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Não é um verdadeiro navio de guerra, compreendeu Victarion. Uma galé mercante, e uma das grandes. Seria uma bela captura. Fez sinal aos capi­tães para lhe darem caça. Abordariam aquele navio e capturá-lo-iam.

Por essa altura, o capitão da galé já se apercebera do perigo em que se encontrava. Mudou de rumo para oeste, dirigindo-se à Ilha dos Cedros, talvez na esperança de se abrigar nalguma angra escondida ou de atirar os perseguidores contra os rochedos irregulares que corriam ao longo da costa nordeste da ilha. Mas a sua galé estava muito carregada, e os nascidos no ferro tinham o vento a seu favor. Desgosto e Vitória de Ferro cortaram o caminho à presa, enquanto o rápido Gavião e o ágil Dedos Dançarinos se aproximavam dela por trás. Nem nessa altura o capitão ghiscariota arriou as pavilhões. Quando a Lamentação se pôs ao lado da presa, rasgando-lhe o flanco de bombordo e estilhaçando-lhe os remos, ambos os navios estavam tão próximos das ruínas assombradas de Ghozai que conseguiam ouvir os macacos a tagarelar enquanto a primeira luz da aurora cobria as pirâmides quebradas da cidade.

O navio capturado chamava-se Aurora Ghiscariota, segundo disse o capitão da galé quando foi entregue a ferros a Victarion. Era oriundo de Nova Ghis e estava a regressar à base via Yunkai, depois de ter negociado em Meereen. O homem não falava língua decente, só um ghiscari gutural, cheio de rosnidos e silvos, a língua mais feia que Victarion Greyjoy ouvira na vida. Moqorro traduziu as palavras do capitão para o idioma comum de Westeros. A guerra por Meereen estava ganha, segundo afirmava o capitão; a rainha dos dragões estava morta, e um ghiscariota chamado Hizdak go­vernava agora a cidade.

Victarion mandou arrancar-lhe a língua por mentir. Daenerys Targaryen não estava morta, segundo lhe assegurava Moqorro; o seu deus ver­melho, R'hllor, mostrara-lhe a cara da rainha nos seus fogos sagrados. O capitão não suportava mentiras, portanto mandou atar as mãos e os pés do capitão ghiscariota e atirá-lo borda fora, como sacrifício ao Deus Afogado.

—   O teu deus vermelho terá o que lhe é devido — prometeu a Moqorro — mas os mares são governados pelo Deus Afogado.

—  Não há deuses além de R'hllor e do Outro, cujo nome não pode ser dito. — O sacerdote feiticeiro estava vestido de um negro sombrio, à parte um vestígio de fio de ouro no colarinho, nos punhos e na bainha. Não havia pano vermelho a bordo da Vitória de Feno, mas não era apropriado que Moqorro andasse por aí com os trapos manchados de sal que usava quando o Arganaz o pescara do mar, pelo que Victarion ordenara a Tom Tidewood para lhe coser vestes novas com o que quer que houvesse à mão, e até doa­ra algumas das suas próprias túnicas para esse fim. Essas eram de negro e ouro, pois as armas da Casa Greyjoy mostravam uma lula gigante dourada em fundo negro, e os pavilhões e as velas dos seus navios exibiam o mesmo. As vestes carmins e escarlates dos sacerdotes vermelhos eram estranhas aos nascidos no ferro, mas Victarion esperara que os seus homens aceitassem mais facilmente Moqorro depois de estar vestido com as cores Greyjoy.

Esperara em vão. Vestido de negro dos pés à cabeça, com uma más­cara de chamas vermelhas e cor de laranja tatuada na cara, o sacerdote pa­recia mais sinistro do que nunca. A tripulação evitava-o quando percorria o convés, e homens cuspiam se a sua sombra calhasse cair sobre eles. Até o Arganaz, que pescara o sacerdote vermelho do mar, insistira com Victarion para o entregar ao Deus Afogado.

Mas Moqorro conhecia aquelas estranhas costas de formas que os nascidos no ferro não conheciam, e também conhecia segredos dos dra­gões. O Olho de Corvo tem feiticeiros, porque não hei de tê-los também? O seu feiticeiro negro era mais poderoso do que todos os três de Euron, mes­mo se os atirasse para um caldeirão e os fervesse até criar um só. O Cabelo-Molhado podia desaprovar, mas Aeron e a sua devoção estavam longe.

