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—   Há mais, pior. Não vos ides sentar?

—   Sentar? — Cersei abanou a cabeça. O que podia ser pior? Ela ia ser julgada por alta traição, enquanto a rainhazinha e as primas se escapavam livres como passarinhos. — Dizei-me. O que é?

—   Myrcella. Recebemos graves notícias de Dome.

—   Tyrion — disse de imediato. Fora Tyrion a mandar a sua filhinha para Dorne, e Cersei enviara Sor Balon Swann para a trazer para casa. To­dos os dorneses eram serpentes, e os Martell eram os piores de todos. A Ví­bora Vermelha até tentara defender o Duende, chegara mesmo a um milí­metro de uma vitória que teria permitido que o anão escapasse à culpa pelo assassínio de Joffrey. — É ele, ele tem estado este tempo todo em Dorne, e agora capturou a minha filha.

Sor Kevan dirigiu-lhe outra carranca.

—    Myrcella foi atacada por um cavaleiro dornês chamado Gerold Dayne. Está viva, mas ferida. Ele golpeou-lhe a cara, ela... lamento... ela perdeu uma orelha.

—   Uma orelha. — Cersei fitou-o, horrorizada. Era só uma criança, a minha preciosa princesa. E era tão linda. — Ele cortou-lhe uma orelha. E o Príncipe Doran e os seus cavaleiros dorneses, onde estão? Não consegui­ram defender uma rapariguinha? Onde está Arys Oakheart?

—   Foi morto, defendendo-a. Dayne abateu-o, segundo se diz.

A rainha lembrou-se de que a Espada da Manhã fora um Dayne, mas estava há muito morto. Quem era aquele Sor Gerold, e por que motivo de­sejaria ele fazer mal à sua filha? Não conseguia tirar daquilo um sentido, a menos que...

—   Tyrion perdeu metade do nariz na Batalha da Água Negra. Gol­pear-lhe a cara, cortar uma orelha... os porcos dedinhos do Duende estão aqui por toda a parte.

—   O Príncipe Doran nada diz sobre o vosso irmão. E Balon Swann escreve que Myrcella atribui tudo àquele Gerold Dayne. Chamam-lhe Es­trela Negra.

Cersei soltou uma gargalhada amarga.

—   Chamem-lhe o que lhe chamarem, é pau-mandado do meu ir­mão. Tyrion tem amigos entre os dorneses. O Duende planeou isto desde o início. Foi Tyrion quem prometeu Myrcella ao Príncipe Trystane. Agora vejo porquê.

—   Vedes Tyrion em cada sombra.

—   Ele é uma criatura das sombras. Matou Joffrey. Matou o pai. Julgá­veis que pararia por aí? Eu temi que o Duende continuasse em Porto Real, a planear maldades contra Tommen, mas em vez disso deve ter ido para Dorne para matar primeiro Myrcella. — Cersei calcorreou toda a cela. — Tenho de estar com Tommen. Aqueles cavaleiros da Guarda Real são tão inúteis como mamilos numa placa de peito. — Virou-se para o tio. — Sor Arys foi morto, dizeis.

—   Pelas mãos do tal Estrela Negra, sim.

—   Morto, ele está morto, tendes a certeza disso?

—   Foi o que me foi dito.

—   Então há um lugar vago na Guarda Real. Tem de ser preenchido de imediato. Tommen tem de ser protegido.

—    O Lorde Tarly está a elaborar uma lista de cavaleiros valorosos para pôr à consideração do vosso irmão, mas até que Jaime reapareça...

—   O rei pode dar um manto branco a um homem. Tommen é um bom rapaz. Se lhe disserdes quem nomear, ele nomeá-lo-á.

—  E quem quereis que ele nomeie?

A rainha não tinha uma resposta pronta. O meu campeão precisará tanto cie um novo nome como de uma nova cara.

—  Qyburn há de saber. Confiai nele a respeito disto. Vós e eu tivemos as nossas divergências, tio, mas, pelo sangue que partilhamos e pelo amor que tínheis pelo meu pai, para bem de Tommen e da sua pobre irmã mu­tilada, fazei o que vos peço. Ide falar com o Lorde Qyburn em meu nome, levai-lhe um manto branco e dizei-lhe que o momento chegou.

O GUARDA DA RAINHA

— Vós éreis o homem da rainha — disse Reznak mo Reznak. — O rei dese­ja ter os seus próprios homens à sua volta quando der audiência.

