Mate-o! Mate-o agora! A voz de Lews Therin, etérea, ecoava dentro do Vazio. Rand exterminou o eco, mas não conseguiu acabar com a raiva que o envolveu no Vazio de repente, fechando-o como uma concha. Mesmo assim, o Vazio drenava toda a emoção de sua voz.
— Trate de encontrar Haslin, Taim, e traga-o de volta para cá. Diga a ele que mudou de ideia. E também diga isso aos alunos. Ou melhor, pode escolher dizer o que quiser, mas quero Haslin aqui, dando aulas todos os dias. Esses homens precisam fazer parte do mundo, não ficar à margem. O que é que eles vão fazer quando não conseguirem canalizar? Se soubesse manejar uma espada ou lutar com as próprias mãos, você teria escapado quando foi blindado pelas Aes Sedai.
— Eu escapei. Estou bem aqui.
— Pelo que ouvi dizer, você foi libertado por alguns dos seus seguidores. Se não fosse eles, teria acabado ao lado de Logain em Tar Valon, amansado. Esses homens aqui não têm seguidores. Vá atrás de Haslin.
Taim curvou-se em uma mesura suave.
— Como ordenar, milorde Dragão. O que o trouxe aqui, milorde Dragão? Veio falar de Haslin e espadas? — A voz dele guardava um levíssimo toque de desprezo, mas Rand ignorou.
— Tem Aes Sedai em Caemlyn. Está na hora de parar com as idas à cidade, tanto suas quanto dos alunos. Só a Luz sabe o que aconteceria se um deles topasse com uma Aes Sedai e ela o reconhecesse pelo que é.
Ou, o que também era possível, se um aluno reconhecesse uma Aes Sedai, como decerto reconheceria. O homem sem dúvida sairia correndo ou entraria em pânico e atacaria, e qualquer uma dessas reações o deixaria marcado. Qualquer uma dessas reações seria sua ruína. Pelo que Rand vira mais cedo, tanto Verin quanto Alanna acabariam com qualquer um daqueles alunos como se fossem apenas criancinhas.
Taim deu de ombros.
— Apesar de destreinados, é bem provável que consigam explodir a cabeça de uma Aes Sedai com a mesma facilidade com que destroem essas pedras. A trama é só um pouco diferente… — Ele olhou para trás e ergueu a voz: — Precisa de mais concentração, Adley. Concentração é tudo.
O rapaz desengonçado, todo braços e pernas, que estava parado diante dos outros alunos, se assustou e perdeu contato com saidin, mas conseguiu agarrar o Poder de novo, ainda sem jeito. Mais uma pedra explodiu quando Taim virou de volta para Rand e sugeriu:
— Aliás, posso… dar conta das mulheres sozinho… se esse for o problema para você.
— Se eu quisesse essas mulheres mortas, já teria matado.
Rand achava que conseguiria dar conta disso, se tentassem matá-lo ou amansá-lo. Pelo menos torcia para estar certo. Mas será que tentariam, ainda mais depois de estabelecer aquele elo? Aí estava uma coisa que não pretendia informar a Taim. Não precisava dos resmungos de Lews Therin para saber que o homem não era confiável — não a ponto de expor alguma fraqueza que pudesse esconder. Luz, quanto poder permiti que Alanna tivesse sobre mim?
— Pode deixar que vou informar se for preciso matar alguma Aes Sedai. Até lá, ninguém deve sequer levantar a voz para uma, a não ser que ela esteja tentando arrancar a cabeça do sujeito. Aliás, quero vocês todos o mais longe possível das Aes Sedai. Não quero nenhum incidente, nada que as ponha contra mim.
— E acha mesmo que elas já não estão contra você? — murmurou Taim.
Rand decidiu ignorar a provocação de novo. Dessa vez, foi porque não tinha certeza da resposta.
— E não quero ver ninguém morto nem amansado porque a cabeça é grande demais para o chapéu. E quero que você garanta que eles saibam bem disso. Você é responsável por eles.
— Como quiser — respondeu Taim, dando de ombros outra vez. — Mais cedo ou mais tarde, alguns deles vão acabar morrendo. A não ser que o que você queira é mantê-los confinados aqui para sempre. Bem, é provável que alguns morram mesmo assim. A morte é quase inevitável, a não ser que eu reduza o passo das aulas. Você não precisaria se preocupar tanto com eles, se me deixasse sair para procurar mais homens.
