— Há séculos — mentiu. — O meu pai costumava dizê-lo. Conheceste o Lorde Tywin, Kem?
— O Mão. Uma vez vi-o a subir a colina a cavalo. Os homens dele tinham mantos vermelhos e leõezinhos nos elmos. Eu gostava daqueles elmos. — A boca apertou-se-lhe. — Mas nunca gostei do Mão. Ele saqueou a cidade. E depois esmagou-nos na Água Negra.
— Estavas lá?
— Com Stannis. O Lorde Tywin apareceu com o fantasma de Renly e apanhou-nos no flanco. Eu deitei fora a lança e tugi, mas junto dos navios houve um cabrão de um cavaleiro que disse: "Onde 'tá a tua lança, rapaz? Nã temos espaço para cobardes," e puseram-se na alheta e deixaram-me lá, a mim e a mais milhares. Mais tarde ouvi dizer que o teu pai estava a mandar os que tinham combatido com Stannis para Muralha, de modo que atravessei o mar estreito e juntei-me aos Segundos Filhos.
— Tens saudades de Porto Real?
— Algumas. Tenho saudades de um rapaz, ele... ele era meu amigo. E do meu irmão Kennet, mas esse morreu na ponte de navios.
— Demasiados bons homens morreram nesse dia. — Tinha uma comichão diabólica na cicatriz. Tyrion coçou-a com uma unha.
— Tamem tenho saudades da comida — disse Kem com um ar nostálgico.
— Dos cozinhados da tua mãe?
— Os cozinhados da minha mãe eram bons para ratazanas. Mas havia uma casa de pasto. Nunca ninguém fez uma tigela de castanho como eles. Tão espessa que a colher ficava em pé na tigela, com bocados disto e daquilo. Alguma vez comeste uma tigela de castanho, Meio-Homem?
— Uma ou duas vezes. Chamo-lhe estufado de cantor.
— Porquê?
— Sabe tão bem que me deixa com vontade de cantar.
Kem gostou daquilo.
— Estufado de cantor. Hei de pedir isso da próxima vez que 'tiver no Fundo das Pulgas. De que tens tu saudades, Meio-Homem?
De Jaime, pensou Tyrion. DeShae. De Tysha. Da minha esposa, tenho saudades da minha esposa, a esposa que quase não conheci.
— De vinho, rameiras e riqueza — respondeu. — Especialmente da riqueza. Com a riqueza pode-se comprar vinho e rameiras. — E também se pode comprar espadas, e os Kems para as brandirem.
— É verdade que os penicos em Rochedo Casterly são feitos de ouro puro? — perguntou-lhe Kem.
— Não devias acreditar em tudo o que ouves. Especialmente quando diz respeito à Casa Lannister.
— Dizem que todos os Lannister são serpentes retorcidas.
— Serpentes? — Tyrion riu-se. — Este som que estás a ouvir é o senhor meu pai a serpentear na sepultura. Nós somos leões, ou pelo menos é o que gostamos de dizer. Mas não importa, Kem. Quer pises uma serpente, quer pises a cauda de um leão, acabas igualmente morto.
Por essa altura tinham chegado ao arremedo de armeiro. O ferreiro, o tal afamado Martelo, revelou ser uma bisarma com um aspeto invulgar, cujo braço esquerdo parecia ter o dobro da grossura do direito.
— Passa mais tempo bêbado do que sóbrio — disse Kem. — O Ben Castanho deixa-o estar, mas um dia haveremos de arranjar um armeiro a sério. — O aprendiz do Martelo era um jovem rijo de cabelo ruivo chamado Prego. Claro. Que nome haveria de ter?, matutou Tyrion. Quando chegaram à forja o Martelo estava a coser uma bebedeira, dormindo, tal como Kem profetizara, mas o Prego não levantou objeções a ter os dois anões a vasculharem as carroças.
— Ferro merdoso, na maior parte — avisou — mas podeis servir-vos de qualquer coisa que consigais usar.
Sob tetos de madeira dobrada e couro enrijecido, as caixas das carroças estavam cheias com grandes pilhas de velhas armas e armaduras. Tyrion deitou-lhes uma olhadela e suspirou, lembrando-se das reluzentes fileiras de espadas, lanças e alabardas no armeiro dos Lannister sob Rochedo Casterly.
