— Vocês se tornarão noviças, e a primeira lição é aprender a obedecer às Aes Sedai. Na hora em que são mandadas. E sem reclamar nem choramingar. — Alanna estava parada no meio do salão, e Verin não via diferença em sua aparência, mas a cabeça da Ilusão tocava as vigas do teto. — Agora vão logo! Quem não estiver no quarto quando eu contar até cinco vai se arrepender da decisão até a hora da morte. Um. Dois…
As meninas saíram correndo e fazendo uma barulheira, subindo as escadas nos fundos do salão em desespero, antes que a Verde chegasse ao três. Verin ficou surpresa ao notar que nenhuma tinha sido pisoteada.
Alanna não se deu ao trabalho de contar além de quatro: soltou saidar assim que a última garota de Dois Rios desapareceu no andar de cima, deixando a Ilusão sumir, e balançou a cabeça de leve, satisfeita. Verin imaginava que todas precisariam de uma boa dose de convencimento até para enfiar as cabeças para fora da porta dos quartos. E talvez fosse melhor assim. Com as coisas como estavam, não queria ter que ir atrás de ninguém que saísse às escondidas para dar um passeio por Caemlyn.
Claro que a Ilusão de Alanna não fez efeito apenas nas futuras noviças. Tiveram que convencer as serviçais a saírem de debaixo das mesas, e a mulher que caíra enquanto tentava se arrastar até a cozinha precisou de ajuda para se levantar. As serviçais não soltaram um pio, apenas tremiam feito vara verde. Cada uma delas precisou de um leve empurrãozinho de Verin para começar a se mexer, e a Marrom ainda teve que repetir a ordem de que servissem chá e conhaque três vezes antes de Azril parar de encará-la como se estivesse brotando mais uma cabeça em seu pescoço. O estalajadeiro estava de queixo caído, os olhos pareciam a ponto de saltar das órbitas. Verin olhou para Tomas e gesticulou para o sujeito abalado.
Seu Guardião a encarou com o mesmo olhar amargo de todas as vezes em que Verin pedia a ele que resolvesse problemas triviais — mesmo assim, o homem raramente questionava suas ordens —, então passou um dos braços por cima dos ombros de Mestre Dilham e perguntou, em um tom jovial, se ele não gostaria de acompanhá-lo em algumas canecas do melhor vinho da casa. Tomas era um bom homem, com talentos surpreendentes. Ihvon estava sentado com as costas na parede e as botas apoiadas em uma mesa, um olho na porta e outro em Alanna — o olho em Alanna estava bastante atento. O homem estava ainda mais solícito com ela desde a morte de Owein, o outro Guardião da Verde, além de, sabiamente, tratá-la com ainda mais delicadeza para não provocar seu mau gênio — embora, no geral, Alanna se controlasse um pouco melhor. E a Verde não demonstrava o menor interesse em ajudar a arrumar a bagunça que fizera. Estava parada de braços cruzados no meio do salão, olhando para o nada. Para qualquer um que não fosse Aes Sedai, a mulher parecia a encarnação da serenidade. Para Verin, a Verde estava prestes a explodir.
A Marrom foi até ela e tocou seu braço.
— Precisamos conversar.
Alanna a encarou com um olhar indecifrável e, sem dizer uma palavra, saiu deslizando a passos elegantes em direção à sala de jantar particular.
Às suas costas, Verin ouviu Mestre Dilham dizer, com a voz trêmula:
— Acha que eu posso dizer que o Dragão Renascido é freguês da minha estalagem? Ele entrou aqui, afinal.
A Marrom deu um leve sorriso. Pelo menos aquele homem ficaria bem. O sorriso sumiu assim que ela fechou a porta atrás de si.
A Verde andava de um lado para o outro pela pequena sala de jantar, batendo o pé, a seda das saias divididas farfalhando a cada passo, um sussurro tão leve quanto o de espadas sendo desembainhadas. A serenidade sumira de seu rosto.
