— Eu sei — retrucou Verin, sentando-se à mesa —, e vou respeitar o segredo. Mas você tem que concordar que essa mensagem confirma os rumores que ouvimos. A Torre está cindida. É bem provável que de fato tenha rebeldes em algum lugar. A questão é: o que faremos?
Alanna a encarou como se Verin estivesse louca, o que não era de se espantar: Siuan só podia ter sido deposta pelo Salão da Torre, segundo as leis da Torre. Só a sugestão de ir contra a lei da Torre já era algo inimaginável. Mas, por outro lado, ver a Torre cindida também era inimaginável.
— Se ainda não tiver uma resposta, pense um pouco a respeito. E considere isto: Siuan Sanche foi uma das responsáveis por o jovem al’Thor ter sido encontrado, em primeiro lugar. — Alanna abriu a boca, decerto para perguntar como Verin sabia daquilo e se também tinha parte da responsabilidade, mas a Marrom não deu nem chance. — E apenas uma mente simplória poderia acreditar que a responsabilidade por ter encontrado o Dragão Renascido não teve relação com a deposição da Amyrlin. Não existem coincidências assim tão grandes. Então é melhor pensar em qual deve ser a opinião de Elaida sobre Rand. Não esqueça que ela era Vermelha. E, enquanto pensa no assunto, quero que me responda uma coisa: onde você estava com a cabeça para formar um elo com ele daquele jeito?
Alanna não deveria ter ficado surpresa com a pergunta, mas ficou. A Verde hesitou, então puxou uma cadeira e também se sentou, ajeitando as saias, antes de responder.
— Era a coisa mais lógica a se fazer, com ele ali na nossa frente. E deveria ter sido feito há muito tempo. Mas vocês não conseguiram… ou não quiseram. — Como a maioria das Verdes, Alanna achava um pouco surpreendente que as outras Ajahs insistissem que cada irmã devesse ter apenas um Guardião. E era melhor nem mencionar o que achavam sobre as Vermelhas preferirem não ter nenhum. — Alguém devia ter forjado um elo com aqueles três desde que o encontraram. São importantes demais para ficarem à solta, ainda mais al’Thor.
A Verde de repente ficou com as bochechas coradas. Ela ainda levaria um bom tempo para voltar a ter as emoções sob controle.
Verin sabia a causa do rubor: Alanna tinha se descuidado e soltado a língua. As duas mantiveram o olho em Perrin durante as longas semanas enquanto testavam as moças de Dois Rios, mas Alanna logo parara de falar sobre a necessidade de estabelecer um elo com ele. O silêncio se devia à ameaça simples, porém fervorosa, de Faile — e feita bem longe dos ouvidos de Perrin — de que Alanna não sairia viva de Dois Rios se ousasse fazer uma coisa daquelas. Claro que a ameaça não teria funcionado caso Faile soubesse alguma coisa sobre o elo entre uma Aes Sedai e seu Gaidin, mas fora justamente sua ignorância que refreara a Verde. Era bem provável que a frustração de ter sido impedida pela ameaça de uma garota qualquer, somada à exaustão, que levara Alanna a fazer aquilo com Rand. A mulher não tinha apenas forjado um elo com ele: tinha feito aquilo sem permissão. Uma prática abandonada havia centenas de anos.
Bem, pensou Verin, secamente, eu também violei alguns costumes ao longo da vida.
— Lógica? — perguntou, abrindo um sorriso para abrandar as palavras. — Você está parecendo uma Branca. Muito bem. E o que vai fazer, agora que Rand é seu? Considerando a lição que ele acabou de nos dar. O que me lembra uma história de quando eu era menina, dessas que contavam à beira da lareira, sobre uma mulher que conseguiu botar sela e rédea em um leão. Ela adorou a nova montaria, até que descobriu que nunca mais poderia desmontar nem dormir.
Alanna estremeceu e esfregou os braços.
— Ainda não consigo acreditar em como ele é forte. Se pelo menos tivéssemos nos unido mais cedo… E eu tentei… mas fracassei… Ele é tão forte!
