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— Descubra quem começou esses rumores e jogue os responsáveis na prisão — mandou, em um tom severo. Luz, como poderiam descobrir quem dera início àquela fofoca? — Se quiserem perdão, podem pedir a Elayne. — Uma jovem serviçal usando um vestido marrom simples e espanando um vaso de vidro retorcido olhou para o seu rosto enquanto Rand dava a ordem. O vaso caiu de suas mãos subitamente trêmulas e se despedaçou. É, ele nem sempre alterava o acaso. — Alguma boa notícia? Seria ótimo.

A jovem se agachou, ainda trêmula, para recolher os cacos, mas bastou um olhar de Sulin — um simples olhar! —, e ela se afastou correndo, de olhos arregalados, e se apertou contra a parede, junto a uma tapeçaria de um leopardo em plena caça. Rand não entendia por quê, mas algumas mulheres pareciam temer mais as Donzelas que os homens Aiel. A jovem olhou para Bael como se esperasse receber alguma proteção. Mas ele não parecia nem vê-la.

— Bem, depende de o que você considera boas notícias — retrucou Bashere, dando de ombros. — Fiquei sabendo que Ellorien, da Casa Traemane, e Pelivar, da Casa Coelan, chegaram à cidade faz três dias. Entraram escondidos, por assim dizer, e, pelo que eu sei, nenhum dos dois chegou nem perto da Cidade Interna. E corre o boato de que Dyelin, da Casa Taravin, está aqui por perto, no interior. Nenhum deles respondeu aos seus convites. Não ouvi nada que pudesse ligá-los aos boatos. — Ele olhou de esguelha para Bael, que balançou a cabeça de leve.

— Ouvimos ainda menos do que você, Davram Bashere. O povo daqui só deixa a língua solta na companhia de outros aguacentos.

De todo modo, eram boas notícias. Rand precisava daquelas pessoas. Poderia dar um jeito de resolver a situação, se aqueles nobres achassem que ele era um falso Dragão. E se aquelas pessoas acreditassem que ele tinha matado Morgase… bem, era ainda melhor que permanecessem leais à memória e ao sangue da rainha.

— Mande novos convites para virem me visitar. E inclua o nome de Dyelin. Os dois devem saber onde ela está.

— Se eu mandar o convite, acho que a única coisa que eles vão ouvir é que tem um exército de Saldaea instalado em Andor — retrucou Bashere, meio na dúvida.

Rand hesitou, então assentiu, abrindo um sorriso de repente.

— Peça a Lady Arymilla que leve o convite. Não tenho dúvidas de que ela vai adorar a oportunidade de mostrar aos outros quanto é próxima de mim. Mas quero que você redija.

Mais uma vez, as aulas de Moiraine sobre o Jogo das Casas se mostravam úteis.

— Bem, tem mais, e não sei se é uma notícia boa ou ruim — continuou Bael, mudando de assunto —, mas os Escudos Vermelhos disseram que duas Aes Sedai alugaram quartos em uma estalagem na Cidade Nova. — Os Escudos Vermelhos tinham ajudado os homens de Bashere a fazer o policiamento de Caemlyn, no começo, mas depois assumiram a função. Bael abriu um leve sorriso ao notar o desapontamento no rosto de Bashere. — Nós ouvimos menos, Davram Bashere, mas pode ser que, às vezes, nossos olhos vejam mais.

— Alguma delas é nossa amiga que gosta de gatos? — perguntou Rand.

As histórias de que havia uma Aes Sedai na cidade persistiam. Às vezes eram duas, ou três, ou um grupo maior, mas o máximo que Rand conseguira descobrir eram umas poucas histórias sobre uma Aes Sedai que Curava gatos e cachorros, mas que sempre estava em alguma rua mais à frente. E sempre contada por alguém que ouvira de alguém que ouvira em uma taverna ou um mercado.

Bael balançou a cabeça.

— Acho que não. Os Escudos Vermelhos disseram que as duas parecem ter chegado no meio da noite.

Bashere parecia interessado — o homem não perdia uma chance de repetir que Rand precisava das Aes Sedai. Bael, contudo, franzia o cenho de leve, tão de leve que só um Aiel teria percebido. Aquele era um povo cauteloso, até relutante, quando o assunto era Aes Sedai.