Tinham voltado ao mesmo ponto. Rand olhou os alunos. Um jovem suado, de cabelos claros e olhos azuis, estava com dificuldade para colocar uma pedra no lugar. O sujeito não parava de perder o contato com saidin, e a pedra avançava aos pulinhos. Dali a poucas horas, a carroça com os candidatos ao treinamento que haviam chegado desde a tarde de ontem sairia do Palácio. Dessa vez seriam quatro. Alguns dias vinham apenas três, ou dois, embora o número de candidatos estivesse aumentando aos poucos. Já tinham testado dezoito homens desde que Rand levara Taim até ali, sete dias antes, e apenas três conseguiriam aprender a canalizar. Taim insistia que era um número extraordinário, considerando que os homens só tinham ido a Caemlyn atrás de uma oportunidade. E também atentou outra vez para o fato de que, nesse passo, poderiam medir forças com a Torre em seis anos. Rand não precisava ser lembrado de que não tinha seis anos. E não havia tempo para reduzir o ritmo do treinamento.
— E como você faria isso?
— Com os portões. — Taim aprendera a usá-los de primeira. Ele aprendia bem rápido tudo o que Rand mostrava. — Posso visitar duas, talvez até três aldeias por dia. É mais fácil começar com aldeias, mais até do que com vilarejos. Deixo Flinn a cargo das aulas, já que ele é o mais avançado do grupo, apesar da demonstração que você viu. E levo comigo Grady, Hopwil ou Morr. Você teria que fornecer uns cavalos decentes… Aquele pangaré que puxa a carroça não vai servir.
— Mas qual seria o seu plano? Chegar do nada e anunciar que está procurando homens capazes de canalizar? Vai ter sorte se os aldeões não tentarem mandar você direto pra forca.
— Eu me considero um pouco mais sensato do que isso — retrucou Taim secamente. — Vou dizer que estou recrutando homens para seguir o Dragão Renascido. — Mais sensato? Não muito. — Isso vai assustar o povo, que vai ficar afastado por tempo suficiente para eu reunir quem estiver disposto a vir conosco. E ajuda a selecionar quem ainda não estiver pronto para apoiar você. Suponho que você não tenha a intenção de treinar homens que vão se voltar contra você na primeira oportunidade. — Taim ergueu uma sobrancelha indagativa, mas não esperou a resposta óbvia. — Assim que eu tirar os homens das aldeias em segurança, trago todos para cá através de um portão. Alguns talvez entrem em pânico, mas isso não deve ser muito difícil contornar. E, já que terão concordado em seguir um homem capaz de canalizar, vai ser difícil rejeitarem meus testes. E posso mandar os que falharem para Caemlyn. Está mais do que na hora de você começar a organizar um exército próprio, em vez de depender dos outros. Bashere pode mudar de ideia a qualquer momento. E ele com certeza vai se voltar contra você se a Rainha Tenobia mandar. E sabe-se lá do que esses Aiel são capazes.
O homem fez uma pausa depois do último comentário ácido, mas Rand segurou a língua. Já tinha pensado coisa parecida — apesar de com certeza não suspeitar dos Aiel —, mas Taim não precisava saber disso. Depois de um instante, o tutor prosseguiu como se sequer tivesse tocado no assunto:
— Vamos fazer uma aposta, você define o valor. No primeiro dia de recrutamento, aposto que encontro tantos homens capazes de aprender a canalizar quanto os que vierem por conta própria até Caemlyn no período de um mês. Quando Flinn e alguns dos outros já estiverem prontos para continuar seus estudos sem mim… — Ele espalmou as mãos. — Em menos de um ano, consigo tantos homens quanto há Aes Sedai na Torre Branca. E cada homem será uma arma.
Rand hesitou. Deixar Taim partir era um risco. O homem era agressivo demais — o que faria se topasse com uma Aes Sedai em uma de suas viagens de recrutamento? Talvez mantivesse a palavra e a poupasse, mas e se a mulher descobrisse do que ele era capaz? E se ela o blindasse e o capturasse? Era uma perda que Rand não podia se permitir. Não conseguiria treinar os alunos e fazer tudo o que precisava fazer. Do jeito que estavam, levaria seis anos para se igualar à Torre Branca em número. Isso se as Aes Sedai não descobrissem aquela fazenda e destruíssem tudo, inclusive os alunos, antes que formassem um grupo experiente o bastante para se defender. Do jeito de Taim, levariam menos de um ano. Por fim, Rand assentiu. A voz de Lews Therin era um zumbido ensandecido ao longe.