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O fato de ser generoso nas suas ofertas ajudava, claro, mas ainda mais importante era ela achar interessante ouvi-lo falar a respeito de literatura ou teatro. A sua maior virtude, no entanto, era ser um amante apaixonado, muito competente na cama, além de não lhe ocupar demasiado do seu tempo.

Certa noite, Rubio levou Nicole a jantar ao Le Cirque, com alguns dos seus amigos: um romancista sul-americano mundialmente famoso que a encantou com a sua ironia corrosiva e as suas histórias de fantasmas, um conhecido cantor de ópera que a cada prato entoava uma ária de deliciado prazer e comia como se tivesse sido condenado à cadeira elétrica, e um colaborador do The New York Times, o oráculo indisputado em matéria de assuntos internacionais, que se orgulhava imensamente de ser tão detestado pelos liberais como pelos conservadores.

Depois do jantar, Rubio levou-a para o seu luxuoso apartamento no consulado peruano, onde se amaram apaixonadamente, ternamente, enquanto ele lhe sussurrava ao ouvido palavras de êxtase. Depois pegou-lhe ao colo, nua, e dançou com ela pelo quarto, recitando poesia em espanhol. Nicole achou maravilhoso. Especialmente quando, os dois aninhados, ele lhe serviu champanhe e lhe disse “Amo-te” num tom de perfeita sinceridade. Todo o seu rosto brilhava de verdade. Que imprudentes eram os homens. Nicole sentiu uma calma satisfação intima ao pensar que o tinha traído. O Pai ter-se-ia orgulhado dela. Agira como uma verdadeira mafiosa.

Como chefe da delegação do FBI em Nova Iorque, Kurt Cilke tinha casos muito mais importantes do que o assassínio de Don Raymonde Aprile. Um deles era a investigação de seis grandes empresas que conspiravam para exportar ilegalmente maquinaria proibida, incluindo tecnologia informática, para a China comunista. Outro, a conspiração das principais tabaqueiras para cometerem perjúrio perante uma comissão de inquérito do Congresso. Um terceiro relacionava-se com a emigração de um número invulgar de cientistas de nível médio para países da América do Sul como o Brasil, o Peru e a Colômbia. O diretor queria ser informado sobre todos estes dossiês.

No vôo para Washington, Boxton comentou:

― Temos os tipos das tabaqueiras no papo; temos os envios para a China resolvidos: documentos internos e informadores dispostos a cantar para salvar o cu. A única coisa que não temos é a história dos tais cientistas. Mas acho que depois disto passas a diretor-adjunto. Não podem negar o teu palmarés.

― Isso é com o diretor ― respondeu Cilke. Sabia muito bem o que os cientistas estavam a fazer na América do Sul, mas não emendou o colega e amigo.

Quando chegaram ao Edifício Hoover, Boxton não foi admitido na reunião.

Tinham passado onze meses desde o assassínio de Don Raymonde. Cilke preparara cuidadosamente todas as suas notas. O caso Aprile não avançara, mas levava boas notícias sobre outros ainda mais importantes. E dessa vez havia uma possibilidade muito real de lhe oferecerem um dos postos-chaves no Bureau. Ganhara esse direito à custa de bom trabalho, e tinha a antiguidade mais do que necessária.

O diretor era um homem alto, elegante, cujos antepassados tinham chegado à América a bordo do Mayflower. Dono de uma imensa fortuna pessoal, entrara para a política por espírito cívico. E estabelecera regras muito estritas no início do seu mandato. “Nada de bandalheiras”, dissera, com o seu bem humorado sotaque do Norte. “Tudo segundo as regras. Não quero trafulhices com a Declaração de Direitos. Um agente do FBI é sempre delicado, sempre justo. É sempre correto na sua vida privada.” O menor ― bater na mulher, bebedeiras, relacionar-se demasiado intimamente com a polícia local, usar certos “meios de persuasão” durante os interrogatórios -―e um tipo levava um pontapé no traseiro nem que o tio fosse senador. Tinham sido aquelas as regras durante os últimos dez anos. Além disso, atrair um interesse excessivo da parte dos meios de comunicação, nem que fosse para dizer bem, era meio caminho andado para ir vigiar igus no Alasca.