— Isto pode levar algum tempo — declarou.
— Há cá aço decente se o conseguires encontrar — rosnou uma voz profunda. — Nenhum é bonito, mas parará uma espada.
Um grande cavaleiro desceu de cima de uma carroça, vestido dos pés à cabeça de aço da companhia. A greva esquerda era diferente da direita, o gorjal estava manchado de ferrugem, os braçais eram ricos e ornamentados, com flores de nigelo neles embutidas. Na mão direita tinha uma manopla de aço articulado, na esquerda uma luva sem dedos de cota de malha ferrugenta. Os mamilos na musculosa placa de peito eram atravessados por um par de aros de ferro. Do elmo brotava um par de cornos de carneiro, um dos quais estava partido.
Quando o tirou, revelou a cara maltratada de Jorah Mormont.
Parece tal e qual um mercenário e não tem semelhança nenhuma com a coisa meio quebrada que tirámos da jaula de Yezzan, refletiu Tyrion. Por aquela altura, as nódoas negras já se tinham quase desvanecido, e o inchaço da cara estava praticamente desaparecido, portanto Mormont parecia de novo quase humano... embora só vagamente se parecesse consigo próprio. A máscara de demónio que os esclavagistas tinham queimado na bochecha direita para o marcar como escravo perigoso e desobediente nunca o deixaria. Sor Jorah nunca fora um homem a que se pudesse chamar bonito. A marca transformara a sua cara em algo de assustador.
Tyrion fez um sorriso.
— Desde que fique mais bonito do que tu, ficarei contente. — Virou-se para Centava. — Fica com aquela carroça. Eu começo com esta.
— Será mais rápido se procurarmos juntos. — Pegou num ferrugento meio elmo de ferro, soltou uma gargalhadinha e enfiou-o na cabeça. — Tenho um ar temível?
Tens ar de saltimbanca com um penico na cabeça.
— Isso é um meio elmo. Queres um elmo completo. — Encontrou um e trocou-o com o meio elmo.
— É grande demais. — A voz de Centava ecoou dentro do aço. — Não consigo ver para fora. — Tirou o elmo e deitou-o fora. — Que tem o meio elmo de errado?
— É aberto na cara. — Tyrion beliscou-lhe o nariz. — Gosto de olhar para o teu nariz. Preferia que o conservasses.
Os olhos da rapariga esbugalharam-se.
— Gostas do meu nariz?
Oh, que os Sete me salvem. Tyrion virou-lhe costas e pôs-se a esgravatar em pilhas de armaduras velhas na parte de trás da carroça.
— Há mais alguma parte de mim de que gostes? — perguntou Centava.
Talvez pretendesse que aquilo soasse como uma brincadeira. Mas em vez disso soou triste.
— Gosto de todas as tuas partes — disse Tyrion, na esperança de pôr fim à discussão sobre o assunto — e ainda gosto mais das minhas.
— Para que precisamos nós de armaduras? Somos só saltimbancos. Só fingimos combater.
— Tu finges muito bem — disse Tyrion, examinando um lorigão de pesada cota de malha de ferro, tão cheia de buracos que quase parecia comida pelas traças. Que tipo de traças comem cota de malha? — Fingir estar morto é uma maneira de sobreviver a uma batalha. Boa armadura é outra. — Embora tema que haja pouquíssimo disso por aqui. No Ramo Verde, combatera com bocados desirmanados de aço vindos das carroças do Lorde Lefford, com o elmo com espigão que fazia com que parecesse que alguém lhe enfiara um balde de dejetos na cabeça. Aquele aço de companhia era pior. Não se limitava a ser velho e a servir-lhe mal, estava amolgado, estalado e quebradiço. Aquilo é sangue seco ou só ferrugem? Cheirou a mancha, mas continuou sem conseguir ter a certeza.
— Está aqui uma besta. — Centava mostrou-lha.
Tyrion deitou-lhe uma olhadela.
— Não posso usar um carregador de estribo. As minhas pernas não são suficientemente compridas. Uma manivela servia-me melhor. — Se bem que, em boa verdade, não quisesse uma besta. Demoravam demasiado a recarregar. Mesmo que se escondesse perto da vala das latrinas à espera de algum inimigo que se fosse lá agachar, as hipóteses de disparar mais do que um dardo não eram boas.