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— Que os Sete nos salvem — disse, esquecendo-se por completo do seu novo deus vermelho com o choque.

— Não tenhais medo — disse-lhes Jon. — Não há nele qualquer maldade, Vossa Graça. Este é o Wun Wun.

— Wun Weg Wun Dar Wun. — A voz do gigante estrondeava como um pedregulho a cair pela vertente de uma montanha. Caiu de joelhos à frente deles. Mesmo ajoelhado erguia-se acima dos outros. — Ajoelhar rainha. Pequena rainha. — Palavras que Couros lhe ensinara, sem dúvida.

Os olhos da Princesa Shireen ficaram tão grandes como pratos de jantar.

— É um gigante! Um gigante real e verdadeiro, como os das histórias.

Mas porque é que fala desta maneira esquisita?

— Ele só conhece algumas palavras do idioma comum, por enquanto

— disse Jon. — Na terra deles, os gigantes falam o idioma antigo.

— Posso tocar-lhe?

— É melhor não — avisou a mãe. — Olha para ele. Uma criatura nojenta. — A rainha virou a carranca para Jon. — Lorde Snow, que está esta criatura bestial a fazer do nosso lado da Muralha?

— Wun Wun é um hóspede da Patrulha da Noite, tal como vós.

A rainha não gostou da resposta. Os seus cavaleiros também não. Sor Axell fez uma careta de repugnância, Sor Brus soltou um risinho nervoso, Sor Narbert disse:

— Foi-me dito que todos os gigantes estavam mortos.

— Quase todos. — Ygritte chorou por eles.

— Na escuridão, os mortos estão a dançar. — O Cara-Malhada mexeu os pés num grotesco passo de dança. — Eu sei, eu sei, hei hei hei. — Em Atalaialeste alguém lhe fizera um manto de retalhos de peles de castor, de ovelha e de coelho. O chapéu exibia hastes, penduradas das quais havia campainhas, e longas abas de pele de esquilo que pendiam sobre as orelhas.

Todos os passos que dava punham-nas a retinir.

Wun Wun olhou-o de boca aberta, fascinado, mas quando o gigante estendeu a mão para ele, o bobo afastou-se aos saltos, a cantarolar.

— Oh não, oh não, oh não. — Isso fez Wun Wun pôr-se em pé. A rainha agarrou na Princesa Shireen e puxou-a para trás, os cavaleiros levaram as mãos às espadas, e o Cara-Malhada recuou alarmado, perdeu o equilíbrio e esparramou-se de traseiro num monte de neve.

Wun Wun desatou a rir. O riso de um gigante era capaz de envergonhar o rugido de um dragão. O Cara-Malhada tapou as orelhas, a Princesa Shireen encostou a cara às peles da mãe, e o mais ousado dos cavaleiros da rainha avançou, de aço na mão. Jon ergueu um braço para lhe bloquear o caminho.

— Vós não quereis enfurecê-lo. Embainhai o aço, sor. Couros, leva o Wun Wun de volta para a Torre de Hardin.

— Comer agora, Wun Wun? — perguntou o gigante.

— Comer agora — concordou Jon. Ao Couros disse: — Eu mando um barril de legumes para ele e carne para ti. Acende uma fogueira.

Couros fez um sorriso.

— Acenderei, senhor, mas a Torre de Hardin está um gelo. O senhor pode mandar também um pouco de vinho para nos aquecer?

— Para ti. Para ele não. — Wun Wun nunca provara vinho até chegar a Castelo Negro, mas depois de provar ganhara um gigantesco gosto pela bebida. Gosto demasiado. Jon tinha o sufi ciente com que lutar naquele momento sem acrescentar um gigante bêbado à confusão. Voltou a virar-se para os cavaleiros da rainha. — O senhor meu pai costumava dizer que um homem não deve nunca puxar pela espada, a menos que pretenda usá-la.

— Usá-la era a minha intenção. — O cavaleiro estava escanhoado e queimado pelo vento; sob um manto de peles brancas usava um sobretudo de pano de prata decorado com uma estrela azul de cinco pontas. — Fui levado a crer que a Patrulha da Noite defendia o reino contra tais monstros.

Ninguém falou em tê-los como animais de estimação.

Outro maldito idiota do sul.

— E vós sois…?

— Sor Patrek da Montanha Real, se aprouver ao senhor.

