— Lote noventa e nove — gritou o leiloeiro. — Um guerreiro.
A rapariga fora vendida depressa e estava a ser embrulhada para o seu novo dono, apertando a roupa a pequenos seios de pontas cor-de-rosa. Dois vendedores de escravos arrastaram Jorah Mormont para o estrado a fim de ocupar o lugar dela. O cavaleiro estava nu à exceção de uma tanga, com as costas em carne viva por causa do chicote e a cara tão inchada que estava quase irreconhecível. Grilhetas prendiam-lhe os pulsos e os tornozelos. Um saborzinho da refeição que cozinhou para mim, pensou Tyrion, mas descobriu que não conseguia retirar nenhum prazer da desgraça do grande cavaleiro.
Mesmo agrilhoado, Mormont parecia perigoso, um volumoso brutamontes com braços grossos e ombros inclinados. Todos aqueles pelos ásperos e escuros que tinha no peito faziam com que parecesse mais animal do que homem. Tinha ambos os olhos enegrecidos, dois poços escuros naquela cara grotescamente inchada. Numa bochecha ostentava uma marca: uma máscara de demónio.
Quando os esclavagistas abordaram o Selaesori Qhoran, Sor Jorah enfrentara-os de espada na mão, matando três antes de o dominarem. Os camaradas desses três homens tê-lo-iam matado de bom grado, mas o capitão proibira-o; um guerreiro valia sempre boa prata. E assim Mormont fora acorrentado a um remo, espancado quase até à morte, deixado à fome e marcado.
— Este é grande e forte — declarou o leiloeiro. — Tem genica com fartura. Dará um bom espetáculo nas arenas de combate. Quem quer começar às trezentas?
Ninguém quis.
Mormont não prestou atenção à multidão variegada; os seus olhos estavam fixos para lá das linhas de cerco, na cidade distante com as antigas muralhas de tijolos multicoloridos. Tyrion conseguia ler aquele olhar tão facilmente como um livro: tão perto, e no entanto tão distante. O pobre desgraçado regressara tarde demais. Os guardas do cercado tinham-lhes dito, rindo, que Daenerys Targaryen estava casada. Tomara como seu rei um esclavagista meereenês, tão rico como nobre, e quando a paz fosse assinada e selada, as arenas de combate de Meereen voltariam a abrir. Outros escravos insistiam que os guardas estavam a mentir, que Daenerys Targaryen nunca faria a paz com esclavagistas. Chamavam-lhe Mhysa. Alguém lhe disse que isso queria dizer Mãe. Em breve a rainha prateada sairia da sua cidade, esmagaria os yunkaitas e quebrar-lhes-ia as correntes, sussurravam uns com os outros.
E depois vai fazer para todos nós uma torta de limão e beija-nos os dói-dóis e cura-os, pensou o anão. Não tinha qualquer confiança em salvamentos régios. Se fosse necessário, trataria pessoalmente de os salvar. Os cogumelos enfiados na ponta da bota deviam chegar para ele e para Centa- va. Trincão e a Porca Bonita teriam de cuidar de si próprios.
O Amasseca continuava ainda a desbobinar a lição às novas presas do seu amo.
— Fazei tudo o que vos disserem e nada mais, e vivereis como senhor- zinhos, apaparicados e adorados — prometeu. — Se desobedecerdes... mas vós nunca faríeis isso, pois não? Os meus queridinhos não fariam tal coisa. — Estendeu a mão e beliscou Centava na bochecha.
— Então duzentos — disse o leiloeiro. — Um grande bruto como este, vale três vezes mais. Que guarda-costas dará! Nenhum inimigo se atreverá a molestar-vos!
— Vinde, meus amiguinhos — disse o Amasseca — eu levo-vos para a vossa nova casa. Em Yunkai vivereis na pirâmide dourada de Qaggaz e jantareis em pratos de prata, mas aqui vivemos simplesmente, nas humildes tendas de soldados.
— Quem me quer dar cem? — gritou o leiloeiro.
Aquilo finalmente ocasionou uma licitação, embora fosse apenas cinquenta pratas. O licitador era um homem magro com um avental de couro.
— E uma — disse a velha do tokar violeta.
Um dos soldados içou Centava para cima do carro de mulas.
— Quem é a velha? — perguntou-lhe o anão.
— Zahrina — disse o homem. — Dedos sovinas. Carne para heróis. O vosso amigo morto depressa.
