As Graças apresentaram uma cadeira de marfim e uma bacia dourada. Segurando delicadamente o tokar a fim de não pisar as suas fímbrias, Daenerys Targaryen sentou-se no sumptuoso assento de veludo da cadeira e Hizdahr zo Loraq pôs-se de joelhos, descalçou-lhe as sandálias e lavou-lhe os pés enquanto cinquenta eunucos cantavam e dez mil olhos observavam.
Tem umas mãos gentis, matutou ela, enquanto óleos tépidos e odoríferos lhe escorriam por entre os dedos. Se também tiver um coração gentil, posso acabar por gostar dele com o tempo.
Depois ficou com os pés limpos, Hizdahr secou-os com uma toalha suave, voltou a calçar-lhe as sandálias e ajudou-a a pôr-se em pé. De mãos dadas, seguiram a Graça Verde para dentro do templo, onde o ar estava pesado de incenso e os deuses de Ghis estavam envoltos em sombras nos seus nichos.
Quatro horas mais tarde voltaram a sair como marido e mulher, presos pelos pulsos e tornozelos com correntes de ouro amarelo.
JON
A Rainha Selyse caiu sobre Castelo Negro com a filha e o bobo da filha, as criadas e damas de companhia, e uma comitiva de cinquenta cavaleiros, espadas ajuramentadas e homens-de-armas. Todos homens da rainha, sabia Jon Snow. Podem estar ao serviço de Selyse, mas quem servem é Melisandre.
A sacerdotisa vermelha avisara-o da sua vinda, quase um dia antes da chegada do corvo de Atalaialeste com a mesma mensagem.
Encontrou-se com o grupo da rainha junto dos estábulos, acompanhado pelo Cetim, por Bowen Marsh e por meia dúzia de guardas vestidos com longos mantos negros. Nunca poderia apresentar-se àquela rainha sem uma comitiva sua, se metade do que se dizia dela era verdade. Podia confundi-lo com um moço de estrebaria e entregar-lhe as rédeas do cavalo.
As neves tinham finalmente partido para sul, dando-lhes uma folga.
Havia até um vestígio de calor no ar quando Jon Snow caiu sobre um joelho perante a rainha sulista.
— Vossa Graça. Castelo Negro dá as boas-vindas a vós e aos vossos.
A Rainha Selyse olhou-o do alto.
— Agradeço. Acompanhai-me, por favor, ao vosso senhor comandante.
— Os meus irmãos escolheram-me para essa honra. Sou Jon Snow.
— Vós? Disseram que éreis jovem, mas… — A cara da Rainha Selyse era pálida e macilenta. Usava uma coroa de ouro vermelho com pontas em forma de chamas, uma gémea da usada por Stannis. — … podeis erguer-vos, Lorde Snow. Esta é a minha filha, Shireen.
— Princesa. — Jon inclinou a cabeça. Shireen era uma rapariga desa-jeitada, tornada ainda mais feia pela escamagris que lhe deixara o pescoço e parte da cara rígida, cinzenta e estalada.
— Eu e os meus irmãos estamos ao vosso serviço — disse à rapariga.
Shireen enrubesceu.
— Obrigada, senhor.
— Creio que conheceis o meu parente, Sor Axell Florent — prosseguiu a rainha.
— Só por corvo. — E por relatórios. As cartas que recebia de Atalaialeste-do-Mar tinham bastante a dizer sobre Axell Florent, e muito pouco era bom. — Sor Axell.
— Lorde Snow. — Homem robusto, Florent tinha pernas curtas e um peito largo. Pelos ásperos cobriam-lhe as bochechas e o maxilar e projeta-vam-se-lhe das orelhas e narinas.
— Os meus leais cavaleiros — prosseguiu a Rainha Selyse. — Sor Narbert, Sor Benethon, Sor Brus, Sor Patrek, Sor Dorden, Sor Malegorn, Sor Lambert, Sor Perkin. — Os notáveis fizeram vénias, cada um de sua vez. A rainha não perdeu tempo a nomear o bobo, mas os badalos no seu chapéu provido de hastes e os retalhos tatuados nas entufadas bochechas tornavam-no difícil de ignorar. Cara-Malhada. As cartas de Cotter Pyke também o mencionavam. Pyke afi rmava que era um simplório.