O diretor convidou Cilke a sentar-se na extremamente desconfortável cadeira colocada do outro lado da sua maciça secretária de carvalho.

― Agente Cilke ― disse ―, chamei-o aqui por diversas razões. Primeira: mandei incluir no seu dossiê um louvor especial pelo seu trabalho contra a Máfia de Nova Iorque. Graças a si, partimo-lhes a espinha. Felicito-o. ― Inclinou-se por cima da secretária para apertar a mão a Cilke. ― Não tornamos o caso público porque é política do Bureau aceitar os louros pelos êxitos individuais dos seus agentes. Além disso, poderia pô-lo a si em perigo.

― Só da parte de algum louco ― observou Cilke. ― As organizações criminosas sabem perfeitamente que não podem tocar num agente.

― Está a sugerir que o Bureau. leva a cabo vinganças pessoais ― disse o diretor.

― De modo nenhum ― respondeu Cilke. ― Apenas que num caso desses nos empenharíamos mais a fundo.

O diretor deixou aquela passar. Havia limites. O caminho que a virtude tinha de trilhar era sempre muito estreito.

― Não é justo mantê-lo em suspenso ― disse. ― Decidi não fazer de si um dos meus adjuntos aqui em Washington. Pelo menos para já. Por três razões. Primeira: é um operacional com qualidades invulgares, e há ainda muito trabalho a fazer no campo. A Máfia, à falta de melhor palavra, continua a funcionar. Segunda: oficialmente, tem um informador cujo nome recusa divulgar inclusivamente aos escalões superiores do Bureau. Extra-oficialmente, já no-lo disse. Portanto, extra-oficialmente, tudo bem. Terceira: a sua relação com um certo detetive-chefe de Nova Iorque é demasiado pessoal.

O diretor e Cilke tinham outros assuntos na agenda.

― E como vai a nossa operação Omertà? Temos de estar cem por cento seguros de que dispomos de cobertura legal para tudo o que fizermos.

― Com certeza ― respondeu Cilke, com um ar perfeitamente sério. O diretor estava farto de saber que ia ser preciso cortar algumas curvas. ― Encontramos alguns obstáculos. Raymonde Aprile recusou-se a colaborar connosco. Mas, claro, esse problema deixou de existir.

― A morte do Sr. Aprile foi extremamente conveniente ― comentou o diretor, sardonicamente. ― Não o insultarei perguntando-lhe se teve algum conhecimento prévio do fato. O seu amigo Portella, talvez?

― Não sabemos. Os italianos nunca procuram as autoridades. Temos de esperar que os cadáveres comecem a aparecer. Ora bem, abordei o Astorre Viola, como combinamos. Assinou os documentos de confidencialidade, mas recusou-se a cooperar. Não quer negociar com o Portella e não quer vender os bancos.

― Então que fazemos agora? ― perguntou o diretor. ― Sabe como isto é importante. Se conseguirmos processar o banqueiro ao abrigo das leis Rico, poderemos confiscar os bancos para o governo. Esses dez bilhões de dólares iriam direitos para a luta contra o crime. Seria um golpe magistral da parte do Bureau. E podemos pôr fim à sua associação com o Portella. Deixou de ter qualquer utilidade para nós. Kurt, a situação é extremamente delicada. Só eu e os meus adjuntos sabemos da sua cooperação com esse patife, que recebe dinheiro dele, que ele o julga um dos seus associados. A sua vida pode estar em perigo.

― Nunca se atreveria a atacar um agente federal. É louco, mas não assim tão louco.

― Bom, o Portella tem de ir abaixo nesta operação. Quais são os seus planos?

― Este tal Astorre Viola não é o inocente que todos dizem ― respondeu Cilke. ― Mandei investigar-lhe o passado. Entretanto, vou pedir aos filhos de Don Aprile que o desautorizem. Mas estou preocupado. Será que podemos aplicar as leis Rico com dez anos de retroatividade por qualquer coisa que eles façam agora?