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Igor ignorou a mulher. Usou uma das mãos para trazer até o rosto um jornal francês (a revista russa iria despertar suspeitas), de modo que ela não pudesse vê-lo. Era uma precaução desnecessária: ela jamais olhava à sua volta, como sempre fazem as que se sentem rainhas do mundo. Estão ali para brilhar, evitam prestar atenção ao que os outros estão usando — porque dependendo do número de diamantes e da exclusividade da roupa alheia isso resultará em depressão, mau-humor, sentimento de inferioridade, mesmo que a roupa e os acessórios tenham custado uma fortuna.

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Seu acompanhante, bem vestido e de cabelos prateados, foi até o bar e pediu champagne, aperitivo necessário antes de uma noite que promete muitos contatos, boa música, e excelente visão da praia e dos iates ancorados no porto.

Viu que tratou a garçonete com respeito. Disse “obrigado” quando recebeu as taças. Deixou uma boa gorjeta.

Os três se conheciam. Igor sentiu uma imensa alegria, quando a adrenalina começou a misturar-se com seu sangue; no dia seguinte iria fazer com que ela soubesse de sua presença ali. Em um dado momento, iriam se encontrar.

E só Deus sabia o resultado deste encontro. Igor, um católico ortodoxo, havia feito uma promessa e um juramento em uma igreja em Moscou, diante das relíquias de Santa Madalena (que estavam na capital russa por uma semana, para que os fi éis pudessem adorá-

las). Passou quase cinco horas na fi la e ao chegar perto estava convencido de que tudo não passava de uma invenção dos sacerdotes.

Mas não queria correr o risco de faltar com a sua palavra.

Pediu que o protegesse, que conseguisse atingir seu objetivo sem que fosse necessário muito sacrifício. E prometeu um ícone de ouro, que seria encomendado a um renomado pintor que vivia em um mosteiro de Novosibirsk, quando tudo terminasse e pudesse colocar de novo os pés em sua terra natal.

Às três horas da manhã, o bar do Hotel Martinez cheira a cigarro e suor. Embora Jimmy já tenha acabado de tocar piano (Jimmy usa um sapato de cada cor em seus pés), e a garçonete esteja extremamente cansada, as pessoas que ainda ali se encontram se recusam a ir embora. Para elas, é preciso fi car neste lobby, pelo menos por mais uma hora, pela noite inteira, até que algo aconteça!

Afi nal de contas, já se passaram quatro dias desde o início do Festival de Cinema de Cannes, e ainda não aconteceu nada. Em mesas diferentes, o pensamento é o mesmo: encontrar-se com o Poder. As 1 7

mulheres bonitas aguardam um produtor que se apaixone por elas e lhes dê um papel importante no próximo fi lme. Ali estão alguns atores conversando entre si, rindo e fi ngindo que nada daquilo lhes diz respeito, mas sempre com um olho na porta.

Alguém vai chegar.

Alguém precisa chegar. Os novos diretores, cheios de idéias na cabeça, currículos com vídeos universitários, leituras exaustivas de teses sobre fotografi a e roteiro, esperam um golpe de sorte; alguém que ao voltar de uma festa procure uma mesa vazia, peça um café, acenda um cigarro, sinta-se exausto de ir sempre aos mesmos lugares, e esteja aberto para uma aventura nova.

Quanta ingenuidade.

Se isso acontecesse, a última coisa que tal pessoa gostaria de escutar é um novo “projeto que ainda ninguém fez”; mas o desespero é capaz de enganar o desesperado. Os poderosos que entram de vez em quando dão apenas uma olhada em torno, e sobem para seus quartos. Não estão preocupados. Sabem que não precisam temer nada. A Superclasse não perdoa traições, e todos conhecem os seus limites — não chegaram aonde estão pisando a cabeça dos outros, embora isso seja o que diz a lenda. Por outro lado, se alguma coisa imprevista e importante estiver esperando para ser descoberta — seja no mundo do cinema, da música, da moda — isso virá através das pesquisas, e não dos bares de hotel.