Aquelas poucas palavras davam a Rand muito o que pensar, e cada pensamento desencadeado pelos boatos levava de volta para ele. As duas Aes Sedai deviam ter um motivo para ir a Caemlyn quando suas irmãs andavam evitando a cidade desde que o Dragão Renascido aparecera por lá. O mais provável era que tivesse a ver com ele. Era comum evitar viajar à noite até mesmo nos tempos de paz, e os tempos não andavam nada pacíficos. Chegar no meio da madrugada talvez indicasse que as Aes Sedai estavam tentando passar despercebidas — e o mais provável é que fosse justamente ele quem elas não quisessem que notasse sua presença. Por outro lado, poderia ser apenas alguma viagem urgente. O que talvez indicasse uma missão para a Torre. E a verdade era que Rand não conseguia pensar em nada mais importante para a Torre, naquele momento, do que ele próprio. Ou as duas poderiam estar viajando ao encontro das Aes Sedai que Egwene insistia que iam apoiá-lo.

Fosse o que fosse, Rand queria saber. Só a Luz sabia o que as Aes Sedai — fossem as da Torre ou as desse grupo escondido com Elayne — estavam tramando, mas ele tinha que descobrir. As Aes Sedai eram um grupo grande demais e potencialmente perigoso demais para ele se dar ao luxo de não ficar atento. Como a Torre reagiria quando Elaida soubesse da anistia? Como as Aes Sedai reagiriam? Será que já estavam sabendo?

Enquanto se aproximavam das portas no fim do corredor, Rand abriu a boca para pedir a Bael que convidasse uma das Aes Sedai para vir ao Palácio. Podia dar conta de duas delas, se fosse o caso — contanto que não o pegassem de surpresa —, mas não havia motivo para se arriscar antes de saber quem eram e o que pretendiam.

Estou tomado de orgulho. Esse mesmo orgulho doentio que me destruiu!

Rand tropeçou. Era a primeira vez do dia que ouvia a voz de Lews Therin em sua cabeça — e ainda por cima o comentário era parecido demais com o que estava pensando a respeito das Aes Sedai —, mas não foi isso o que o fez parar de repente e engolir as palavras que estava prestes a dizer.

As portas que davam para um dos jardins do Palácio estavam abertas por causa do calor. Não havia flores, e alguns dos arbustos de rosas e estrelas-brancas estavam murchos, mas, mesmo com poucas folhas nas copas, ainda havia a sombra das árvores ao redor da fonte de mármore branco que jorrava água, bem no coração do jardim. Uma mulher de saia rodada de lã marrom e uma blusa branca e larga de algode estava parada junto à fonte, com um xale cinza enrolado nos braços, com aquela mesma expressão atônita que os Aiel encaravam a água que não tinha outra função além de ser olhada. Rand deixou os olhos de perderem nas linhas do rosto de Aviendha, nas ondas de seus cabelos ruivos que caíam sobre os ombros, o lenço cinza dobrado amarrado no topo da cabeça. Luz, como ela era bonita. Aviendha observava o movimento da água, ainda sem reparar em sua presença.

O que sentia por ela era amor? Não sabia. A Aiel sempre aparecia nos sonhos com Elayne e com Min. Rand sabia que aquilo é que era perigoso. Sabia que não tinha nada a oferecer a uma mulher além de sofrimento.

Ilyena, lamentou Lews Therin. Eu a matei! A Luz há de me consumir para sempre!

— Deve ser coisa importante, para uma dupla de Aes Sedai aparecer desse jeito — murmurou Rand. — Talvez seja melhor eu visitar a estalagem e descobrir por que vieram. — Quase todos da comitiva pararam junto com ele, mas Enaila e Jalani se entreolharam e continuaram avançando, passando por ele e indo para o jardim. Rand ergueu a voz uma fração mínima e a deixou ainda mais dura. — As Donzelas aqui virão comigo. Quem quiser botar um vestido e fofocar sobre juntar casais pode ficar para trás.

Enaila e Jalani se empertigaram e se viraram para ele, um brilho de indignação nos olhos. Era bom que Somara não estivesse na guarda naquela manhã: a mulher provavelmente teria seguido em frente mesmo assim. Sulin remexeu os dedos, dizendo alguma coisa na língua de sinais secreta das Donzelas. Fosse lá o que ela estivesse dizendo, acabou com a indignação dos olhares das outras duas e as deixou com o rosto ardendo de vergonha. Os Aiel empregavam uma variedade de gestos quando era melhor manter o silêncio. Cada clã tinha alguns sinais específicos, assim como cada sociedade, além dos gestos comuns entre todos os Aiel. Mas apenas as Donzelas tinham criado uma verdadeira linguagem a partir dos sinais.