Rand se afastou do jardim, sem esperar Sulin acabar o que estava dizendo. Aquelas Aes Sedai podiam sair de Caemlyn tão rápido quanto tinham chegado. Olhou por cima do ombro. Aviendha ainda encarava a água — ela não tinha reparado nele. Apressou o passo.
— Bashere, pode mandar um de seus homens aprontar os cavalos? No Portão do Estábulo Sul. — Os portões principais do Palácio davam para a Esplanada da Rainha, que estaria apinhada de gente na esperança de conseguir um vislumbre de Rand. Levaria meia hora para passar, se tivesse sorte.
Com um gesto, Bashere botou a questão a encargo de um dos saldaeanos mais jovens, que saiu em disparada. Seus passos tinham o balanço ligeiro de um homem mais acostumado a uma sela do que às próprias pernas.
— Um homem inteligente sabe quando recuar diante de uma mulher — comentou Bashere, para o ar —, mas um homem sábio reconhece que às vezes é preciso ficar e enfrentá-la.
— É coisa dos jovens — retrucou Bael, em tom indulgente. — Os jovens perseguem as sombras e fogem do luar, mas no fim das contas acabam acertando o próprio pé com a lança que carregavam.
Alguns outros Aiel, tanto Donzelas quanto Mãos de Faca, soltaram risadinhas. Só os mais velhos. Irritado, Rand olhou para trás outra vez.
— Nenhum de vocês ficaria bem de vestido.
Para sua surpresa, tanto as Donzelas quanto os Mãos de Faca riram outra vez, e ainda mais alto. Talvez ele estivesse pegando o jeito do humor Aiel.
Tudo correu conforme o esperado quando ele saiu do Portão do Estábulo Sul e adentrou uma das ruas sinuosas da Cidade Interna. Os cascos de Jeade’en ressoavam nas pedras do pavimento enquanto o garanhão se remexia — o sarapintado quase não saía mais do estábulo, ultimamente. Havia bastante gente na rua, mas nem de longe na mesma quantidade que deveria estar apinhando os caminhos do outro lado do Palácio, e todos ali estavam ocupados com seus afazeres. Mesmo assim, as pessoas apontavam para ele, cochichando umas com as outras. Alguns talvez tivessem reconhecido Bashere — que, ao contrário de Rand, circulava com frequência pela cidade —, mas qualquer um que saísse do Palácio, ainda mais com uma escolta de Aiel, devia ser importante. Os cochichos e dedos apontados os seguiram pelas ruas.
Apesar dos olhares, Rand tentou apreciar a beleza das construções Ogier da Cidade Interna. Considerava preciosos os raros momentos em que conseguia simplesmente parar e apreciar alguma coisa. As ruas sinuosas saíam do reluzente Palácio Real, todo branco, e seguiam em curvas pelos contornos das colinas como se fossem parte da paisagem natural. O lugar era pontilhado de torres elegantes revestidas de ladrilhos coloridos, algumas com domos dourados, roxos ou brancos cintilando à luz do sol. Em certo ponto, havia um grande espaço aberto dando vista para um parque bem arborizado; em outro, uma colina atraía o olhar para os limites da cidade, para as florestas e planícies ondulantes além do comprido muro branco rajado de prata que circundava toda Caemlyn. A Cidade Interna fora projetada para encantar e confortar os olhos. De acordo com os Ogier, apenas a própria Tar Valon e a histórica Manetheren a superavam em beleza, e muitos humanos, sobretudo os andorianos, acreditavam que na verdade a beleza de Caemlyn fazia jus às outras duas.
As alvíssimas muralhas da Cidade Interna demarcavam o início da vizinha, a Cidade Nova, com seus próprios domos e pináculos, alguns tentando competir em altura com os da Cidade Interna, que ocupava as colinas mais altas. As ruas ali eram mais estreitas e estavam cheias de vida. Até os bulevares mais amplos, divididos por canteiros com fileiras de árvores, estavam lotados de gente a pé, carros de boi, carroções puxados por cavalos, pessoas montadas ou em carruagens e liteiras. Um burburinho pairava no ar, feito um imenso enxame de abelhas.