Portanto Victarion cerrou a mão queimada num punho poderoso e disse:

—   Aurora Ghiscariota não é um nome adequado para um navio da Frota de Ferro. Por ti, feiticeiro, rebatizá-lo-ei como Fúria do Deus Verme­lho.

O feiticeiro fez uma vénia.

—  Às ordens do capitão. — E os navios da Frota de Ferro voltaram a ascender a cinquenta e quatro.

No dia seguinte, uma súbita borrasca caiu sobre eles. Moqorro tam­bém a tinha previsto. Quando as chuvas se foram, descobriu-se que três navios tinham desaparecido. Victarion não tinha maneira de saber se se teriam afundado, se teriam encalhado ou se teriam sido afastados da rota pelo vento.

—   Eles sabem para onde vamos — disse à tripulação. — Se ain­da flutuam, voltaremos a encontrar-nos. — O capitão de ferro não tinha tempo para esperar por retardatários. Com a sua noiva rodeada por ini­migos não. A mais bela mulher do mundo tem necessidade urgente do meu machado.

Além disso, Moqorro assegurou-lhe que os três navios não estavam perdidos. Todas as noites, o sacerdote feiticeiro acendia uma fogueira no castelo de proa da Vitória de Ferro e caminhava em volta das chamas ento­ando preces. A luz do fogo fazia-lhe brilhar a pele negra como ónix polido e, por vezes, Victarion era capaz de jurar que as chamas tatuadas na sua cara também estavam a dançar, torcendo-se e dobrando-se, fundindo-se umas nas outras, com as cores a mudar de cada vez que o sacerdote virava a cabeça.

Um remador fora ouvido a dizer:

—   O sacerdote vermelho está a evocar demónios para os fazer cair sobre nós. — Quando isso fora relatado a Victarion, este mandara chico­teá-lo até lhe deixar as costas em carne viva dos ombros às nádegas. Por isso, quando Moqorro disse:

—   As vossas ovelhas tresmalhadas regressarão ao rebanho ao largo da ilha chamada Yaros — o capitão disse:

—  Reza para que regressem, sacerdote. Senão podes ser tu o próximo a experimentar o chicote.

O mar estava azul e verde e o sol jorrava de um céu azul e vazio quan­do a Frota de Ferro capturou a sua segunda presa, nas águas a noroeste de Astapor.

Daquela vez foi uma coca mirana chamada Pomba, a caminho de Yunkai via Nova Ghis, com uma carga de tapetes, vinhos verdes doces e renda de Myr. O capitão possuía um olho de Myr que fazia com que coisas distantes parecessem próximas; duas lentes de vidro numa série de tubos de latão, astutamente feitos por forma a que cada secção deslizasse para dentro da seguinte, até que o olho não fosse maior que uma adaga. Victarion ficou com esse tesouro para si. A coca chamou Picanço. O capitão decretou que a tripulação seria mantida para resgate. Não eram nem escravos nem donos de escravos, mas miranos livres e marinheiros experientes. Homens assim valiam bom dinheiro. Tendo zarpado de Myr, a Pomba não lhes trouxe no­tícias frescas de Meereen ou de Daenerys, só relatos velhos sobre cavaleiros dothraki ao longo do Roine, sobre a Companhia Dourada estar em marcha, e outras coisas que Victarion já sabia.

— Que vês? — perguntou o capitão ao seu sacerdote negro nessa noi­te, quando Moqorro estava em frente da sua fogueira noturna. — Que nos espera amanhã? Mais chuva? — A ele cheirava a chuva.

—   Céus cinzentos e ventos fortes — disse Moqorro. — Chuva não. Atrás de nós vêm os tigres. A frente espera o vosso dragão.

O meu dragão. Victarion gostava de como aquilo soava.

—   Diz-me alguma coisa que eu não saiba, sacerdote.

—  O capitão ordena e eu obedeço — disse Moqorro. A tripulação co­meçara a chamar-lhe Chama Negra, um nome que lhe fora dado pelo Steffar Gago, que não conseguia dizer "Moqorro." Fosse qual fosse o seu nome, o sacerdote tinha poderes. — A costa aqui corre de oeste para leste — disse a Victarion. — Onde vira para norte, deparareis com mais duas lebres. Das rápidas, com muitas patas.