amando uma mulher que o abandonou, que não quer mais saber dele. Não apenas aceitou, como resolveu tornar isso público. Eis aqui um trecho do seu livro, que sei de cor:
“Quando eu não tive nada a perder, eu recebi tudo. Quando deixei
de ser quem era, encontrei a mim mesmo. Quando conheci a humilhação e mesmo assim continuei caminhando, entendi que era livre para escolher meu destino. Não sei se estou doente, se meu casamento foi um sonho que não consegui compreender enquanto durou. Sei que posso viver sem ela, mas gostaria de encontrá-la de novo - para dizer o que nunca disse
enquanto estávamos juntos: eu te amo mais do que a mim mesmo. Se eu
puder dizer isso, então poderei seguir adiante, em paz - porque este amor me redimiu.”
- Mikhail me disse que Esther deve ter lido isso. É o suficiente.
- Mesmo assim, para poder ter você, é preciso que a encontre e lhe diga isso frente a frente. Talvez seja impossível, ela não o queira ver mais - mas você tentou. Eu me livrarei da “mulher ideal”, e você não terá mais a presença absoluta do Zahir, como chama.
- Você tem coragem.
- Não, eu tenho medo. Mas não tenho escolha.
a manha seguinte, jurei a mim mesmo que não iria tentar saber o
paradeiro de Esther. Inconscientemente, durante dois anos preferi
N acreditar que ela tinha sido forçada a partir, seqüestrada ou
chantageada por um grupo terrorista. Mas agora que sabia que ela estava viva, passando muito bem (como me dissera o rapaz), por que insistir em tornar a vê-
la? Minha ex-mulher tinha direito à busca da felicidade, e eu precisava respeitar sua decisão.
Este pensamento durou pouco mais de quatro horas: no final da tarde, fui
até uma igreja, acendi uma vela e de novo fiz uma promessa, desta vez de
maneira sagrada, rituaclass="underline" procurar encontrá-la. Marie tinha razão, já era adulto o suficiente para continuar me enganando, fingindo que isso não me interessava.
Eu respeitava sua decisão de ir embora, mas a mesma pessoa que tanto me
ajudara a construir minha vida, quase me destruíra. Sempre fora corajosa: por que desta vez fugiu como um ladrão no meio da noite, sem encarar seu marido nos olhos e explicar a razão? Éramos adultos .o suficiente para agir e agüentar a conseqüência de nossos atos: o comportamento de minha mulher (corrigindo: ex-mulher) não combinava com ela, e eu precisava saber por quê.
* * *
Faltava ainda uma semana - uma eternidade - para a tal peça de teatro. Nos dias que se seguiram aceitei dar entrevistas que não aceitaria nunca, escrevi vários artigos para jornal, fiz ioga, meditação, li um livro sobre um pintor russo, outro sobre um crime no Nepal, escrevi dois prefácios e fiz quatro
recomendações de livros para editores que sempre me pediam, e que eu sempre negava.
Mas, assim, ainda sobrava muito tempo, e aproveitei para pagar algumas
contas do Banco de Favores - aceitando convites para jantar, rápidas palestras em escolas onde filhos de amigos estudavam, visita a um clube de golfe, autógrafos improvisados na livraria de um amigo na avenida de Suffren (cuja divulgação foi feita com um cartaz na vitrine por três dias, e que conseguiu reunir no máximo 20
pessoas). Minha secretária disse que eu devia estar muito contente, já que há tempo não me via tão ativo: respondi que ter o livro na lista dos mais vendidos me estimulava a trabalhar ainda mais.
Só não fiz duas coisas naquela semana: a primeira foi continuar sem ler
manuscritos - conforme meus advogados, estes sempre precisavam ser
devolvidos imediatamente por correio, ou mais tarde eu correria o risco de alguém dizer que eu tinha aproveitado uma história sua (nunca entendi por que as pessoas me enviavam manuscritos - afinal de contas, eu não sou editor).
A segunda coisa que não fiz foi procurar no Atlas onde ficava o
Casaquistão, embora soubesse que, para ganhar a confiança de Mikhail,
precisaria saber um pouco mais sobre suas origens.
s pessoas aguardam pacientemente a abertura da porta que leva ao salão
situado na parte dos fundos do restaurante. Nenhum charme dos bares
A de Saint-Germain des Prés, nada de café com um pequeno copo de água, gente bem-vestida e bem falante. Nenhuma elegância das salas de entrada de peças de teatro, nada da magia de espetáculos que aconteciam em toda a cidade, em pequenos bistrôs, com seus artistas dando sempre o melhor de si, na esperança que na platéia estivesse algum famoso empresário que se identificaria no final do show, afirmasse que eram geniais e os convocasse para apresentar-se em algum importante centro cultural.
Na verdade, não entendo como é que o lugar está tão cheio: jamais vi
qualquer referência nas revistas especializadas em entretenimento e eventos artísticos de Paris.
Enquanto espero, converso com o dono - e descubro que está planejando em
breve usar todo o espaço do seu restaurante.
- O público cresce a cada semana - diz. - No início, aceitei porque uma
jornalista me pediu, e em troca prometeu publicar algo sobre meu restaurante em sua revista. Aceitei porque o salão é raramente usado nas quintas-feiras. Agora, enquanto esperam, aproveitam para jantar, e talvez seja a melhor receita
financeira da semana. Tenho medo de apenas uma coisa: de que seja uma seita.
Como o senhor sabe, as leis aqui são muito rígidas.
Sim, eu sabia - e houve até quem insinuasse que meus livros estavam
ligados a uma perigosa corrente de pensamento, a uma pregação religiosa que não condizia com os valores comumente aceitos. A França, tão liberal com
praticamente tudo, tinha uma espécie de paranóia a respeito do tema.
Recentemente fora publicado um extenso relatório sobre a “lavagem cerebral”
que certos grupos praticavam em pessoas incautas. Como se as pessoas
soubessem escolher tudo - escola, universidade, pasta de dentes, automóveis, filmes, maridos, mulheres, amantes -, mas, em matéria de fé, se deixassem manipular facilmente.
- Como é feita a divulgação? - pergunto.
- Não tenho a menor idéia. Se soubesse, usaria a mesma pessoa para
promover meu restaurante.
E apenas para tirar qualquer dúvida, já que não sabe quem sou:
- Não se trata de nenhuma seita, posso garantir. São artistas.
A porta do salão é aberta, a multidão entra - depois de deixar cinco euros em uma pequena cesta na entrada. Lá dentro, impassíveis no palco improvisado, dois rapazes e duas moças, todos usando saias brancas, rodadas e armadas, criando uma grande circunferência em torno do corpo. Além dos quatro, noto também um homem de mais idade, com um atabaque nas mãos, e uma mulher,
com um gigantesco prato de bronze cheio de apliques; toda vez que ela esbarra sem querer em seu instrumento, escutamos o som de uma chuva de metal.
Um dos jovens é Mikhail, agora completamente diferente do rapaz que
encontrei em minha tarde de autógrafos: seu olhar, fixando um ponto vazio no espaço, tem um brilho especial.
As pessoas vão se acomodando nas cadeiras espalhadas pela sala. Rapazes e moças vestidos de tal maneira que, se encontras-se na rua, acharia que
pertenciam a uma grupo viciado em drogas pesadas. Executivos ou funcionários de meia-idade, com suas esposas. Duas ou três crianças de nove ou dez anos, possivelmente trazidas por seus pais. Alguns poucos idosos, que devem ter feito muito esforço para chegar até aqui, já que a estação de metrô mais próxima se encontra a quase cinco quarteirões de distância.