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— Como você viu, cumpri minha promessa. Não atirei.

Depois de dar alguns passos, começou a sentir uma imensa dor de cabeça. Era normaclass="underline" o sangue estava inundando o cérebro, reação absolutamente aceitável para quem acaba de libertar-se de um estado de extrema tensão.

Apesar da dor de cabeça, estava feliz. Sim, tinha conseguido.

Sim, era capaz. E estava mais feliz ainda porque havia libertado a alma daquele corpo frágil, daquele espírito que não conseguia reagir aos abusos de um covarde. Se aquela relação doentia continuasse, em breve a moça iria fi car deprimida e ansiosa, perder a auto-estima e fi car cada vez mais dependente do poder do seu namorado.

Nada disso tinha acontecido com Ewa. Sempre fora capaz de tomar suas decisões, tivera o seu apoio moral e material quando decidira abrir sua loja de alta-costura, era livre para viajar quando e quanto quisesse. Tinha sido um homem, um marido exemplar. E

mesmo assim, ela havia cometido um erro — não soube entender seu amor como também não entendeu seu perdão. Mas esperava que recebesse os recados — afi nal, no dia em que ela resolvera partir, ele disse que iria destruir mundos para tê-la de volta.

Pega o celular recém-comprado, descartável, onde colocou o menor crédito possível. Digita uma mensagem.

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11:00 AM

Segundo a lenda, tudo começa com uma desconhecida moça francesa de 19 anos, posando de biquíni na praia para os fotógrafos que nada tinham a fazer durante o Festival de Cannes de 1953. Pouco tempo depois, era alçada ao estrelato, e seu nome se transformou em uma lenda: Brigitte Bardot. E agora todo mundo pensa que pode fazer a mesma coisa! Ninguém entende a importância de ser atriz; a beleza é a única coisa que conta.

E por causa disso as longas pernas, os cabelos tingidos, as falsas louras viajam centenas, milhares de quilômetros para estarem ali, nem que seja para passarem o dia inteiro na areia, com a esperan-

ça de serem vistas, fotografadas, descobertas. Querem escapar da armadilha que espera todas as mulheres: transformar-se em donas de casa, preparando o jantar para o marido toda noite, levando os fi lhos para o colégio todos os dias, tentando descobrir um pequeno detalhe na vida monótona dos seus vizinhos para que possam ter assunto com as amigas. Querem a fama, o brilho e o glamour, a inveja dos habitantes de sua cidade, das meninas e meninos que sempre as trataram como patinho feio, sem saber que iriam desabrochar como um cisne, uma fl or cobiçada por todos. Uma carreira no mundo dos sonhos, é isso o que importa — mesmo que precisem pedir dinheiro emprestado para uma aplicação de silicone nos seios, ou a compra de vestidos mais provocantes. Aulas de teatro? Não é preciso, basta a beleza e os contatos certos: o cinema é capaz de tudo.

Desde que você consiga entrar no mundo do cinema.

Tudo para escapar da armadilha da cidade do interior, e dos dias repetitivos. Existem milhões de pessoas que não se importam com isso, portanto que elas vivam suas vidas da maneira que acharem melhor. Quem vem para o Festival deve deixar o medo em casa e estar preparada para tudo: agir sem qualquer hesitação, mentir sempre que for necessário, diminuir a idade, sorrir para quem detesta, fi ngir 3 9

que se interessa por pessoas sem qualquer atração, dizer “eu te amo”

sem pensar nas conseqüências, apunhalar pelas costas a amiga que a ajudou em determinado momento mas que agora se transformou em uma concorrente indesejável. Caminhar para frente, sem remorsos ou vergonha. A recompensa merece qualquer sacrifício.

Fama.

Brilho e glamour.

Estes pensamentos irritam Gabriela: não é a melhor maneira de começar um novo dia. Além do mais, está de ressaca.

Mas pelo menos tem um consolo: não despertou em um hotel cinco estrelas, com um homem ao seu lado dizendo que ela precisava vestir-se e sair, porque ele tem muitas coisas importantes para tratar, como comprar ou vender fi lmes que havia produzido.