Avançavam ainda mais devagar por ali, mesmo com o povo abrindo caminho. Assim como o povo nas ruas da Cidade Interna, aquela gente não sabia quem ele era, mas ninguém queria atravancar o avanço dos Aiel — ainda assim, avançar pelas ruas cheias em uma comitiva tão grande era algo que, simplesmente, levava tempo. E na rua havia todo tipo de gente: fazendeiros usando lã crua; mercadores em casacos ou vestidos de corte mais refinado; artesãos envolvidos em seus trabalhos; mascates berrando sobre os produtos expostos em bandejas e carrinhos de mão, vendendo desde fitas e alfinetes até frutas e fogos de artifício — e os preços dos dois últimos itens estavam igualmente exorbitantes. Um menestrel, em seu manto coberto de retalhos, esbarrou em três Aiel que inspecionavam as lâminas expostas nas mesas diante da oficina de um cuteleiro. Dois sujeitos esguios de cabelos escuros e trançados e espadas nas costas — Rand supôs que fossem Caçadores da Trombeta — estavam parados em uma esquina, conversando com um grupo de saldaeanos enquanto ouviam uma dupla de músicos; uma mulher na flauta e um homem batucando um tambor. Os cairhienos, mais baixos e de pele mais clara, destacavam-se entre os andorianos, assim como os tairenos, de pele mais escura. Mas também havia murandianos em seus casacos compridos, altaranos em coletes elaborados, kandorianos de barba forcada e até um par de domaneses, com seus longos brincos e o típico bigode fino e comprido.
E outro tipo de gente também se destacava na multidão, com seus casacos surrados e vestidos amarrotados, quase sempre sujos, com olhares fixos perdidos, piscando em confusão, claramente sem rumo e ou ideia do que fazer. Era uma gente que já tinha encontrado o que buscava: ele — o Dragão Renascido. Rand não tinha noção do que fazer com aquelas pessoas, mas, querendo ou não, eram sua responsabilidade. Não importava que ele não tivesse pedido a ninguém que jogassem a vida fora, que nunca nem tivesse esperado que eles abandonassem tudo. Nada importava: já estava feito. E por ele. Aquelas pessoas, se descobrissem Rand ali na rua, poderiam muito bem subjugar os Aiel em meio ao desespero de simplesmente tocá-lo.
Rand tocou a estátua do homenzinho gordo no bolso do casaco, o angreal. Era um artefato excelente, se as coisas chegassem ao ponto de ele precisar usar o Poder Único para se proteger de gente que abandonara tudo por sua causa. Era justamente por isso que Rand quase nunca se aventurava pela cidade. Ou esse era pelo menos um dos motivos — ele era ocupado demais para se dar ao luxo de perder tempo com passeios.
Bael os guiou até uma estalagem chamada Sabujo de Culain, na parte oeste da cidade, uma construção de pedra de três andares com telhado de azulejos vermelhos. A multidão aglomerada na sinuosa rua lateral que levava à estalagem recuou para os lados, se amontoando em volta da comitiva quando eles pararam na porta de entrada. Rand tocou outra vez o angreal — duas Aes Sedai… provavelmente conseguiria lidar com elas sem ajuda —, desceu da montaria e entrou. Claro que antes entraram três Donzelas e uma dupla de Mãos de Faca, todos avançando nas pontas dos pés e prestes a erguer os véus. Seria mais fácil ensinar um gato a cantar do que convencer os Aiel a se acalmarem um pouco. Dois saldaeanos ficaram com os cavalos, e Bashere e os outros o seguiram de perto, com Bael e outros Aiel atrás — claro que Bael deixara homens de guarda do lado de fora. Mas o que encontraram não era o que Rand esperava.
O salão poderia ser qualquer um dos mais de cem salões de estalagem em Caemlyn: os imensos barris de cerveja e vinho enfileirados em uma parede caiada, sustentando uma fileira de pequenas barricas de conhaque e o gato cinza listrado deitado bem no topo; o par de lareiras de pedra completamente vazias; o teto de vigas, as três ou quatro serviçais de avental circulando por entre as mesas; os bancos espalhados pelo lugar; o chão de madeira crua. O estalajadeiro, cuja enorme papada fazia seu rosto redondo parecer ter três queixos, com o corpanzil apertado num avental branco, aproximou-se depressa a passos pesados, limpando as mãos e lançando um olhar nervoso na direção dos Aiel. O povo de Caemlyn já conseguira compreender que aquele povo do deserto não sairia saqueando e incendiando tudo — tinha sido muito mais difícil convencer os Aiel de que Andor não era um território conquistado e que eles não poderiam reivindicar o quinto —, mas isso não queria dizer que os estalajadeiros estavam acostumados a receber tantos Aiel armados em seus salões.