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Na manhã seguinte, com a alvorada, chegou o tio.

Cersei ainda estava a comer o pequeno-almoço quando a porta se abriu e Sor Kevan Lannister entrou.

—  Deixai-nos — disse ele às carcereiras. A Septã Moelle enxotou Sco- lera e Moelle para fora e fechou a porta atrás delas. A rainha pôs-se em pé.

Sor Kevan parecia mais velho do que da última vez que o vira. Era um homem grande, largo de ombros e de cintura, com uma barba loura corta­da curta que seguia a linha do pesado maxilar, e um cabelo louro cortado curto que estava em plena retirada da sua testa. Um pesado manto de lã, tingido de carmesim, estava preso ao seu ombro com um broche dourado com a forma de uma cabeça de leão.

—  Obrigada por terdes vindo — disse a rainha.

O tio franziu o sobrolho.

—   Devíeis sentar-vos. Há coisas que tenho de vos dizer...

Cersei não queria sentar-se.

—   Continuais zangado comigo. Ouço-o na vossa voz. Perdoai-me, tio. Foi errado da minha parte atirar-vos o vinho, mas...

—    Achais que me importo com uma taça de vinho? Lancei é meu filho, Cersei. Vosso sobrinho. Se estou zangado convosco, a razão é essa. Devíeis ter cuidado dele, devíeis tê-lo guiado, devíeis ter-lhe arranjado uma rapariga promissora de boas famílias. Em vez disso...

—   Eu sei. Eu sei. — Lancei desejava-me mais do que alguma vez o desejei a ele. E ainda deseja, aposto. — Estava sozinha, fraca. Por favor. Tio. Oh, tio. E tão bom ver a vossa cara, a vossa querida, querida cara. Fiz coisas malignas, bem sei, mas não conseguia suportar que me odiás­seis. — Atirou os braços em volta dele, beijou-o na cara. — Perdoai-me. Perdoai-me.

Sor Kevan aguentou o abraço durante alguns segundos antes de fi­nalmente erguer os braços para lhe responder. O seu abraço foi curto e de­sajeitado.

—  Basta — disse, ainda com a voz monocórdica e fria. — Estais per­doada. Agora sentai-vos. Trago notícias duras, Cersei.

As palavras dele assustaram-na.

—   Aconteceu alguma coisa a Tommen? Por favor, não. Tenho tido tanto medo pelo meu filho. Ninguém me quer dizer nada. Por favor, di- zei-me que Tommen está bem.

—  Sua Graça está bem. Pergunta por vós com frequência. — Sor Ke­van pôs-lhe as mãos nos ombros, segurou-a à distância de um braço.

—  Então é Jaime? É Jaime?

—  Não. Jaime ainda está nas terras fluviais, algures.

—  Algures? — Cersei não gostou de como aquilo soava.

—                      Tomou Corvarbor e aceitou a rendição do Lorde Blackwood — disse o tio — mas no caminho de regresso a Correrrio abandonou o séquito e desapareceu com uma mulher.

—   Uma mulher? — Cersei ficou a fitá-lo, sem compreender. — Que mulher? Porquê? Para onde foram?

—  Ninguém sabe. Não tivemos mais notícias dele. A mulher pode ter sido a filha da Estrela da Tarde, a Senhora Brienne.

Ela. A rainha lembrava-se da Donzela de Tarth, uma coisa enorme, feia e desajeitada que se vestia com cota de malha masculina. Jaime nunca me abandonaria por uma tal criatura. O meu corvo não lhe chegou, caso contrário teria vindo.

—   Recebemos relatórios sobre mercenários a desembarcar por todo o sul — estava Sor Kevan a dizer. — Em Tarth, nos Degraus, no Cabo da Fúria... muito gostaria eu de saber onde Stannis foi encontrar dinheiro para contratar uma companhia livre. Não tenho força para lidar com eles, aqui não. Mace Tyrell tem, mas recusa-se a mexer-se até que este assunto com a filha fique resolvido.