Levanta-se e olha à sua volta, para ver se alguma de suas amigas ainda está ali. Claro que não, tinham partido para a Croisette, as piscinas, os bares de hotel, os iates, os possíveis almoços e os encontros na praia. Cinco colchonetes se espalhavam pelo chão do pequeno apartamento conjugado, alugado por temporada a um preço exorbitante. Em torno dos colchonetes, roupas desarrumadas, sapatos virados ao contrário, cabides caídos no chão e que ninguém se dera ao trabalho de recolocar no armário.

“Aqui, as roupas merecem mais espaço que as pessoas.”

Claro, como nenhuma delas podia se dar ao luxo de sonhar com Elie Saab, Karl Lagerfeld, Versace, Galliano, restava o que parecia ser infalível, mas mesmo assim ocupava praticamente o apartamento inteiro: biquínis, minissaias, camisetas, sapatos de salto plataforma, e uma quantidade imensa de maquiagem.

“Um dia vestirei o que eu quero. No momento, preciso apenas de uma oportunidade.”

Por que deseja uma oportunidade?

Simples. Porque sabe que é a melhor de todas, apesar da sua experiência na escola, da decepção que dera aos seus pais, dos desafi os que 4 0

tem procurado enfrentar desde então para provar a si mesma que pode superar as difi culdades, as frustrações e as derrotas que sofreu.

Nasceu para vencer e brilhar, não tem a menor dúvida.

“E quando conseguir o que sempre desejei, sei que vou me perguntar: me amam e me admiram porque sou eu mesmo, ou porque sou famosa?”

Conhece pessoas que atingiram o estrelato nos palcos. Ao contrário do que imaginava, não estão em paz; são inseguros, cheios de dúvidas, infelizes quando estão fora de cena. Desejam ser atores para que não precisem representar a si mesmos, vivem com medo de dar um passo errado que possa acabar com suas carreiras.

“Mas sou diferente. Sempre fui eu mesma.”

Verdade? Ou será que todos os que estão no seu lugar pensam a mesma coisa?

Levanta-se e prepara um café — a cozinha está suja, nenhuma das suas amigas se preocupou em lavar a louça. Não sabe por que acordou com tanto mau humor e tantas dúvidas. Conhece o seu trabalho, dedicou-se a ele com toda sua alma, e ainda assim parece que ninguém deseja reconhecer seu talento. Conhece também os seres humanos, principalmente os homens — futuros aliados em uma batalha que terá que vencer logo, porque já está com 25 anos, e em breve estará velha demais para a indústria dos sonhos. Sabe que: a) eles são menos traiçoeiros do que as mulheres.

b) jamais reparam em nossas roupas, porque a única coisa que fazem é nos despir com seus olhos.

c) seios, coxas, nádegas, barriga: basta ter isso no lugar e o mundo será conquistado.

Por causa destes três itens, e porque sabe que todas as outras mulheres que estão concorrendo com ela procuram exagerar seus atri-butos, ela dá atenção apenas ao item “c” de sua lista. Faz ginástica, procura manter-se em forma, evita regimes e veste-se exatamente 4 1

ao contrário do que manda a lógica: suas roupas são discretas. Tem dado resultado até agora, termina parecendo mais jovem do que é.

Espera que também dê resultado em Cannes.

Seios, nádegas, coxas. Pois que prestem atenção a isso no momento, se for absolutamente indispensável. Chegará o dia em que poderão ver tudo o que é capaz.

Bebe seu café, e começa a entender seu mau humor. Está cercada pelas mulheres mais belas do planeta! Embora não se julgue feia, não existe a menor possibilidade de concorrer com elas. Precisa decidir o que fazer; esta viagem foi uma decisão difícil, o dinheiro está contado, e não tem muito tempo para conseguir um contrato. Já foi a vários lugares nos dois primeiros dias, distribuiu seu currículo, suas fotos, mas tudo que conseguiu foi ser convidada para a festa da véspera — um restaurante de quinta categoria, com a música a todo volume, e onde não apareceu ninguém da Superclasse. Bebeu para perder a inibição, foi além do que seu organismo podia suportar, e terminou sem saber onde estava, e o que fazia ali. Tudo parecia estranho — a Europa, a maneira como as pessoas se vestiam, as línguas diferentes, a falsa alegria de todos os presentes, que gostariam de ter sido convidados para algo mais importante, e no entanto estavam naquele local de menor importância, ouvindo a mesma música, conversando aos gritos sobre a vida dos outros e a injustiça dos poderosos.