A Superclasse está agora fazendo amor com a moça que conseguiu penetrar na festa e aceita tudo. Tirando a maquiagem, olhando as rugas, pensando que já é hora de uma nova cirurgia plástica. Procurando nas notícias online o que saiu sobre o recente anúncio que fez durante o dia. Tomando a inevitável pílula para dormir, e o chá que promete emagrecimento sem muito esforço. Preenchendo o menu com os itens desejados para o café-da-manhã no quarto, e o colocando na maçaneta da porta, junto com o papel de “Não perturbar”. A Superclasse 1 8

está fechando os olhos e pensando: “Espero que o sono venha logo, amanhã tenho um encontro marcado antes das dez horas.”

Mas no bar do Martinez, todos sabem que os poderosos estão ali.

E se estão ali, têm uma chance.

Não lhes passa pela cabeça que o Poder só conversa com o Poder.

Que precisam se encontrar de vez em quando, beber e comer juntos, prestigiar grandes festas, alimentar a fantasia de que o mundo do luxo e glamour é acessível a todos com coragem bastante para perseverar numa idéia. Evitar guerras quando elas não são lucrativas, e estimular a agressividade entre países ou companhias, quando sentem que isso pode trazer mais poder e mais dinheiro. Fingir que são felizes, embora agora sejam reféns de seu próprio sucesso. Continuar lutando para aumentar sua riqueza e infl uência, mesmo que ela já seja enorme; porque a vaidade da Superclasse é concorrer com ela mesma, e ver quem está no topo do topo.

No mundo ideal, o Poder conversaria com atores, diretores, estilistas e escritores, que neste momento estão com os olhos vermelhos de cansaço, pensando em como vão voltar para seus quartos alugados em cidades afastadas, para amanhã começarem de novo a maratona de pedidos, de possibilidades de encontros, de disponibilidade.

No mundo real, o Poder está a esta hora trancado em seus quartos checando seu correio eletrônico, reclamando que as festas sempre se parecem, que a jóia da amiga era maior que a sua, que o iate que o concorrente comprou tem uma decoração única, e como é possível?

Igor não tem com quem conversar, e tampouco isso lhe interessa.

O vencedor está só.

Igor, o bem-sucedido dono e presidente de uma companhia telefônica na Rússia. Reservou com antecedência de um ano a melhor suíte no Martinez (que obriga todos a pagar por pelo menos doze dias de hospedagem, independente de quanto tempo vão permane-1 9

cer), chegou nesta tarde em jato privado, tomou um banho, e desceu na esperança de ver uma única e simples cena.

Durante algum tempo foi incomodado por atrizes, atores, diretores, mas tinha uma ótima resposta para todos:

— Don’t speak English, sorry. Polish.

Ou:

— Don’t speak French, sorry. Mexican.

Alguém tentou ensaiar algumas palavras em espanhol, mas Igor apelou para um segundo recurso. Anotar números em um caderno, para não parecer nem jornalista (que interessa a todos), nem um homem ligado à indústria de fi lmes. Ao seu lado, uma revista de economia em russo (afi nal de contas, a maioria não sabia distinguir russo de polonês ou espanhol) com a foto de um desinteressante executivo na capa.

Os freqüentadores do bar acham que entendem bem o gênero humano, deixam Igor em paz, pensando que deve ser um desses milionários que vão a Cannes apenas para ver se encontram uma namo-rada. Depois da quinta pessoa a sentar em sua mesa e pedir uma água mineral alegando que “não existe outra cadeira vazia”, o boato corre, todos ali já sabem que o homem solitário não pertence à indústria do cinema ou da moda, e ele é deixado de lado como “perfume”.

“Perfume” é a gíria que as atrizes (ou “starletes”, como são chamadas durante o Festival) usam: é fácil trocar de marca, e muitas vezes podem ser verdadeiros tesouros. Os “perfumes” serão abordados nos dois últimos dias do festival, se não conseguirem encontrar absolutamente nada de interessante na indústria do fi lme. Portanto, aquele homem estranho, com aparência de rico, pode esperar. Todas elas sabem que é melhor sair dali com um namorado (que pode ser convertido em produtor de cinema) do que ir para o próximo evento, repetindo sempre o mesmo ritual — beber, sorrir (sobretudo sorrir), fi ngir que não está olhando ninguém, enquanto o coração bate acelerado, os minutos no relógio vão passando rápido, as noites 2 0