Até Verin teve que fazer um esforço para conter o tremor. Alanna estava falando do momento em que uniram suas forças para manejar uma quantidade maior de Poder, e Verin não via como poderiam ter feito isso mais cedo — a não ser que Verde estivesse sugerindo que tivessem se unido antes de ela estabelecer o elo de Guardião. A Marrom não sabia dizer o que poderia ter acontecido caso tivessem se atrevido a tanto. De todo modo, o encontro com al’Thor fora uma sucessão de acontecimentos horríveis. Depois de descobriram que não conseguiam apartá-lo da Fonte Verdadeira, tiveram que testemunhar o desdém com que ele, sem a menor dificuldade, blindara as duas ao mesmo tempo, rompendo sua ligação com saidar como se cortasse um fio. As duas, e de uma só vez. Impressionante. Quantas mulheres seriam necessárias para blindá-lo e contê-lo? Todas as treze, como ditava a tradição? Aquilo era apenas um costume antigo, mas no caso dele talvez de fato fosse necessário. Bem, de qualquer forma, não era hora de pensar naquilo.
— E ainda temos que pensar na questão da anistia.
Alanna arregalou os olhos.
— Você não pode acreditar numa coisa dessas! Sempre que surgia um falso Dragão, vinham também os boatos de que o sujeito estava reunindo homens capazes de canalizar. Mas eram apenas boatos, e tão falsos quanto os homens que se diziam Dragões. Esses homens querem todo o poder para si, não gostam de dividir nada com os outros.
— Ele não é um falso Dragão — retrucou Verin, muito calma. — Isso muda tudo. Se um dos boatos é verdadeiro, o outro pode ser também. E essa história de anistia está na boca do povo desde que saímos de Ponte Branca.
— Mesmo que seja verdade, talvez ninguém tenha vindo. Nenhum homem decente sonha em canalizar. Teríamos um falso Dragão por semana, se houvesse muitos homens com essas ideias.
— Ele é ta’veren, Alanna. Ele atrai o que necessita.
Alanna abriu e fechou a boca, cerrando os punhos apoiados sobre o tampo da mesa até os dedos ficarem brancos, de tanta força. Não restava mais nenhum traço da tranquilidade das Aes Sedai em seu rosto, e ela estava visivelmente trêmula.
— Não podemos permitir uma coisa dessas… Agora temos homens canalizando à solta pelo mundo? Se for verdade, precisamos dar um fim nisso. É nossa obrigação!
O acesso de raiva estava prestes a irromper outra vez, e os olhos de Alanna faiscavam.
— Precisamos saber onde al’Thor está mantendo esses homens, antes de pensar no que fazer com eles — retrucou Verin, ainda calma. — O Palácio Real parece um bom local para isso, mas vai ser difícil descobrir se não tivermos acesso à Cidade Interna. Proponho o seguinte…
Alanna se inclinou para a frente e ouviu com atenção.
O plano ainda precisava de muitos ajustes, mas podiam deixar quase todos para mais tarde. Ainda havia diversas questões a serem respondidas, porém isso também ficaria para depois. Moiraine estava mesmo morta? Se sim, como morrera? Havia mesmo rebeldes? E como ela e Alanna deveriam se posicionar nessa cisão entre as Aes Sedai? Era melhor tentarem entregar Rand a Elaida ou às rebeldes? E onde estavam essas Aes Sedai foragidas? O paradeiro das rebeldes era uma informação valiosa, independente das respostas para as outras perguntas. Como poderiam tirar proveito da corrente tão frágil que Alanna colocara em Rand? Será que era boa ideia uma delas, ou quem sabe as duas, tentar tomar o lugar de Moiraine? Pela primeira vez desde que Alanna extravasara seus sentimentos, tão à flor da pele depois da morte de Owein, Verin ficou feliz por isso ter demorado tanto. Naquele estado tão volúvel e confuso, a Verde ficava mais suscetível a aceitar sua orientação, e Verin sabia exatamente qual devia ser a resposta para algumas daquelas perguntas. E sabia que Alanna não ia gostar nada de algumas das respostas. Melhor que ela só descobrisse quando já fosse tarde demais.
Rand galopou de volta para o Palácio, aos poucos foi deixando para trás até mesmo os Aiel, ignorando os gritos de sua comitiva e a contrariedade das pessoas em seu trajeto, que sacudiam o punho no ar por precisarem saltar para fora do caminho de Jeade’en — ignorava até o rastro de confusão que deixava, com liteiras e carruagens enroscadas com as rodas dos carrinhos de venda. Bashere e seus homens, que usavam cavalos menores, mal conseguiam manter o ritmo. Rand não sabia muito bem por que estava com tanta pressa — não levava notícias tão urgentes assim —, mas, conforme a tremedeira em seus braços e pernas diminuía, aumentava a percepção de que continuava muito consciente de Alanna. Podia senti-la. Era como se a mulher tivesse se esgueirado para dentro de sua mente e se alojado lá. Se podia senti-la, então a Aes Sedai também o sentia? O que mais ela podia fazer? O que mais? Precisava escapar daquilo.