Ele não era amigo meu. Mas Tyrion Lannister deu por si a virar-se para Amasseca e a dizer:
— Não podes deixar que ela fique com ele.
Amasseca olhou-o de viés.
— Que ruído é esse que estás a fazer?
Tyrion apontou.
— Aquele faz parte do nosso espetáculo. O urso e a bela donzela. Jorah é o urso, Centava é a donzela, eu sou o bravo cavaleiro que a salva. Danço por aí e bato-lhe nos tomates. Muito engraçado.
O capataz olhou o estrado de viés.
— Ele? — A licitação por Jorah Mormont chegara às duzentas pratas.
— E uma — disse a velha no tokar violeta.
— O vosso urso. Estou a ver. — O Amasseca atravessou apressadamente a multidão, dobrou-se sobre o enorme yunkaita deitado na liteira, murmurou-lhe ao ouvido. O amo anuiu, fazendo oscilar os queixos, depois ergueu o leque.
— Trezentas — gritou numa voz asmática.
A velha pôs-se hirta e virou costas.
— Porque foi que fizeste aquilo? — perguntou Centava, no idioma comum.
Boa pergunta, pensou Tyrion. Porque foi que o fiz?
— O teu espetáculo estava a tornar-se aborrecido. Todos os saltimbancos precisam de um urso dançarino.
A rapariga deitou-lhe um olhar reprovador, depois retirou-se para o interior da carroça e sentou-se com os braços em volta de Trincão, como se o cão fosse o único verdadeiro amigo que tinha no mundo. E talvez seja.
O Amasseca regressou com Jorah Mormont. Dois dos soldados escravos do seu amo atiraram-no para cima do carro de mulas, entre os anões. O cavaleiro não resistiu. Perdeu toda a vontade de lutar quando ouviu dizer que a sua rainha tinha casado, compreendeu Tyrion. Uma palavra murmurada fizera aquilo de que punhos, chicotes e mocas não tinham sido capazes; quebrara-o. Devia ter deixado que a velha ficasse com ele. Vai ser tão útil como mamilos numa placa de peito.
O Amasseca subiu para a carroça e pegou nas rédeas, e partiram pelo acampamento sitiante até ao recinto do novo amo, o nobre Yezzan zo Qag- gaz. Quatro soldados escravos marchavam ao lado deles, dois de cada lado da carroça.
Centava não chorou, mas tinha os olhos vermelhos e infelizes, e não os tirou de Trincão. Será que ela pensa que tudo isto desaparece se não olhar?
Sor Jorah Mormont não olhava para nada nem para ninguém. Mantinha-se enrolado, a cismar, preso pelas grilhetas.
Tyrion olhava para tudo e todos.
O acampamento yunkaita não era um acampamento, mas uma centena de acampamentos erguidos lado a lado num crescente em volta das muralhas de Meereen; uma cidade de seda e lona com as suas próprias avenidas e vielas, tabernas e prostitutas, bons e maus bairros. Entre as linhas de cerco e a baía tinham brotado tendas como cogumelos amarelos. Algumas eram pequenas e mal feitas, não passavam de um bocado de velha lona manchada para manter o sol e a chuva afastados, mas ao lado delas erguiam-se tendas de aquartelamento suficientemente grandes para nelas dormir uma centena de homens, e pavilhões de seda grandes como palácios, com harpias a cintilar no topo dos mastros. Alguns acampamentos eram ordeiros, com as tendas dispostas em círculos concêntricos em volta de uma fogueira, com armas e armaduras empilhadas em volta do anel interior e linhas para cavalos no exterior. Noutros, parecia reinar o puro caos.
As planícies secas e ressequidas em volta de Meereen eram planas e nuas e sem árvores por longas léguas, mas os navios yunkaitas tinham trazido madeira e peles do sul, em quantidade suficiente para construir seis enormes trabucos. Estavam dispostos de três lados da cidade, todos menos o lado do rio, rodeados por pilhas de pedras partidas e barris de piche e resina apenas à espera de um archote. Um dos soldados que caminhava junto da carroça viu para onde Tyrion estava a olhar e disse-lhe com orgulho que a cada um dos trabucos fora dado um nome: Quebra-dragões, Prostituta, Filha da Harpia, Irmã Malvada, Fantasma de Astapor, Punho de Mazdhan. Erguendo-se acima das tendas a uma altura de doze metros, os trabucos eram os principais pontos de referência do acampamento dos sitiantes.