Pronto. O dinheiro sujo se transformou em uma obra de arte maravilhosa, que evidentemente não deu o lucro que se esperava, mas 1 7 8
que foi capaz de render milhões de dólares — e agora está sendo aplicado por um dos sócios do empreendimento.
Em determinado momento, um fi scal mais atento — ou uma de-lação de um estúdio — chama a atenção para um fato muito simples: como é que tantos produtores desconhecidos no mercado estão empregando as grandes celebridades, os diretores mais talentosos, gastando fortunas em publicidade, e usando apenas UM distribuidor para os seus fi lmes? A resposta é simples: os grandes estúdios só estão interessados em suas próprias produções, e Javits é o herói, o homem que está rompendo com a ditadura de corporações gigantescas, o novo mito, o David que luta contra o Golias representado por um sistema injusto.
Um fi scal mais consciencioso resolve ir adiante, apesar de todas as explicações razoáveis. As investigações começam, de maneira si-gilosa. As companhias que investiram nos grandes recordes de bilheteria são sempre sociedades anônimas, com sede nas Bahamas, no Panamá, em Cingapura. Neste momento, alguém infi ltrado no departamento de impostos (sempre tem alguém infi ltrado) avisa que aquele canal já não interessa mais — precisam encontrar um novo distribuidor para lavar dinheiro.
Javits se desespera — acostumou-se a viver como milionário e ser cortejado como um semideus. Viaja para Cannes, um excelente disfarce para conversar com seus “fi nanciadores” sem ser molestado, fazer ajustes, trocar pessoalmente os códigos das contas numeradas.
Não sabe que está sendo seguido há tempos, que sua prisão agora é apenas uma questão técnica, decidida por pessoas engravatadas em escritórios mal iluminados: deixarão que continue um pouco mais, a fi m de conseguir mais provas, ou terminam a história ali mesmo?
Os “fi nanciadores”, porém, não gostam de correr riscos inúteis.
O homem pode ser preso a qualquer momento, fazer um acordo com a justiça, e terminar entregando detalhes do sistema montado 1 7 9
— o que inclui, além de nomes, fotos com determinadas pessoas, que foram tiradas sem que ele soubesse.
Só existe uma maneira de resolver o problema: acabando com ele.
Tudo estava claro, e Savoy sabe exatamente como as coisas se desenrolaram. Agora precisa fazer o de sempre.
Papel.
Preencher um relatório, entregar para a Europol, e deixar que os burocratas ali se encarreguem de encontrar os assassinos, pois trata-se de um caso que pode promover muita gente e ressuscitar carreiras estagnadas. As investigações precisam dar resultado, e nenhum de seus superiores acredita que um detetive de uma cidade do interior da França será capaz de grandes descobertas (sim, porque Cannes, apesar de todo o brilho e glamour, não passava de uma pequena cidade do interior durante os outros 350 dias do ano).
Suspeita que a culpa seja de um dos guarda-costas que estava na mesa, já que a proximidade era importante para que o veneno pudesse ser aplicado. Mas não irá mencionar isso. Usará mais papel para fazer uma sindicância entre os empregados que estavam na festa, não encontrará nenhuma testemunha, e dará o caso como encerrado em sua jurisdição — depois de passar alguns dias trocando faxes e mensagens com departamentos acima dos seus.
Voltará para os dois homicídios anuais, as brigas, as multas, quando esteve tão perto de algo que poderia ter uma repercussão internacional. O seu sonho de adolescente — melhorar o mundo, contribuir para uma sociedade mais segura e mais justa, ser promovido, lutar por um posto junto ao Ministério da Justiça, dar à mulher e aos fi lhos uma vida mais confortável, colaborar para a mudança de percepção dos agentes da ordem mostrando que ainda existem policiais honestos, termina sempre na mesma palavra.
Papel.
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4:16 PM
O terraço ao lado do bar do Martinez está completamente lotado, e Igor se orgulha de sua própria capacidade de planejar as coisas; mesmo sem jamais ter visitado aquela cidade, havia reservado a mesa
— imaginando que a situação seria exatamente a que está vendo agora. Pede chá com torradas, acende um cigarro, olha à sua volta, e ali está o mesmo cenário de qualquer lugar chique do mundo: mulheres com botox ou anorexia, senhoras cobertas de jóias tomando sorvete, homens com moças mais jovens, casais com ar entediado, moças sorridentes em torno de refrigerantes sem caloria, fi ngindo estar concentradas nas conversas das outras, mas com os olhos per-correndo de um extremo a outro do local, na esperança de encontrarem alguém interessante.
Uma única exceção: três homens e duas mulheres espalharam vá-
rios papéis entre latas de cerveja, discutem em voz baixa, e a toda hora conferem os números em uma calculadora. Parecem ser os únicos que estão realmente envolvidos em algum projeto, mas não é verdade; todo mundo está ali trabalhando, em busca de uma coisa só.
Vi-si-bi-li-da-de.
Que, se tudo corresse bem, terminaria em Fama. Que, se tudo corresse bem, terminaria em Poder. A palavra mágica, que transformava o ser humano em um semideus, um ícone inatingível, difícil de conversar, acostumado a sempre ter seus desejos satisfeitos, capaz de provocar inveja e ciúme quando passa em sua limusine de vidro fumê ou em seu caríssimo carro esportivo, que já não tem mais montanhas difíceis de escalar ou conquistas impossíveis.
Os freqüentadores daquele terraço já ultrapassaram alguma barreira — não estão do lado de fora com câmeras fotográfi cas, atrás de cercas de metal, esperando que alguém saia pela porta principal e encha seus universos de raios de luz. Sim, já chegaram ao lobby do hotel, e agora faltam apenas o poder e a fama, não tendo a menor 1 8 1
importância em que área. Os homens sabem que a idade não é um problema, tudo que necessitam são os contatos certos. As moças que vigiam o terraço com a mesma habilidade de seguranças experimentados sentem que se aproxima uma idade perigosa, em que todas as possibilidades de conseguir alguma coisa através da beleza vão desaparecer de repente. As senhoras mais velhas gostariam de ser reconhecidas e respeitadas por seus dons e sua inteligência, mas os diamantes ofuscam qualquer possibilidade de descoberta desses talentos. Os homens com suas mulheres esperam que alguém passe, lhes dê boa-tarde, todos voltem o olhar para eles e pensem: “É conhecido.” Ou talvez seja famoso, quem sabe?
A síndrome de celebridade — capaz de destruir carreiras, casamentos, valores cristãos, e que cegava os sábios e os ignorantes. Grandes cientistas que foram agraciados com um prêmio importante, e por causa disso abandonaram suas pesquisas que podiam melhorar a humanidade, e passaram a viver de conferências que alimentam o ego e a conta bancária. O índio da selva amazônica, subitamente adotado por um cantor famoso, e que resolve achar que está sendo explorado em sua miséria. O promotor de justiça que trabalha duro defendendo os direitos de pessoas menos favorecidas decide concorrer a um cargo público, ganha a eleição, e passa a se julgar imune a tudo — até que um dia é descoberto em um motel com um profi ssional do sexo, pago pelo contribuinte.
A síndrome de celebridade. Quando as pessoas esquecem quem são, e passam a acreditar no que os outros dizem sobre elas. A Superclasse, o sonho de todos, o mundo sem sombras nem trevas, a palavra “sim” sempre servindo de resposta a qualquer pedido.