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Pelo visto as duas haviam ouvido os rumores em Ponte Branca, então tinham ido correndo para lá e mantido tudo escondido das garotas. Pelas reações de Bo e das outras, a decisão de não ir a Tar Valon era novidade. Ao que parecia, as duas só tinham confirmado que os rumores eram verdadeiros naquela mesma manhã.

— Imagino que vocês não vão me dizer quem é sua espiã em Caemlyn.

As duas simplesmente o encararam, e Verin inclinou a cabeça para analisá-lo. Era estranho pensar em como já ficara inquieto ao ser alvo do olhar de uma Aes Sedai, que sempre pareciam tão serenas e no controle da situação. Já não sentia o estômago se revirar, ansioso, quando encarava de frente uma — ou mesmo duas — Aes Sedai. Ah, o orgulho, comentou Lews Therin, soltando uma risada insana, e Rand conteve uma careta.

— Fui informado de que existe um grupo de rebeldes. E vocês não negaram saber onde elas estão. Não desejo nenhum mal a elas, longe disso. Tenho motivos para crer que podem me apoiar.

Rand preferiu manter segredo sobre a principal razão de querer saber o paradeiro das rebeldes. Talvez Bashere estivesse certo, talvez ele realmente precisasse do apoio das Aes Sedai, mas o que mais o impelia a descobrir onde as outras estavam era ter sido informado de que Elayne estava com elas. Precisava dela para conquistar Andor sem violência. Era só por isso que a estava procurando. Só por isso. Rand sabia que ele era tão perigoso para a Filha-herdeira quanto para Aviendha.

— Pelo amor da Luz, se souberem, me digam.

— Se soubéssemos — retrucou Alanna —, não teríamos o direito de contar a ninguém. Se elas decidirem apoiar você, pode ter certeza de que virão ao seu encontro.

— E no tempo delas — acrescentou Verin —, não no seu.

Rand abriu um sorriso taciturno. Deveria ter esperado isso, talvez até menos. O que o guiava era o conselho de Moiraine, no dia em que ela morreu: não confiar em mais nenhuma mulher que usasse o xale.

— Mat está com você? — perguntou Alanna, em um tom que sugeria que aquilo realmente tivesse acabado de lhe ocorrer.

— Se eu soubesse onde ele está, por que contaria a vocês? E então, já é minha vez de perguntar de novo? — Elas não pareceram achar graça.

— É tolice sua nos tratar como inimigas — murmurou Alanna, aproximando-se. — Você parece abatido. Está conseguindo descansar direito?

Quando a mulher ergueu a mão, Rand deu um passo atrás, afastando-se. Ela parou.

— Assim como você, Rand, não tenho intenção de causar mal. Isso não vai machucá-lo.

Alanna organizara a frase de um jeito tão direto que não tinha como não ser verdade. Rand assentiu, e a mulher ergueu a mão para tocar sua cabeça. A pele de Rand formigou de leve quando Alanna abraçou saidar, e ele sentiu uma onda morna e familiar percorrer o corpo — a sensação de alguém conferindo sua saúde.

A mulher assentiu, satisfeita. Então aquela sensação morna virou um calor intenso de repente, como se ele tivesse sido transportado por um instante para o meio de uma caldeira crepitante. Mesmo depois que o calor passou, Rand se sentiu estranho, muito mais consciente de si mesmo do que jamais estivera, muito consciente da presença de Alanna. Ele balançou o corpo de leve, ligeiramente tonto, os músculos fracos. Sentiu um eco de confusão e desconforto vindo de Lews Therin.

— O que você fez? — inquiriu. Furioso, agarrou saidin. A força do Poder Único o ajudou a se manter de pé. — O que foi que você fez?

Sentiu uma pancada no fluxo que o unia à Fonte Verdadeira. As mulheres estavam tentando blindá-lo! Urdiu seus próprios escudos e os jogou com força contra as duas. Ah, tinha mesmo avançado muito e aprendido bastante desde a última vez que encontrara Verin. A Marrom cambaleou, apoiando-se na mesa, e Alanna grunhiu, como se tivesse levado um soco.

