O que ela fazia na solidão? As revistas e os livros de literatura juvenil falavam por si mesmos. O bloco de desenho talvez tenha lhe pertencido. Mas havia também a Bíblia.
Queria ficar perto do pai afogado e passar ali um período de luto? Era só essa a explicação? Ou o isolamento tinha a ver com suas dúvidas religiosas? A cabana era monacal; ela vivia ali como num convento?
* * *
Mikael seguiu pela praia na direção sudeste, mas o terreno, barrado por muitas ravinas e juníperos, era quase impraticável. Retornou e andou um pouco em direção a Hedeby. De acordo com o mapa, devia haver uma picada através do bosque que levava à chamada Fortificação, e ele levou uns vinte minutos para achar o acesso, invadido pela vegetação. A Fortificação eram restos da defesa costeira que datavam da Segunda Guerra: bunkers de concreto com trincheiras distribuídas em volta de uma construção de comando. Tudo coberto de mato.
Mikael continuou no caminho até chegar a um depósito de barcos numa clareira junto ao mar. Ao lado do depósito encontrou restos de um veleiro. Retornou à Fortificação e seguiu até ir dar num cercado — eram as terras da fazenda de Östergarden.
Continuou no caminho que serpenteava através do bosque, em alguns pontos paralelo ao campo pertencente à fazenda. O caminho era de difícil acesso e ele foi obrigado a contornar alguns lodaçais. Por fim chegou a um pântano junto a um celeiro. Aparentemente o caminho terminava ali, mas ele estava a apenas cem metros da estrada de Östergarden.
Do outro lado da estrada, se elevava o monte Sul. Mikael escalou uma encosta íngreme e precisou do apoio das mãos nos últimos metros. O monte Sul terminava numa falésia quase vertical sobre o mar. Mikael retornou a Hedeby seguindo pela crista, de onde avistou as cabanas, o velho porto dos pescadores, a igreja e a pequena casa em que estava hospedado. Sentou-se numa pedra e serviu-se de um último resto de café morno.
Não tinha a menor idéia do que fazia em Hedeby, mas a vista lhe agradava.
Cecilia Vanger mantinha distância e Mikael não quis parecer insistente. Mas depois de uma semana resolveu ir visitá-la. Ela o recebeu e foi preparar um café.
— Deve estar me achando uma idiota, uma professora respeitável de cinquenta e seis anos se comportando como uma adolescente.
— Cecilia, você é uma mulher adulta e tem o direito de agir como quiser.
— Eu sei. Por isso decidi não te ver mais. Não consigo administrar...
— Você não me deve nenhuma explicação. Espero que continuemos bons amigos.
— É o que desejo também. Mas um caso com você é muito complicado para mim. Relacionamentos amorosos nunca foram o meu forte. Acho que preciso ficar só por algum tempo.
16. DOMINGO 1º DE JUNHO — TERÇA-FEIRA 10 DE JUNHO
Após seis meses de especulações infrutíferas, uma brecha se abriu no caso Harriet Vanger quando Mikael, em apenas alguns dias da primeira semana de junho, descobriu três novas peças do quebra-cabeça. Duas completamente sozinho, a terceira com um pouco de ajuda.
Depois da visita de Erika, ele reabrira o álbum de fotografias e por várias horas examinara as fotos uma após outra, tentando entender o que o fizera reagir. Depois deixou tudo de lado e voltou a trabalhar na crônica familiar.
Num dos primeiros dias de junho, Mikael foi a Hedestad. Estava pensando em outra coisa, quando o ônibus entrou na rua da Estação, e foi então que subitamente se deu conta do que havia germinado em seu cérebro. A luz o atingiu como um relâmpago num céu sem nuvens. Ficou tão abalado que continuou até o terminal da estação ferroviária e voltou imediatamente a Hedeby para verificar se suas lembranças eram exatas.
Tratava-se da primeira foto do álbum. A última de Harriet, tirada na rua da Estação em Hedestad naquele dia funesto, quando ela assistia ao desfile da Festa das Crianças.
A foto destoava no álbum. Estava ali porque fora tirada no mesmo dia, mas era a única entre as outras cento e oitenta que não mostrava o acidente na ponte. Sempre que Mikael e (supunha ele) todos os outros olhavam o álbum, eram as pessoas e os detalhes das fotos da ponte que lhes chamavam a atenção. Nada havia de dramático na fotografia de uma multidão assistindo ao desfile da Festa das Crianças em Hedestad, várias horas antes dos acontecimentos decisivos.
