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Um dos outros acólitos estava do outro lado da sala com um jarro de vinho tinto escuro. Ela tinha a água. Sempre que um dos servos desejava beber, levantava os olhos ou enrolava um dedo, e um deles, ou ambos, ia encher-lhe a taça. Mas durante a maior parte do tempo ficaram imóveis, à espera de olhares que não vinham. Sou esculpida em pedra, fez ela lembrar a si própria. Sou uma estátua, como os Senhores do Mar que se erguem ao lon­go do Canal dos Heróis. A água era pesada, mas os seus braços eram fortes.

Os sacerdotes usavam a língua de Bravos, embora uma vez, duran­te vários minutos, três deles tenham conversado acaloradamente em alto valiriano. A rapariga compreendia as palavras, a maioria delas, mas eles fa­lavam em vozes baixas e nem sempre conseguia ouvi-las. Ouviu um sacer­dote com a cara de uma vítima da praga dizer:

—   Eu conheço esse homem.

—   Eu conheço esse homem — ecoou o gordo, enquanto ela o servia. Mas o homem bonito disse:

—  Eu quero dar a esse homem a dádiva, que não o conheço. — Mais tarde, o estrábico disse o mesmo, sobre outra pessoa.

Após três horas de vinho e palavras, os sacerdotes retiraram-se... todos menos o homem amável, a criança abandonada e aquele cuja cara mostrava sinais da praga. O seu rosto estava coberto de chagas e o cabelo caíra-lhe. Pingava-lhe sangue de uma narina e tinha crostas nos cantos de ambos os olhos.

—  O nosso irmão quer conversar contigo, pequena — disse-lhe o ho­mem amável. — Senta-te, se quiseres. — Ela sentou-se numa cadeira de represeiro com uma cara de ébano. Chagas abertas não continham terror para ela. Já passara demasiado tempo na Casa cio Preto e do Branco para ter medo de uma cara falsa.

—  Quem és? — perguntou o cara de praga quando ficaram sós.

—  Ninguém.

—   Não é verdade. És Arya da Casa Stark, que morde o lábio e não sabe dizer uma mentira.

—  Era. Agora não sou.

—  Porque estás aqui, mentirosa?

—  Para servir. Para aprender. Para mudar a minha cara.

—   Primeiro muda o coração. A dádiva do Homem de Muitas Caras não é brinquedo de criança. Tu queres matar para os teus próprios fins, para teu próprio prazer. Negas?

Ela mordeu o lábio.

—  Eu...

Ele esbofeteou-a.

O golpe deixou-lhe um formigueiro na cara, mas ela sabia que o me­recera.

—  Obrigada. — Com suficientes estaladas, talvez parasse de mastigar o lábio. Quem fazia isso era a Arya, não a loba noturna. — Eu nego-o.

—   Mentes. Consigo ver a verdade nos teus olhos. Tens os olhos de um lobo, e gosto por sangue.

Sor Gregor, não conseguiu evitar pensar. Dunsen, Raff, o Querido. Sor llyn, Sor Meryn, Rainha Cersei. Se falasse, teria de mentir e ele saberia. Manteve-se em silêncio.

—  Disseram-me que foste uma gata. Que percorreste as vielas a chei­rar a peixe, trocando berbigões e mexilhões por dinheiro. Uma vida pe­quena, bastante adequada a uma criatura pequena como tu. Pede, e pode ser-te devolvida. Empurra o carrinho de mão, apregoa os teus berbigões, contenta-te. O teu coração é demasiado mole para seres uma de nós.

Ele quer mandar-me embora.

—   Eu não tenho coração. Só tenho um buraco. Matei montes de pes­soas. Podia matar-te se quisesse.

—  Isso ia saber-te bem?

Não sabia a resposta certa.

—  Talvez.

—   Então o teu lugar não é aqui. A morte não é saborosa nesta casa. Nós não somos guerreiros nem soldados nem espadachins arrogantes in­chados de orgulho. Não matamos para servir algum senhor, para engordar as nossas bolsas, para afagar a nossa vaidade. Nunca oferecemos a dádiva para ficarmos contentes. E também não escolhemos quem matar. Não pas­samos de servos do Deus das Muitas Caras.

