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—    ... deu-lhe as tetas de Barba. — Jaime riu-se. — Como foi que começou tudo isto entre Blackwood e Bracken? Está escrito?

—   Está, senhor — disse o rapaz — mas algumas das histórias foram redigidas pelos meistres deles e outras pelos nossos, séculos depois dos acontecimentos que pretendem historiar. Vem da Era dos Heróis. Os Bla­ckwood eram reis nesses tempos. Os Bracken eram pequenos senhores, re- nomados pela criação de cavalos. Em vez de pagarem ao seu rei o que lhe era devido, usaram o ouro que os cavalos lhes trouxeram para contratar espadas e o derrubar.

—   Quando aconteceu tudo isso?

—   Quinhentos anos antes dos Ândalos. Mil, se se puder crer na His­tória Verdadeira. Só que ninguém sabe quando foi que os Ândalos atra­vessaram o mar estreito. A História Verdadeira diz que se passaram quatro mil anos desde então, mas alguns meistres afirmam que foram só dois. A partir de um certo ponto, todas as datas se tornam nebulosas e confusas, e a clareza da história transforma-se na bruma da lenda.

O Tyrion havia de gostar deste. Podiam conversar do ocaso à alvorada, discutindo sobre livros. Por um momento, a amargura que sentia relativa­mente ao irmão foi esquecida, até se lembrar do que o Duende fizera.

—   Então estais a lutar por causa de uma coroa que um de vós roubou ao outro quando os Casterly ainda dominavam Rochedo Casterly, é essa a raiz da coisa? A coroa de um reino que já não existe há milhares de anos? — Soltou um risinho. — Tantos anos, tantas guerras, tantos reis... julgar-se-ia que alguém teria feito uma paz.

—   Alguém fez, senhor. Muitos alguéns. Tivemos cem pazes com os Bracken, muitas delas seladas com casamentos. Há sangue Blackwood em todos os Bracken e sangue Bracken em todos os Blackwood. A Paz do Ve­lho Rei durou meio século. Mas depois rebentou uma querela fresca qual­quer, e as velhas feridas abriram-se e recomeçaram a sangrar. O meu pai diz que é sempre assim que acontece. Enquanto os homens recordarem as desfeitas cometidas contra os seus antepassados, nenhuma paz durará. Portanto continuamos século após século, nós a odiarmos os Bracken e eles a odiarem-nos a nós. O meu pai diz que nunca haverá fim para isto.

—   Pode haver.

—   Como, senhor? Os velhos ferimentos nunca saram, diz o meu pai.

—    O meu pai também tinha um ditado. Nunca firas um inimigo quando podes matá-lo. Os mortos não reclamam vingança.

—  Os seus filhos reclamam — disse Hoster como quem pede descul­pa.

—  Não se também se matar os filhos. Interroga os Casterly sobre isso, se duvidas de mim. Pergunta ao Senhor e à Senhora Tarbeck, ou aos Reyne de Castamere. Pergunta ao Príncipe de Pedra do Dragão. — Por um instan­te, as profundas nuvens vermelhas que coroavam as colinas ocidentais fize­ram-lhe lembrar os filhos de Rhaegar, todos envoltos em mantos carmesim.

—   Foi por isso que matastes todos os Stark?

—   Nem todos — disse Jaime. — As filhas do Lorde Eddard estão vi­vas. Uma acabou de casar. A outra... — Brienne, onde estás? Encontraste-a? — ... se os deuses forem bons, irá esquecer-se de que era uma Stark. Vai casar com um ferreiro corpulento qualquer ou com um estalajadeiro de cara gorda, encher-lhe a casa de filhos e nunca precisar de temer que um cavaleiro possa aparecer para lhes esmagar as cabeças contra uma parede.

—   Os deuses são bons — disse o refém, com incerteza.

Continua a acreditar nisso. Jaime deixou que Honra lhe sentisse as esporas.