— O que foi que você fez? — Mesmo no Vazio frio e desapaixonado, sentiu que a voz saía rascante. — Me responda! Eu não prometi que não machucaria vocês. Se não me disserem…

— Ela criou um elo com você — respondeu Verin, mais do que depressa. Se a sua serenidade tinha sido abalada, ela a recuperou em um instante, porque continuou, a voz tranquila: — Ela fez de você um de seus Guardiões, com um elo. Foi isso.

Alanna recuperou a compostura ainda mais depressa. Mesmo blindada, a mulher o encarou com toda a calma, os braços cruzados e um leve brilho satisfeito nos olhos. Satisfeito!

— Eu falei que não ia machucá-lo. E, de fato, fiz o oposto.

Rand tentou se acalmar, respirando lenta e profundamente. Caíra no jogo dela feito um patinho. Sentia a ira rastejando fora do Vazio. Calma. Precisava manter a calma. Um Guardião. Então ela era uma Verde. Não que fizesse diferença. Rand não sabia muito sobre Guardiões, e não tinha ideia de como quebrar o elo — não sabia nem se era possível. Sentia apenas choque e espanto emanando de Lews Therin. Não pela primeira vez, desejou que Lan não tivesse fugido a galope logo após a morte de Moiraine.

— Vocês disseram que não vão para Tar Valon. Nesse caso, e já que parecem não ter muita certeza se sabem ou não onde as rebeldes estão, podem ficar aqui em Caemlyn. — Alanna abriu a boca, mas ele não a deixou falar. — E deviam ficar gratas por eu não atar a blindagem e largar as duas assim! — Aquilo as fez parar e ouvir. Verin comprimiu os lábios, e o brilho de raiva nos olhos de Alanna podia se equiparar ao calor daquela fornalha em que ele mergulhara mais cedo. — Mas vão ficar longe de mim. As duas. Estão proibidas de entrar na Cidade Interna, a não ser que sejam convocadas por mim. Se tentarem entrar lá, podem acreditar que vou deixar as duas presas nesse escudo, além de jogá-las em uma cela. Estamos entendidos?

— Perfeitamente. — Apesar do fogo nos olhos, a voz de Alanna era puro gelo.

Verin limitou-se a assentir.

Rand parou assim que abriu a porta. Tinha se esquecido das garotas de Dois Rios. Umas conversavam com as Donzelas, outras apenas as observavam, cochichando por trás das canecas de chá. Bo e um grupo das meninas de Campo de Emond interrogavam Bashere, que estava agarrado a uma caneca de estanho, com um dos pés apoiado em um banco. Pareciam metade entretidas, metade horrorizadas. O barulho da porta se abrindo as fez virar a cabeça de repente.

— Rand! — exclamou Bo — Este sujeito aqui está falando umas coisas horríveis de você.

— Ele disse que você é o Dragão Renascido — balbuciou Larine.

Ao que parecia, as outras garotas espalhadas pelo salão ainda não tinham ouvido a novidade, e todas soltaram murmúrios surpresos.

— Eu sou — confirmou Rand, cansado.

Larine fungou e cruzou os braços.

— Percebi que você estava se achando todo importante assim que vi esse casaco, ainda mais depois de ter ido embora com uma Aes Sedai. E notei isso antes mesmo de você ser tão desrespeitoso com Alanna Sedai e Verin Sedai. Mas não sabia que você tinha virado um completo idiota.

Bo soltou uma risada, mas parecia mais de medo do que de alguém que achava graça.

— Você não devia dizer essas coisas, Rand, nem mesmo de brincadeira. Tam criou você direito, e não para essas besteiras. Você é Rand al’Thor. Agora deixe de bobagem.

Rand al’Thor. Era mesmo seu nome, mas ele mal sabia quem era. Tam al’Thor o criara, mas seu pai na verdade era um chefe de clã Aiel morto havia muito. Sua mãe era uma Donzela, mas não era Aiel. E isso era tudo o que sabia sobre quem realmente era.

Saidin ainda o preenchia. Com toda a delicadeza, envolveu Bo e Larine em fluxos de Ar e ergueu as duas até ficarem com os pés balançando.

— Eu sou o Dragão Renascido. Negar isso não muda nada. Nem desejar que seja mentira. Eu não sou o homem que vocês conheceram em Campo de Emond. Entendem agora? Entendem? — Reparou que estava gritando e calou a boca.