—   Valar dohaeris. — Todos os homens têm de servir.

—    Conheces as palavras mas és demasiado orgulhosa para servir. Um servo deve ser humilde e obediente.

—   Eu obedeço. Posso ser mais humilde que qualquer outra pessoa.

Aquilo fê-lo soltar um risinho.

—   Tenho a certeza de que serias a própria deusa da humildade. Mas poderás pagar o preço?

—   Que preço?

—   O preço és tu. O preço é tudo o que tens e tudo o que esperas vir a ter. Tirámos-te os olhos e devolvemo-los. A seguir tirar-te-emos os ouvidos e caminharás em silêncio. Dar-nos-ás as pernas e rastejarás. Não serás filha de ninguém, mulher de ninguém, mãe de ninguém. O teu nome será uma mentira, e a própria cara que usares não será a tua.

Quase voltou a morder o lábio, mas daquela vez apercebeu-se dis­so e parou. A minha cara é uma lagoa parada, esconde tudo, nada mostra. Pensou em todos os nomes que usara: Arry, Doninha, Pombinha, Gata dos Canais. Pensou naquela estúpida rapariga de Winterfell chamada Arya Cara-de-Cavalo. Os nomes não importavam.

—   Posso pagar o preço. Dá-me uma cara.

—   As caras têm de ser ganhas.

—   Diz-me como.

—   Dá uma certa dádiva a um certo homem. Podes fazer isso?

—   Que homem?

—   Ninguém que conheças.

—   Não conheço montes de gente.

—   Ele é um deles. Um estranho. Ninguém que amas, ninguém que odeias, ninguém que tenhas conhecido. Matá-lo-ás?

—   Sim.

—   Então amanhã voltarás a ser a Gata dos Canais. Usa essa cara, ob­serva, obedece. E veremos se és realmente digna de servir O das Muitas Caras.

Por conseguinte, no dia seguinte regressou para junto de Brusco e das filhas na casa junto do canal. Os olhos de Brusco esbugalharam-se quando a viu, e Brea soltou um pequeno arquejo.

—   Valar morghulis — disse a Gata em jeito de saudação.

—   Valar dohaeris — respondeu Brusco.

Depois disso foi como se nunca se tivesse ido embora.

Viu pela primeira vez o homem que tinha de matar mais tarde nessa manhã, enquanto empurrava o carrinho de mão pelas ruas empedradas que davam para o Porto Púrpura. Era um velho, bem para lá dos cinquenta anos. Viveu demais, tentou dizer a si própria. Porque haverá ele de ter tantos anos quando o meu pai teve tão poucos? Mas a Gata dos Canais não tinha pai, portanto guardou esse pensamento para si.

—   Amêijoas, mexilhões, berbigões — gritou a Gata ao passar — ostras e gambás e gordos mexilhões verdes. — Até lhe sorriu. Às vezes bastava um sorriso para os fazer parar e comprar. O velho não respondeu ao sorriso. Franziu-lhe o sobrolho e continuou a andar, chapinhando numa poça de água. Os salpicos molharam-lhe os pés.

Não tem cortesia, pensou ela, vendo-o partir. A sua cara é dura e má. O nariz do velho era estreito e aguçado, os lábios eram finos, os olhos pe­quenos e próximos. O cabelo tornara-se grisalho, mas a pequena barba pontiaguda na ponta do queixo ainda era negra. A Gata achou que devia ser pintada e perguntou a si própria porque não teria ele pintado também o cabelo. Um dos seus ombros era mais alto do que o outro, dando-lhe um ar torto.

—   É um homem mau — anunciou nessa noite, quando regressou à Casa de Preto e Branco. — Os seus lábios são cruéis, os olhos malignos, e tem barba de vilão.

O homem amável soltou um risinho abafado.

—   É um homem como qualquer outro, com luz em si, e escuridão também. Não te cabe a ti julgá-lo.

Aquilo fê-la hesitar.

—   Os deuses julgaram-no?