Colina de Geadalva e Portão da Geada ainda não tinham guarnições, e Jon perguntara-lhes o que achavam sobre quais dos restantes chefes e senhores da guerra selvagens eram mais adequados para os defender.
— Temos Brogg, Gavin, o Mercador, o Grande Morsa... O Howd Vadio é solitário, segundo Tormund, mas ainda há Harle, o Caçador, Harle, o Belo, o Doss Cego... Ygon Paivelho comanda um grupo de seguidores, mas a maioria são os seus próprios filhos e netos. Tem dezoito mulheres, metade delas raptadas em incursões. Quais destes...
— Nenhum — dissera Bowen Marsh. — Conheço todos esses homens pelos seus feitos. Devíamos estar a tirar-lhes as medidas para a forca, não a entregar-lhes os nossos castelos.
— Pois — concordara Othell Yarwyck. — Mau, pior e horrendo são as opções de um pedinte. Mais valia que o senhor nos apresentasse uma alcateia de lobos e nos perguntasse qual deles gostaríamos que nos rasgasse a garganta.
Voltou a ser a mesma coisa com Larduro. O Cetim serviu enquanto Jon lhes contava a audiência com a rainha. Marsh ouviu atentamente, ignorando o vinho com especiarias, enquanto Yawyck bebia um copo e depois outro. Mas assim que Jon terminou, o Senhor Intendente disse:
— Sua Graça é sensata. Eles que morram.
Jon recostou-se na cadeira.
— E esse o único conselho que tendes para dar, senhor? Tormund vai trazer oitenta homens. Quantos devemos nós enviar? Devemos chamar os gigantes? As esposas de lanças em Monte Longo? Se tivermos mulheres conosco, isso poderá pôr as pessoas da Mãe Toupeira à vontade.
— Então enviai mulheres. Enviai gigantes. Enviai bebês de peito. E isso o que o senhor deseja ouvir? — Bowen Marsh esfregou a cicatriz que conquistara na Ponte dos Crânios. — Mandai-os a todos. Quanto mais perdermos, menos bocas teremos para alimentar.
Yarwyck não foi mais prestável.
— Se os selvagens em Larduro precisam de ser salvos, que os selvagens daqui os vão salvar. Tormund conhece o caminho para Larduro. Se Creditarmos no que diz, pode salvá-los a todos pessoalmente com o seu enorme membro.
Isto foi inútil, pensou Jon. Inútil, infrutífero, imprestável.
— Obrigado pelos vossos conselhos, senhores.
O Cetim ajudou-os a vestir os mantos. Quando passaram pelo armeiro, o Fantasma farejou-os, de cauda erguida e pelo eriçado. Os meus irmãos. A Patrulha da Noite precisava de líderes com a sabedoria do Meistre Aemon, a instrução de Samwell Tarly, a coragem de Qhorin Meia-Mão, a obstinada força do Velho Urso, a compaixão de Donal Noye. O que tinha em vez disso era aqueles homens.
A neve caía pesadamente lá fora.
— O vento sopra do sul — observou Yarwyck. — Está a soprar a neve contra a Muralha. Vedes?
Tinha razão. Jon viu que a escada em ziguezague estava enterrada quase até ao primeiro patamar, e as portas de madeira das celas de gelo e dos armazéns tinham desaparecido sob uma muralha branca.
— Quantos homens temos nas celas de gelo? — perguntou a Bowen Marsh.
— Quatro vivos. Dois mortos.
Os cadáveres. Jon quase os esquecera. Esperara aprender alguma coisa com os corpos que tinham trazido do bosque de represeiros, mas os mortos tinham permanecido teimosamente mortos.
— lemos de desenterrar essas celas.
— Dez intendentes e dez pás devem dar conta do recado — disse Marsh.
— Usai também o Wun Wun.
— Às vossas ordens.
Dez intendentes e um gigante tornaram irrelevantes os montes de neve, mas mesmo depois de as portas estarem de novo a descoberto, Jon continuou insatisfeito.
— Aquelas celas estarão outra vez enterradas quando a manhã chegar. É melhor mudarmos os prisioneiros antes que asfixiem.
— O Karstark tamem, senhor? — perguntou Fulk, o Pulga. — Não podemos simplesmente deixar esse a tremer até à primavera?