Um carrasco resolveria Margaery bem depressa. Cersei não se impor­tava nem um pouco com Stannis e os seus mercenários. Os Outros que os carreguem a eles e aos Tyrell. Eles que se massacrem uns aos outros, o reino só beneficiará.

—   Por favor, tio, tirai-me daqui.

—   Como? Pela força das armas? — Sor Kevan dirigiu-se à janela e olhou para fora, franzindo o sobrolho. — Teria de transformar este lugar sa­grado num matadouro. E não tenho homens suficientes. A maior parte das nossas forças estava em Correrrio com o vosso irmão. Não tive tempo para recrutar uma nova hoste. — Voltou-se para encará-la. — Falei com Sua Alta Santidade. Ele não vos libertará até terdes expiado os vossos pecados.

—   Eu confessei.

—   O que eu disse foi expiado. Perante a cidade. Uma caminhada...

—   Não. — Sabia o que o tio se preparava para dizer, e não queria ouvi-lo. — Nunca. Dizei-lhe isso, se voltardes a conversar. Eu sou uma rai­nha, não uma rameira das docas.

—   Nenhum mal vos acontecerá. Ninguém irá tocar...

—   Não — disse ela, num tom mais penetrante. — Preteria morrer.

Sor Kevan manteve-se impassível.

—  Se é esse o vosso desejo, talvez o vejais satisfeito em breve. Sua Alta Santidade está decidido a que sejais julgada por regicídio, deicídio, incesto e alta traição.

—    Deicídio? — Cersei quase se riu. — Quando foi que matei um

deus?

—                       O Alto Septão fala pelos Sete aqui na terra. Se o atacardes estais a atacar os próprios deuses. — O tio ergueu uma mão antes de ela ter tempo de protestar. — De nada serve falar dessas coisas. Aqui não. O momento para tudo isso é no julgamento. — Olhou a cela em volta. A expressão no seu rosto era pura eloquência.

Alguém está á escuta. Mesmo ali, mesmo naquele momento, não se atrevia a falar livremente. Respirou fundo.

—   Quem irá julgar-me?

—   A Fé — disse o tio — a menos que insistais num julgamento por batalha. Nesse caso tendes de ser defendida por um cavaleiro da Guarda Real. Seja qual for o desenlace, o vosso governo terminou. Eu servirei como regente de Tommen até ele ser um homem feito. Mace Tyrell foi nomea­do Mão do Rei. O Grande Meistre Pycelle e Sor Harys Swyft continuarão como dantes, mas Paxter Redwyne é agora senhor almirante e Randyll Tarly assumiu os deveres de magistrado.

Vassalos dos Tyrell, os dois. 'Iodo o governo do reino estava a ser en­tregue aos seus inimigos, amigos e parentes da Rainha Margaery.

—  Margaery também está acusada. Ela e aquelas suas primas. Como foi que os pardais a libertaram mas a mim não?

—    Randyll Tarly insistiu. Ele foi o primeiro a chegar a Porto Real quando a tempestade rebentou, e trouxe consigo o seu exército. As rapari­gas Tyrell serão julgadas na mesma, mas o caso contra elas é fraco, Sua Alta Santidade admite-o. Todos os homens identificados como amantes da rai­nha negaram a acusação ou desdisseram-se, exceto o vosso cantor mutila­do, que parece estar meio louco. Portanto o Alto Septão deixou as raparigas à responsabilidade de Tarly, e o Lorde Randyll prestou o juramento sagrado de as apresentar a julgamento quando o momento chegar.

—  E os acusadores dela? — perguntou a rainha. — Quem os tem em seu poder?

—   Osney Kettleblack e o Bardo Azul estão aqui, por baixo do sep­to. Os irmãos Redwyne foram declarados inocentes, e Hamish, o Harpista, morreu. Os outros estão nas masmorras sob a Fortaleza Vermelha, a cargo do vosso homem, Qyburn.

Qyburn, pensou Cersei. Isso era bom, era um cordelinho, pelo me­nos, a que se podia agarrar. O Lorde Qyburn tinha-os em seu poder, e o Lorde Qyburn podia fazer maravilhas. E horrores. Ele também pode fazer horrores.