O Sol só agora estava a nascer. Algumas estrelas brilhantes demoravam-se no céu cor de cobalto. Talvez uma delas seja Khal Drogo, montado no seu garanhão de fogo nas terras da noite e sorrindo-me. Pedra do Dragão ainda estava visível acima da estepe. Parece tão próxima. Tenho de estar a léguas de distância por esta altura, mas parece que podia estar de volta numa hora. Desejou voltar a deitar-se, fechar os olhos e entregar-se ao sono. Não. Tenho de prosseguir. O riacho. Segue o riacho.
Dany gastou um momento para se assegurar das direções. Não seria bom caminhar na direção errada e perder o riacho.
— O meu amigo — disse em voz alta. — Se ficar perto do meu amigo não me perderei. — Teria dormido junto da água se se atrevesse, mas havia animais que desciam ao ribeiro à noite para beber. Vira os seus rastos. Dany daria fraca refeição para um lobo ou um leão, mas mesmo uma fraca refeição era melhor do que nada.
Depois de ter a certeza de qual o lado em que ficava o sul, contou os passos. O ribeiro surgiu aos oito. Dany pôs as mãos em taça para beber. A água fez-lhe doer a barriga, mas era mais fácil suportar as dores do que a sede. Não tinha outra bebida além do orvalho matinal que reluzia nas ervas altas, e não tinha comida nenhuma, a menos que quisesse comer a erva. Podia tentar comer formigas. As pequenas e amarelas eram pequenas demais para fornecer grande nutrição, mas havia na erva formigas vermelhas, e essas eram maiores.
— Estou perdida no mar — disse, enquanto coxeava ao lado do seu ribeirinho sinuoso — portanto talvez arranje uns caranguejos, ou um belo peixe gordo. — O chicote batia suavemente na sua coxa, uap uap uap. Um passo de cada vez, o ribeiro levá-la-ia para casa.
Logo após o meio-dia deparou com um arbusto que crescia junto do riacho, cujos ramos retorcidos estavam cobertos de bagas duras e verdes. Dany olhou-as desconfiada, após o que arrancou uma do ramo e a mordiscou. A polpa era ácida e dura, com um travo amargo que lhe pareceu familiar.
— No klialasar, usavam bagas como estas para dar sabor aos assados — decidiu. Dizê-lo em voz alta deixava-a mais segura do facto. A barriga trovejou e Dany deu por si a colher bagas com ambas as mãos e a atirá-las para dentro da boca.
Uma hora mais tarde, o estômago começou a doer-lhe tanto que não conseguiu prosseguir. Passou o resto desse dia a vomitar muco verde. Se ficar aqui, morrerei. Posso estar já a morrer. Iria o deus cavalo dos dothraki abrir a erva e reclamá-la para o seu klialasar estrelado, para poder percorrer as terras da noite com Khal Drogo? Em Westeros, os mortos da Casa Targaryen eram entregues às chamas, mas quem acenderia ali a sua pira? A minha carne irá alimentar os lobos e as gralhas, pensou, entristecida, e vermes abrirão buracos no meu ventre. Os seus olhos regressaram a Pedra do Dragão. Agora parecia mais pequena. Conseguia ver fumo a erguer-se do cume esculpido pelo vento, a milhas de distância. Drogon regressou da caça.
O pôr-do-sol foi encontrá-la de cócoras na erva, gemendo. Cada evacuação era mais líquida do que a anterior, e cheirava pior. Quando a Lua nasceu estava a cagar água castanha. Quanto mais bebia, mais cagava, mas quanto mais cagava mais sede tinha, e a sede levava-a a gatinhar até ao riacho para sugar mais água. Quando finalmente fechou os olhos, Dany não sabia se teria força suficiente para os voltar a abrir.
Sonhou com o irmão morto.
Viserys tinha precisamente o aspeto que tivera da última vez que vira. Tinha a boca torcida em angústia, o cabelo estava queimado, e a cara mostrava-se negra e fumegante onde o ouro derretido lhe escorrera pela testa e bochechas e para dentro dos olhos.
— Tu estás morto — disse Dany.