Eu ainda sou o homem da rainha. Hoje, amanhã, sempre, até ao meu último suspiro ou ao dela. Barristan Selmy recusava-se a acreditar que Daenerys Targaryen estivesse morta.

Talvez fosse por isso que estava a ser posto de parte. Um por um, Hizdahr afasta-nos a todos. Belwas, o Forte, demorava-se às portas da mor­te, no templo, sob os cuidados das Graças Azuis... embora Selmy nutrisse uma certa suspeita de que estavam a terminar o serviço que aqueles ga­fanhotos com mel tinham começado. Skahaz Tolarrapada fora demitido do seu comando. Os Imaculados tinham retirado para as casernas. Jhogo, Daario Naharis, o Almirante Groleo e Herói, dos Imaculados, permane­ciam reféns dos yunkaitas. Aggo e Rakharo e o resto do khalasar da rainha tinham sido enviados para a outra margem do rio, em busca da sua rainha perdida. Até Missandei fora substituída; o rei não julgava próprio usar uma criança como arauta, sobretudo uma naatina e antiga escrava. E agora eu.

Houvera uma época em que poderia ter encarado aquela demissão como uma mancha na sua honra. Mas isso fora em Westeros. No ninho de víboras que era Meereen, a honra parecia tão tola como os retalhos de um bobo. E aquela desconfiança era mútua. Hizdahr zo Loraq podia ser con­sorte da sua rainha, mas nunca seria seu rei.

—   Se Sua Graça deseja que me afaste da corte...

—   Sua Radiância — corrigiu o senescal. — Não, não, não, estais a compreender-me mal. Sua Reverência vai receber uma delegação dos yunkaitas, para discutir a retirada dos seus exércitos. Podem pedir uma... ah... recompensa por aqueles que perderam as vidas para a fúria do dra­gão. Uma situação delicada. O rei sente que será melhor se virem um rei meereenês no trono, protegido por guerreiros meereeneses. Decerto com­preendeis tal coisa, sor.

Compreendo mais do que tu julgas.

—   Posso saber que homens Sua Graça escolheu para o protegerem?

Reznak mo Reznak fez o seu sorriso servil.

—  Temíveis combatentes, que nutrem grande amor por Sua Reverên­cia. Goghor, o Gigante. Khrazz. O Gato Malhado. Belaquo Quebra-Ossos. Todos heróis.

Todos lutadores de arena. Sor Barristan não estava surpreendido. Hozdahr zo Loraq sentava-se de forma incómoda no seu novo trono. Ti­nham-se passado mil anos desde a última vez que Meereen tivera um rei, e havia alguns, mesmo entre o sangue antigo, que pensavam que podiam ter feito uma escolha melhor do que ele. Fora da cidade estavam os yunkaitas com os seus mercenários e aliados; dentro dela havia os Filhos da Flarpia.

E os protetores do rei tornavam-se menos todos os dias. O deslize de Hizdahr com Verme Cinzento custara-lhe os Imaculados. Quando Sua Graça tentara pô-los sob o comando de um primo, como fizera com os Fe­ras de Bronze, Verme Cinzento informara o rei de que eram homens livres que só aceitavam ordens da sua mãe. Quanto aos Feras de Bronze, metade eram libertos e a outra metade tolarrapadas, cuja verdadeira lealdade podia ainda residir em Skahaz mo Kandaq. Os lutadores de arena eram o único apoio fiável do Rei Hizdahr, contra um mar de inimigos.

—  Que eles defendam Sua Graça contra todas as ameaças. — O tom de Sor Barristan não transmitia qualquer pista sobre os seus verdadeiros sentimentos; aprendera a escondê-los em Porto Real, anos antes.

—  Sua Magnificência — sublinhou Reznak mo Reznak. — Os vossos outros deveres permanecerão os mesmos, sor. Se esta paz falhar, Sua Radiância continua a desejar que comandeis as suas forças contra os inimigos da nossa cidade.

Pelo menos essa sensatez tem. Belaquo Quebra-Ossos e Goghor, o Gi­gante, podiam servir como protetores de Hizdahr, mas a ideia de algum deles a liderar um exército para a batalha era tão ridícula que o velho cava­leiro quase sorriu.

—   Estou às ordens da Sua Graça.