— Que audácia! Ele nos deteve! Nos restringiu!
Verin a observou por uns momentos antes de responder. Levara dez anos para superar a morte de Balinor e estabelecer um elo com Tomas. A verde estava com os nervos à flor da pele desde a morte de Owein e passara tempo demais contendo as emoções. Os poucos arroubos de choro que ela se permitira desde que partiram de Dois Rios não eram o suficiente — a mulher precisava deixar a tristeza sair.
— Imagino que ele realmente tenha como nos manter longe da Cidade Interna, botando guardas no portão, mas não pode nos prender aqui em Caemlyn.
Aquilo suscitou o olhar fulminante que Verin esperava. Rand podia ter aprendido bastante sozinho, mas era pouco provável que soubesse tecer selos que as prendessem ali, então as duas não teriam muita dificuldade em partir — mas para isso teriam que abandonar as garotas de Dois Rios. Não se encontrava um tesouro como o de Dois Rios desde… Verin não conseguia nem imaginar quanto tempo fazia. Talvez desde as Guerras dos Trollocs. Eram muitas garotas. Tinham estabelecido um limite de idade de dezoito anos — mesmo garotas tão jovens em geral tinham dificuldades em aceitar as restrições da vida de noviça —, mas, se tivessem aumentado esse limite em apenas cinco anos, estariam levando o dobro de garotas, se não mais. Cinco das que traziam consigo — cinco! — tinham nascido com a centelha, inclusive a irmã de Mat, uma garota chamada Wile e a jovem Jancy: aquelas garotas conseguiriam canalizar, não importava se alguém as ensinasse ou não, e seriam muito fortes. Ela e Alanna tinham deixado outras duas para trás, para serem recolhidas dali a um ou dois anos, quando tivessem idade suficiente para sair de casa. Não havia muito perigo: sem treinamento, as nascidas com a habilidade raramente manifestavam o poder antes dos quinze anos. Todas as outras prometiam um talento excepcional, cada uma delas. Dois Rios era um veio de ouro puro.
Depois de chamar a atenção da Verde, Verin mudou de assunto. Não tinha a menor intenção de abandonar aquelas jovens. Ou de se afastar mais do que o necessário de Rand.
— Acha que ele está certo em relação às rebeldes?
Alanna cerrou os punhos, agarrando as saias, então relaxou as mãos.
— Fico com nojo só de pensar na possibilidade! Será que realmente chegamos a esse ponto… — Sua voz foi morrendo, meio perdida. Deixou os ombros caírem. Já dava para ver o prenúncio das lágrimas, que ela quase não conseguia conter.
Com a ira da Verde atenuada, Verin decidiu que era hora de fazer algumas perguntas, antes de deixá-la irritada outra vez.
— Será que com algum incentivo a sua açougueira conseguiria nos dizer alguma coisa sobre o que aconteceu em Tar Valon?
A açougueira não era realmente de Alanna, e sim uma agente da Ajah Verde — só tinha sido descoberta porque Alanna reparara no sinal que indicava um aviso urgente no exterior da loja. Não que a Verde tivesse lhe contado qual era o sinal, claro. A Marrom certamente não teria revelado nenhum segredo das Marrons.
— Não. A mulher não sabe nada além daquela mensagem, que já foi o bastante para deixar sua boca tão seca que ela mal conseguia pronunciar as palavras.
A mensagem. “Todas as Aes Sedai leais devem retornar à Torre. Tudo está perdoado.” Aquilo, pelo menos, era a essência da mensagem. Um lampejo de raiva cintilou nos olhos de Alanna, mas durou apenas um instante e não teve a mesma força de antes.
— Não fosse por todos esses boatos, eu jamais teria revelado identidade da informante a você — declarou a Verde.
Não fossem os boatos e o fato de ela estar com as emoções tão fora de controle. Pelo menos a mulher tinha parado de andar de um lado para o outro.