— Não sei como cumpris os direitos de hóspede na vossa montanha, sor. No Norte consideramo-los sagrados. Wun Wun é aqui um hóspede.

Sor Patrek sorriu.

— Dizei-me, Senhor Comandante, se os Outros aparecerem planeais oferecer-lhes hospitalidade também a eles? — O cavaleiro virou-se para a sua rainha. — Vossa Graça, aquilo ali é a Torre do Rei, se não me engano.

Posso ter a honra?

— Como quiserdes. — A rainha deu-lhe o braço e passou pelos homens da Patrulha da Noite sem lhes dirigir um segundo olhar.

Aquelas chamas na coroa são a coisa mais quente que tem.

— Lorde Tycho — chamou Jon. — Um momento, por favor.

O bravosiano parou.

— Eu não sou nenhum lorde. Só um simples criado do Banco de Ferro de Bravos.

— Cotter Pyke informou-me de que chegastes a Atalaialeste com três navios. Um galeão, uma galé e uma coca.

— É verdade, senhor. A travessia pode ser perigosa nesta estação. Um navio sozinho pode ir a pique, enquanto três juntos podem auxiliar-se uns aos outros. O Banco de Ferro é sempre prudente em tais assuntos.

— Antes de partirdes talvez possamos ter uma conversa sossegada?

— Estou ao vosso serviço, senhor comandante. E em Bravos dizemos que não há melhor altura do que o presente. Convirá?

— É tão boa altura como qualquer outra. Retemperamo-nos no meu aposento privado, ou gostaríeis de ver o topo da Muralha?

O banqueiro olhou para cima, para onde o gelo se erguia vasto e claro contra o céu.

— Temo que faça um frio de rachar lá em cima.

— Faz frio, e também vento. Aprende-se a caminhar bem longe da borda. Já houve homens que foram soprados da Muralha abaixo. Ainda assim, a Muralha é diferente de tudo o resto na terra. Podeis não voltar a ter oportunidade de a ver.

— Sem dúvida irei arrepender-me da minha cautela no meu leito de morte, mas depois de um longo dia na sela uma sala quente parece-me preferível.

— Seja então o meu aposento privado. Cetim, um pouco de vinho com especiarias, por favor.

Os aposentos de Jon por trás do armeiro estavam bastante sossegados, ainda que não estivessem particularmente quentes. A lareira apagara-se algum tempo antes; Cetim não era tão diligente a alimentá-la como o Edd Doloroso fora. O corvo de Mormont cumprimentou-os com um guincho de “Grão!” Jon pendurou o manto. — Procurais Stannis, correto?

— Correto, senhor. A Rainha Selyse sugeriu que talvez possamos enviar uma mensagem para Bosque Profundo, por corvo, a fim de informar Sua Graça de que o aguardo em Fortenoite. O assunto que pretendo colocar à sua consideração é demasiado delicado para ser confi ado a cartas.

— Uma dívida. — Que mais poderá ser? — Uma dívida dele? Ou do irmão?

O banqueiro apertou os dedos uns contra os outros.

— Não seria apropriado da minha parte discutir as dívidas do Lorde Stannis ou a falta delas. Quanto ao Rei Robert… foi realmente nosso o prazer de prestar assistência a Sua Graça nas suas necessidades. Enquanto Robert viveu, tudo esteve bem. Agora, contudo, o Trono de Ferro cessou todos os pagamentos.

Poderão os Lannister ser realmente tão tolos?

— Não podeis pretender responsabilizar Stannis pelas dívidas do irmão.

— As dívidas cabem ao Trono de Ferro — declarou Tycho — e quem quer que se sente nessa cadeira tem de as pagar. Uma vez que o jovem Rei Tommen e os seus conselheiros se tornaram tão obstinados, pretendemos abordar o assunto junto do Rei Stannis. Se ele se mostrar mais merecedor da nossa confiança, seria naturalmente com grande prazer que lhe prestaríamos toda a ajuda de que necessitasse.

— Ajuda — gritou o corvo. — Ajuda, ajuda, ajuda.

Jon concluíra muito daquilo no momento em que soubera que o Banco de Ferro mandara um emissário à Muralha.

— Segundo as últimas notícias que recebemos, Sua Graça marcha sobre Winterfell para confrontar o Lorde Bolton e os seus aliados. Podeis procurá-lo lá se quiserdes, embora isso acarrete um risco. Podíeis dar por vós enredado nesta guerra.

Tycho baixou a cabeça.