas… trocaria tudo aquilo pelos dias em que sua única preocupação era arranjar um casaco para se aquecer. Claro que, naqueles dias, não teria sequer permissão de caminhar por esses corredores, pelo menos não sem um tipo diferente de guarda, vigiando para que ele não surrupiasse um dos cálices de ouro e prata dos nichos na parede ou alguma das esculturas de marfim de uma das mesas marchetadas de lápis-lazúli.
Pelo menos a voz de Lews Therin não estava resmungando ininterruptamente naquela manhã. E pelo menos Rand achava que estava pegando o jeito daquele truque que Taim lhe ensinara. O rosto de Bashere estava empapado de suor, mas Rand quase não era afetado pelo clima extremo — o casaco cinza de seda bordado estava abotoado até o pescoço, e, mesmo sentindo um pouco de calor, o jovem não suava uma gota sequer. Taim explicara que com o tempo Rand sequer sentiria calor ou frio, mesmo que a temperatura chegasse a extremos que incapacitariam um homem comum. Era apenas questão de se retrair e se distanciar de si mesmo, de um jeito parecido com quando ele se preparava para abraçar saidin. Era estranho que aquela habilidade fosse tão similar aos usos do Poder, mesmo sem ter qualquer relação com a Fonte Verdadeira. Será que as Aes Sedai também faziam isso? Nunca tinha visto uma delas suar. Pelo menos achava que não.