Henrik Vanger devia ter olhado para aquela foto milhares de vezes, constatando com pesar que nunca mais tornaria a ver Harriet. Provavelmente se irritou por a foto ter sido tirada de tão longe e de Harriet Vanger só aparecer como uma figura qualquer na multidão.
Mas não foi isso que tinha feito Mikael reagir.
A foto fora tirada do outro lado da rua, provavelmente de uma janela do primeiro andar. A grande-angular captava a frente de um dos caminhões do desfile. Sobre a carroceria, vestidas com maios de banho cintilantes e pantalonas exóticas, mulheres lançavam bombons aos espectadores. Algumas pareciam dançar. Diante do caminhão saltitavam três palhaços.
Harriet estava na calçada, na primeira fila de espectadores. A seu lado, três colegas de classe e, ao redor, pelo menos uns cem outros habitantes de Hedestad.
Foi isso que o subconsciente de Mikael registrara e que de repente veio à tona quando o ônibus passou exatamente no local onde a foto fora tirada.
Os espectadores se comportavam como costumam se comportar. Os olhos dos espectadores sempre seguem a bolinha numa partida de tênis ou o disco de borracha no hóquei sobre gelo. Os que estavam mais à esquerda olhavam os palhaços bem à frente deles. Os mais próximos do caminhão dirigiam o olhar para a carroceria com as moças escassamente vestidas. Seus rostos estavam sorridentes. Crianças apontavam com o dedo. Alguns riam. Todos pareciam felizes.
Todos exceto uma pessoa.
Harriet Vanger olhava para o lado. Suas três colegas e as pessoas ao redor olhavam os palhaços. O rosto de Harriet estava voltado uns trinta ou trinta e cinco graus para a direita. Seu olhar parecia fixo em alguma coisa do outro lado da rua, mas que não aparecia no canto inferior à esquerda da foto.
Mikael pegou a lupa e tentou distinguir os detalhes. A foto fora tirada de muito longe para que ele tivesse absoluta certeza, mas, ao contrário de todos os outros, o rosto de Harriet não exprimia nenhuma alegria. A boca era um traço estreito. Olhos muito abertos. Mãos repousadas frouxamente ao longo do corpo.
Ela parecia estar com medo. Com medo ou com raiva.
Mikael tirou a foto do álbum, enfiou-a numa folha de plástico e pegou o ônibus com destino a Hedestad. Desceu na rua da Estação e colocou-se no local onde a foto provavelmente fora tirada. Era numa das pontas do que constituía o centro da cidade. Tratava-se de um sobrado de madeira que agora abrigava uma videolocadora e uma loja de moda masculina, Sundström, existente desde 1932, conforme informava uma placa acima da porta de entrada. Ele entrou e logo percebeu que a loja ocupava os dois andares; uma escada em caracol conduzia à parte de cima.
No alto, duas janelas davam para a rua. Foi ali que o fotógrafo se instalara.
— Posso ajudá-lo? — perguntou um vendedor de certa idade, quando Mikael tirou do bolso o plástico com a fotografia. Havia pouca gente na loja.
— Bem, na verdade eu gostaria apenas de verificar de onde esta fotografia foi tirada. Posso abrir um instante a janela?
Deram-lhe permissão e ele estendeu a foto à sua frente. Podia ver o local exato onde Harriet Vanger estivera. Uma das duas casas de madeira que se viam atrás dela desaparecera, substituída por uma de tijolos. A outra casa, que sobreviveu, abrigava uma papelaria em 1966; atualmente havia ali uma loja de produtos dietéticos e um solário. Mikael fechou a janela, agradeceu e desculpou-se pelo incômodo.
Embaixo, na rua, foi se colocar no lugar onde Harriet estivera. Não teve dificuldade em se orientar entre a janela do primeiro andar da loja e a porta do solário. Virou a cabeça e reconstituiu a linha de mira de Harriet. Pelo que Mikael pôde avaliar, ela dirigira o olhar a um canto da casa que abrigava a loja de moda masculina. Era um canto de casa inteiramente comum, de onde saía uma rua lateral. O que Harriet teria visto lá?