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— Como assim? — inquiriu Nynaeve.

— Você e Elayne deveriam ir atrás de Rand, em Caemlyn. Elayne pode virar rainha, e você… — O sorriso de Moghedien não era nada agradável. — Cedo ou tarde, vão chamar você para uma sala e tentar descobrir como é que você consegue fazer todas essas descobertas incríveis e ao mesmo tempo tremer feito uma garotinha pega roubando doces quando tenta canalizar na frente dos outros.

— Eu não…! — Não iria se explicar, não àquela mulher. Por que Moghedien de uma hora para a outra começara a se comportar daquele jeito tão petulante? — Só se lembre, seja lá o que acontecer comigo se descobrirem a verdade, sua cabeça vai parar debaixo do machado rapidinho.

— E o seu sofrimento vai durar muito mais tempo. Semirhage já conseguiu fazer um homem passar cinco anos gritando todos os dias. E até manteve o sujeito são… Bem, no fim, nem mesmo ela conseguiu manter o coração dele funcionando. Duvido de que alguma dessas crianças tenha um décimo da habilidade de uma Abandonada, mas talvez você descubra em primeira mão quanto elas já aprenderam.

Como a mulher conseguia dizer aquelas coisas? Parecia ter se livrado daquela ansiedade habitual feito uma serpente soltando a pele velha. Seria de se pensar que eram duas iguais debatendo um assunto corriqueiro. Não, pior: a atitude de Moghedien dava a entender que o assunto, apesar de ser corriqueiro para ela, era algo terrível para Nynaeve. Desejou estar usando o bracelete, o que teria sido ao menos um consolo. Moghedien não podia estar tão serena e tranquila quanto indicavam seu rosto e sua voz.

Nynaeve ficou sem fôlego. O bracelete. Era isso. O bracelete não estava no quarto. Sentiu uma bola de gelo formar-se no fundo do estômago, e o suor de repente pareceu escorrer mais intensamente pelo rosto. Pela lógica, não fazia diferença se o bracelete estava ou não ali: o colar estava muito bem preso ao pescoço de Moghedien, enquanto Elayne usava a outra parte do a’damPor favor, Luz, que ela não tenha tirado esse negócio! Mas, na verdade, não era questão de lógica: Nynaeve nunca tinha ficado sozinha com a mulher sem o bracelete por perto. Ou melhor: as únicas vezes em que isso acontecera quase haviam terminado em desastre completo. Verdade que Moghedien não estava usando o a’dam nessas ocasiões, mas isso também não fazia diferença. A mulher ainda era uma Abandonada, e Nynaeve estava a sós com ela sem uma maneira de controlá-la. Agarrou as saias para se impedir de agarrar a faca de cintura.

O sorriso de Moghedien se alargou como se a mulher tivesse lido seus pensamentos.

— Mas não se preocupe, pode ter certeza de que essa minha sugestão de partir leva em conta o que é melhor para você. Isto aqui — acrescentou, erguendo a mão acima do colar, mas tomando cuidado para não o tocar — vai me manter presa em Caemlyn tão bem quanto me mantém aqui, mas é melhor ser escrava lá do que morrer neste lugar. Só não demore muito para se decidir: se essas mulheres que se consideram Aes Sedai resolverem voltar para a Torre, não haveria presente melhor para o novo Trono de Amyrlin do que você, uma mulher tão próxima de Rand al’Thor. Além de Elayne, claro. Se o rapaz sentir metade do que a menina sente por ele, quem a mantiver sob seu poder tem uma corda amarrada nele. Uma corda que ele jamais poderá arrebentar.

Nynaeve se levantou, forçando os joelhos a ficarem firmes.

— Pode ir fazer as camas e limpar o quarto. Quero encontrar tudo brilhando quando voltar.

— Quanto tempo você tem? — perguntou Moghedien, antes de ela conseguir chegar à porta. Pelo tom, poderia estar perguntando se a água para o chá já tinha fervido. — Alguns dias, no máximo, até enviarem uma resposta para Tar Valon? Algumas horas? Como fica a balança das Aes Sedai, se de um lado estiver Rand al’Thor, talvez até somado aos supostos crimes de Elaida, e do outro a reunificação de sua preciosa Torre?

— E trate de dar atenção redobrada na limpeza dos penicos — disse Nynaeve, sem se virar. — Desta vez quero ver eles bem limpos — acrescentou, saindo antes que Moghedien pudesse dizer qualquer outra coisa e fechando a porta com força.