Assassinado. Embora os lábios dele não chegassem a mexer-se, sem que soubesse como ela conseguia ouvir a sua voz, sussurrando-lhe ao ouvido. Não chegaste a fazer luto por mim, irmã. É duro morrer sem ser chorado
— Em tempos amei-te.
Em tempos, disse ele, com tanta amargura que a fez estremecer. Tu estavas destinada a ser minha mulher, a dar-me filhos com cabelo prateado e olhos purpúreos, para manter o sangue do dragão puro. Tomei conta de ti. Ensinei-te quem eras. Alimentei-te. Vendi a coroa da nossa mãe para te manter alimentada.
— Magoavas-me. Assustavas-me.
Só quando despertavas o dragão. Eu amava-te.
— Tu vendeste-me. Traíste-me.
Não. A traidora foste tu. Viraste-te contra mim, contra o teu próprio sangue. Eles enganaram-me. O cavalo do teu marido e os seus selvagens fedorentos. Eram aldrabões e mentirosos. Prometeram-me uma coroa dourada, e deram-me isto. Tocou o ouro derretido que lhe escorria pela cara, e fumo ergueu-se do seu dedo.
— Podias ter obtido a tua coroa — disse-lhe Dany. — O meu sol-e-estrelas tê-la-ia conquistado para ti, se ao menos tivesses esperado.
Esperei o suficiente. Esperei a vida inteira. Era o rei deles, o seu legítimo rei. Riram-se de mim.
— Devias ter ficado em Pentos com o Magíster Illyrio. O Khal Drogo tinha de me apresentar ao dosh khaleen, mas não era preciso que viesses conosco. Essa decisão foi tua. Foi esse o teu erro.
Queres despertar o dragão, sua putinha estúpida? O khalasar de Drogo era meu. Eu comprei-lho, cem mil guerreiros. Paguei por eles com a tua virgindade.
— Tu nunca compreendeste. Os dothraki não compram nem vendem. Dão presentes e recebem-nos. Se tivesses esperado...
Eu esperei. Pela minha coroa, pelo meu trono, por ti. Todos aqueles anos, e tudo o que obtive foi uma panela de ouro derretido. Porque foi a ti que eles deram os ovos de dragão? Deviam ter sido meus. Se eu tivesse tido um dragão, teria ensinado ao mundo o significado do nosso lema. Viserys desatou a rir, até que o queixo lhe caiu da cara, a fumegar, e sangue e ouro derretido lhe escorreram da boca.
Quando despertou, arquejante, tinha as coxas luzidias de sangue.
Por um momento não se apercebeu do que era. O mundo tinha apenas começado a clarear, e a erva alta restolhava suavemente ao vento. Não, nor favor, deixai-me dormir um pouco mais. Estou tão cansada. Tentou voltar a enterrar-se sob a pilha de erva que arrancara quando se fora deitar. Alguns dos caules pareceram-lhe húmidos. Teria voltado a chover? Sentou-se, com medo de se ter sujado enquanto dormia. Quando trouxe os dedos à cara, sentiu neles o cheiro do sangue. Será que estou a morrer? Depois viu o pálido crescente de Lua, flutuando bem alto acima da erva, e ocorreu-lhe que aquilo não passava do seu sangue de lua.
Se não estivesse tão doente e assustada, isso podia ter sido para ela um alívio. Mas em vez disso desatou a tremer violentamente. Esfregou os dedos na terra e agarrou uma mancheia de erva para se limpar entre as pernas. O dragão não chora. Estava a sangrar, mas era só sangue de mulher. No entanto, a Lua ainda é só um crescente. Como pode ser? Tentou lembrar-se da última vez que sangrara. Na última Lua cheia? Na outra antes? Na anterior a essa? Não, não pode ter sido assim há tanto tempo.
— Eu sou do sangue do dragão — disse à erva, em voz alta.
Foste, sussurrou a erva em resposta, até acorrentares os teus dragões na escuridão.
— Drogon matou uma rapariguinha. O nome dela era... o nome dela... — Dany não se conseguia lembrar do nome da criança. Isso entristeceu-a tanto que podia ter chorado, se todas as suas lágrimas não tivessem sido queimadas. — Eu nunca terei uma rapariguinha. Era a Mãe dos Dragões.