Então, a rainha chamou com um gesto outro curioso membro da sua comitiva: um alto e esguio varapau, cuja altura era acentuada por um extravagante chapéu de três plataformas de feltro purpúreo.
— E aqui temos o honrado Tycho Nestoris, um emissário do Banco de Ferro de Bravos, que veio negociar com Sua Graça, o Rei Stannis.
O banqueiro tirou o chapéu e fez uma profunda vénia.
— Senhor comandante. Agradeço-vos, e aos vossos irmãos, pela vossa hospitalidade. — Falava o idioma comum sem falhas, com não mais que um ligeiríssimo vestígio de sotaque. Quinze centímetros mais alto do que Jon, o bravosiano ostentava uma barba fi na como uma corda que lhe brotava do queixo e quase chegava à cintura. O trajo era de um púrpura escuro, guarnecido de arminho. Um colarinho alto e rígido enquadrava-lhe a cara estreita. — Espero que não sejamos para vós demasiado inconvenientes.
— De modo algum, senhor. Sois muito bem-vindo. — Mais bem-vindo do que esta rainha, em boa verdade. Cotter Pyke enviara um corvo a avisar sobre a vinda do banqueiro. Jon Snow em pouco mais pensara desde então.
Jon voltou a virar-se para a rainha.
— Os aposentos reais na Torre do Rei foram preparados para Vossa Graça, durante todo o tempo que desejardes passar connosco. Este é o nosso Senhor Intendente, Bowen Marsh. Arranjará alojamento para os vossos homens.
— Que bondade a vossa terdes arranjado espaço para nós. — As palavras da rainha eram bastante corteses, embora o seu tom de voz dissesse: Não é mais do que o teu dever, e é melhor que esses aposentos me agradem. —
Não passaremos muito tempo convosco. Alguns dias, no máximo. É nossa intenção avançar para os nossos novos domínios em Fortenoite assim que estivermos repousados. A viagem desde Atalaialeste foi fatigante.
— Como quiserdes, Vossa Graça — disse Jon. — Tenho a certeza de que deveis ter frio e fome. Uma refeição quente aguarda-vos na nossa sala comum.
— Muito bem. — A rainha olhou o pátio em volta. — Mas primeiro desejamos trocar impressões com a Senhora Melisandre.
— Claro, Vossa Graça. Os seus aposentos também ficam na Torre do Rei. Por aqui, por favor. — A Rainha Selyse anuiu com a cabeça, pegou na mão da filha e autorizou-o a indicar-lhes o caminho para fora dos estábulos.
Sor Axell, o banqueiro bravosiano e o resto do grupo dela seguiram-nos, como outros tantos patinhos vestidos de lã e peles.
— Vossa Graça — disse Jon Snow — os meus construtores fi zeram tudo o que puderam para deixar Fortenoite pronto para vos receber… mas muito do castelo permanece em ruínas. É um castelo grande, o maior da Muralha, e só conseguimos restaurá-lo em parte. Talvez estivésseis mais confortável em Atalaialeste-do-Mar.
A Rainha Selyse soltou uma fungadela.
— Estamos fartos de Atalaialeste. Não gostámos daquilo por lá. Uma rainha deve ser soberana sob o seu telhado. Achámos o vosso Cotter Pyke um homem canhestro e desagradável, quezilento e avaro.
Devias ouvir o que Cotter diz de ti.
— Lamento sabê-lo, mas temo que Vossa Graça vá achar as condições em Fortenoite ainda menos do vosso agrado. Estamos a falar de uma fortaleza, não de um palácio. É um lugar sombrio e frio. Ao passo que Atalaialeste…
— Atalaialeste não é seguro. — A rainha pôs uma mão no ombro da filha. — Esta é a verdadeira herdeira do rei. Shireen sentar-se-á um dia no Trono de Ferro e governará os Sete Reinos. Tem de ser protegida do mal, e será em Atalaialeste que se dará o ataque. Esse Fortenoite é o lugar que o meu marido escolheu para os nossos domínios e será aí que habitaremos.
Nós… oh!
Uma enorme sombra saiu de trás da casca da Torre do Senhor Comandante. A Princesa Shireen soltou um guincho, e três dos cavaleiros da rainha arquejaram em uníssono. Outro praguejou.