— Bem gostaria de poder. — Cregan Karstark arranjara o hábito de uivar noite dentro, e de atirar fezes congeladas a qualquer um que fosse levar-lhe comida. Isso não o levara a formar amizades entre os guardas. — Leva-o para a Torre do Senhor Comandante. A subcave deve aguentá-lo. — Apesar de ter ruído parcialmente, a antiga habitação do Velho Urso seria mais quente do que as celas de gelo. As subcaves estavam basicamente intactas.
Cregan atirou pontapés aos guardas quando eles atravessaram a porta, contorceu-se e empurrou-os quando o agarraram, até tentou mordê-los.
Mas o frio enfraquecera-o, e os homens de Jon eram maiores, mais jovens e mais fortes. Carregaram com ele para fora, ainda a debater-se, e arrastaram-no pela neve que lhes chegava às coxas até ao seu novo lar.
— Que quer o senhor comandante que façamos com os cadáveres? — perguntou Marsh depois dos vivos terem sido mudados.
— Deixai-os lá. — Se as tempestades os sepultassem não haveria qualquer problema. A seu tempo teriam de os queimar, sem dúvida, mas por enquanto estavam presos com correntes de ferro dentro das suas celas. Isso e estarem mortos devia bastar para mantê-los inofensivos.
Tormund Terror dos Gigantes escolheu na perfeição o momento certo para a sua chegada, aparecendo a trovejar com os seus guerreiros depois de ter terminado o trabalho. Só pareciam ter aparecido cinquenta, não os oitenta que Toregg prometera ao Couros, mas não era por acaso que se chamava Alto-Falante a Tormund. O selvagem chegou corado, a gritar por um corno de cerveja e por qualquer coisa quente para comer. Trazia gelo na barba e mais gelo cobria-lhe o bigode.
Alguém já falara de Gerrick Sangue-de-rei e do seu novo título ao Punho de Trovão.
— Rei dos Selvagens? — rugiu Tormund. — Ha! Rei do Meu Rego Peludo cai-lhe melhor.
— Ele tem um aspeto régio — disse Jon.
— Tem um caralhinho vermelho para combinar com todo aquele cabelo vermelho, é isso que ele tem. Raymund Barbavermelha e os filhos morreram no Lago Longo, graças aos teus malditos Stark e ao Gigante Bêbado. Mas o mano mais novo não. Alguma vez tiveste curiosidade de saber porque lhe chamaram Corvo que Arde? — A boca de Tormund abriu-se num sorriso desdentado. — Foi o primeiro a fugir da batalha. Depois fizeram uma canção sobre isso. O cantor teve de arranjar uma rima para cobarde, portanto... — Limpou o nariz. — Se os cavaleiros da tua rainha querem aquelas moças dele, que lhes façam bom proveito.
— Moças — guinchou o corvo de Mormont. — Moças, moças.
Aquilo voltou a pôr Tormund à gargalhada.
— Ora ali 'tá um pássaro com juízo. Quanto queres por ele, Snow? Dei-te um filho, o mínimo que podias fazer era dar-me o sacana do pássaro.
— Eu dava — disse Jon — mas o mais certo era que acabasses por comê-lo.
Tormund também respondeu àquilo com um rugido.
— Comer — disse o corvo sombriamente, batendo as asas negras. — Grão? Grão? Grão?
— Temos de conversar sobre a patrulha — disse Jon. — Quero que
estejamos de acordo no Salão dos Escudos, temos de... — Interrompeu, quando Mully enfiou o nariz pela porta, com uma expressão sombria, p; anunciar que Clydas tinha trazido uma carta.
— Diz-lhe para a deixar contigo. Leio-a mais tarde.
— Como quiserdes, senhor, só que... Clydas não parece ele... é mais branco que cor-de-rosa, se me faço entender... e 'tá a tremer.
— Asas escuras, palavras escuras — resmungou Tormund. — Não é isso que vós, os ajoelhadores, dizeis?
— Também dizemos sangra um resfriado mas banqueteia uma febre — disse-lhe Jon. — Dizemos nunca bebas com dorneses quando a lua está cheia. Dizemos montes de coisas.