Pataqueira revelou ser uma aldeia muito maior do que ele esperara. A guerra também passara por ali; pomares enegrecidos e os esqueletos es­turricados de casas quebradas testemunhavam-no. Mas por cada casa em ruínas outras três tinham sido reconstruídas. Através do ocaso azul que se aprofundava, Jaime vislumbrou colmo fresco em cima de uma vintena de telhados e portas feitas de madeira nova em bruto. Entre um charco de pa­tos e uma forja de ferreiro, deparou com a árvore que dava nome ao lugar, um carvalho antigo e alto. As suas raízes nodosas torciam-se para dentro e para fora da terra como um ninho de lentas serpentes castanhas, e centenas de velhas moedas de cobre tinham sido pregadas ao enorme tronco.

Peck fitou a árvore e depois as casas vazias.

—   Onde estão as pessoas?

—   Escondidas — disse-lhe Jaime.

Dentro das casas todos os fogos tinham sido apagados, mas alguns ainda fumegavam, e nenhum deles estava frio. A cabra que o Harry Quente Merrell encontrou a pastar numa horta era a única criatura viva que estava visível... mas a aldeia tinha uma fortaleza tão forte como qualquer outra das terras fluviais, com espessas muralhas de pedra com três metros e meio de altura, e Jaime sabia que seria aí que encontraria os aldeões. Esconde­ram-se atrás daquelas muralhas sempre que os atacantes chegaram, é por isso que ainda aqui está uma aldeia. E estão outra vez ali escondidos, de mim.

Cavalgou Honra até aos portões da fortaleza.

—   Vós, na fortaleza. Não vos queremos fazer qualquer mal. Somos homens do rei.

Caras apareceram na muralha por cima do portão.

—   Foram homens do rei que queimaram a nossa aldeia — gritou um homem para baixo. — Antes disso, homens do rei roubaram as nossas ove­lhas. Eram de um rei diferente, mas isso para as nossas ovelhas não importou nada. Homens do rei mataram Harsley e Sor Ormont e violaram Lacey até à morte.

—   Os meus homens não — disse Jaime. — Não abris os portões?

—   Quando vos fordes embora, abrimos.

Sor Kennos aproximou-se dele.

—   Podíamos deitar abaixo aquele portão com bastante facilidade, ou passá-lo pelo archote.

—   Enquanto eles fazem chover pedras sobre nós e nos enchem de se­tas. — Jaime abanou a cabeça. — Podia ser coisa sangrenta, e para quê? Esta gente não nos fez mal nenhum. Abrigamo-nos nas casas, mas não quero roubos. Temos as nossas próprias provisões.

Prenderam os cavalos a estacas nos baldios da aldeia enquanto uma meia lua subia no céu, e jantaram carneiro salgado, maçãs secas e quei­jo duro. Jaime comeu pouco, e partilhou um odre de vinho com Peck e o refém Hos. Tentou contar as moedas pregadas ao velho carvalho, mas eram demasiadas e perdia-lhes a conta. Que terá levado a isto? O rapaz Blackwood dir-lhe-ia se perguntasse, mas isso estragaria o mistério.

Embora a noite estivesse a ficar fria, Jaime sentia-se curiosamente sa­tisfeito. A guerra estava praticamente ganha. Pedra do Dragão e Ponta Tem­pestade cairiam bem depressa, sem dúvida, e Stannis estava praticamente acabado. Se Roose Bolton não o destruísse, o inverno fá-lo-ia.

Colocara sentinelas para se assegurar de que ninguém saía dos limites da aldeia. Também enviara batedores em redor, a fim de se certificar de que nenhum inimigo os apanhava de surpresa. Era perto da meia-noite quando dois destes cavalgaram de volta com uma mulher que tinham feito cativa.

—   Ela aproximou-se a cavalo com toda a ousadia do mundo, senhor, exigindo falar convosco.

Jaime pôs-se precipitadamente em pé.

—   Senhora. Não julgava voltar a ver-vos tão cedo. — Pela bondade dos deuses, parece dez anos mais velha do que da ultima vez que a vi. E que lhe aconteceu á cara? — Essa ligadura... fostes ferida...

—   Uma dentada. — Tocou o cabo da espada, a espada que lhe dera. Cumpridora de Promessas. — Senhor, atribuístes-me uma demanda.