Nynaeve se apoiou nas tábuas ásperas de madeira, parando para respirar fundo no corredor estreito e sem janelas. Revirou a bolsa do cinto, pegou um saquinho e enfiou duas folhas de menta-de-ganso amassadas na boca. Levava um tempo para a menta-de-ganso aliviar a queimação no estômago, mas ela mastigou e engoliu como se a pressa fosse acelerar o processo. Os últimos minutos de conversa tinham sido um baque atrás do outro, com Moghedien destruindo várias de suas certezas. Mesmo com toda a desconfiança, acreditara que a mulher estava com medo. E se enganara. Ah, Luz, estava redondamente enganada. Tivera tanta certeza de que Moghedien sabia tão pouco sobre o relacionamento de Elayne e Rand quanto as Aes Sedai. Outra vez se enganara. E ainda sugerir que fossem encontrá-lo… haviam tomado pouco cuidado com as conversas que tinham na frente daquela Abandonada. O que mais teriam deixado escapar, e como Moghedien conseguiria usar aquelas informações contra elas?

Outra Aceita adentrou o corredor mal iluminado, vinda da sala principal da casinha, e Nynaeve se endireitou, enfiando a menta-de-ganso de volta na bolsa e alisando o vestido. Todos os aposentos, exceto a sala da frente, tinham sido transformados em alojamentos, e todos eram ocupados por Aceitas e serviçais — três ou quatro em cada quarto, nenhum muito maior do que o aposento de onde acabara de sair, e em alguns casos duas mulheres eram obrigadas a dividir a cama. A Aceita que acabava de chegar era uma mulher esguia, quase frágil, com olhos cinza e sorriso ligeiro. Era Emara, uma illianense que não gostava nem de Siuan nem de Leane — o que Nynaeve conseguia compreender — e que achava que as duas deviam ser mandadas embora — com toda a decência, como fizera questão de ressaltar —, como acontecera com todas as outras mulheres estancadas. Apesar disso, era simpática e não se ressentia do “espaço extra” de Elayne e Nynaeve, nem do fato de “Marigan” desempenhar as tarefas das duas. E essa ausência de ressentimento era rara entre as Aceitas.

— Ouvi dizer que você está passando a limpo para Janya e Delana — comentou ela, naquela voz aguda, quando passou apressada em direção ao próprio quarto. — Vá por mim: escreva o mais depressa que der. Janya, no caso, se preocupa mais em conseguir registrar tudo do que com alguns borrões.

Nynaeve olhou feio para as costas de Emara. Escrever devagar para Delana. Escrever depressa para Janya. Mas que maravilha de conselho que recebia. De todo modo, não podia se preocupar com cópias borradas. E nem com Moghedien, não até ter chance de conversar sobre o assunto com Elayne.

Balançando a cabeça e murmurando entre dentes, avançou a passos firmes para fora da casa. Tudo bem que talvez tivesse dado sua situação ali como certa e cometido alguns deslizes, mas ainda tinha tempo de mudar o rumo das coisas. Sabia quem precisava encontrar.

Nos últimos dias, Salidar estivera imersa em uma onda de tranquilidade, embora as ruas continuassem abarrotadas. Uma boa medida da calmaria era como as ferrarias dos arredores da cidade estavam silenciosas. Todos tinham sido orientados a segurar a língua enquanto Tarna estivesse por ali, sem revelar nada sobre a missão diplomática a caminho de Caemlyn nem sobre Logain, que estava sendo mantido em segurança em um dos acampamentos dos soldados — e muito menos sobre os próprios soldados e o motivo pelo qual estavam se reunindo. E isso deixava o povo quase todo com medo de falar qualquer coisa numa voz mais alta que um sussurro. O burburinho que permeava a cidade tinha um toque de ansiedade.

Todos tinham sido afetados. Serviçais que viviam apressados avançavam a passos hesitantes, olhando temerosos por cima do ombro. Até as Aes Sedai pareciam cautelosas, por baixo daquela fisionomia calma, sempre se entreolhando, pensativas, analisando os comportamentos umas das outras. Havia menos soldados nas ruas — como se Tarna não tivesse visto os números, quando chegou, e tirado suas próprias conclusões. Caso o Salão de Salidar desse a resposta errada para a Torre Branca, todos ali podiam parar no cadafalso. Até governantes e nobres que preferiam se manter alheios aos assuntos da Torre decerto enforcariam qualquer soldado em quem conseguissem pôr as mãos só para evitar que difundissem a ideia de rebelião. Sentindo a situação incerta, os poucos homens que circulavam ostentavam expressões impassíveis ou carrancas ansiosas — exceto Gareth Bryne, que aguardava pacientemente diante da Pequena Torre. O homem ia todos os dias ali, chegando antes de qualquer das Votantes e só indo embora depois de a última sair. Nynaeve achava que ele queria garantir que as Aes Sedais dali se lembrassem dele e do que estava fazendo por elas. E, na única vez em que viu as Votantes saindo, Nynaeve achou que elas não pareciam muito felizes em vê-lo esperando.