— Graça não — protestou o senescal. — Esse título é de Westeros. Sua Magnificência, Sua Radiância, Sua Reverência.
Sua Vaidade adequar-se-ia melhor.
— Como queirais.
Reznak lambeu os lábios.
— Então terminámos. — Daquela vez o sorriso untuoso simbolizava uma despedida. Sor Barristan retirou-se, grato por deixar para trás de si o fedor do perfume do senescal. Um homem deve cheirar a suor, não aflores.
A Grande Pirâmide de Meereen tinha duzentos e quarenta metros de altura da base à ponta. Os quartos do senescal ficavam no segundo piso. Os aposentos da rainha, e os seus, ocupavam o último. Uma longa ascensão para um homem da minha idade, pensou Sor Barristan, ao começar a subir. Fora visto a fazer aquela ascensão cinco ou seis vezes por dia, a tratar de assuntos da rainha, como as dores nos seus joelhos e ao fundo das costas podiam atestar. Chegará um dia em que já não conseguirei enfrentar estes degraus, pensou, e esse dia chegará mais cedo do que eu gostaria. Antes de o dia chegar tinha de se assegurar de que pelo menos alguns dos seus rapazes estariam prontos para tomar o seu lugar ao lado da rainha. Armá-los-ei eu próprio cavaleiros quando forem dignos, e darei um cavalo e esporas douradas a cada um.
Os aposentos reais estavam quietos e silenciosos. Hizdahr não tomara ali residência, preterindo estabelecer o seu conjunto de salas no coração da Grande Pirâmide, onde paredes de tijolo maciças o rodeavam por todos os lados. Mezzara, Miklaz, Qezza e o resto dos jovens copeiros da rainha — na verdade reféns, mas tanto Selmy como a rainha tinham ganho uma amizade tão grande por eles que lhe era difícil pensar nos pequenos dessa forma — tinham ido com o rei, ao passo que Irri e Jhiqui haviam partido com os outros dothraki. Só Missandei permanecia, um pequeno fantasma desamparado que assombrava os aposentos da rainha no ápice da pirâmide.
Sor Barristan saiu para o terraço. O céu por cima de Meereen estava da cor da pele de um cadáver, baço, branco e pesado, uma massa inteiriça de nuvens, de horizonte a horizonte. O Sol estava escondido por trás de uma muralha de nuvem. Iria pôr-se sem ser visto, tal como naquela manhã nascera sem ser visto. A noite seria quente; uma noite suada, sufocante e peganhenta, sem um sopro de ar. Havia três dias que ameaçava chover, mas nem uma gota caíra. Chuva seria um alívio. Podia ajudara lavar a cidade.
Dali conseguia ver quatro pirâmides mais pequenas, as muralhas ocidentais da cidade e os acampamentos dos yunkaitas junto das costas da Baía dos Escravos, onde uma espessa coluna de fumo oleoso se torcia para cima como uma serpente monstruosa. Os yunkaitas queimam os seus mortos, compreendeu. A égua branca galopa pelos seus acampamentos sitiantes. Apesar de tudo o que a rainha fizera, a doença espalhara-se, tanto no interior das muralhas da cidade, como no exterior. Os mercados de Meereen estavam fechados, as suas ruas vazias. O Rei Hizdahr permitira que as arenas de combate permanecessem abertas, mas o público era pouco numeroso. Os meereeneses até tinham começado a evitar o Templo das Graças, segundo se dizia.
Os esclavagistas hão de arranjar alguma maneira de culpar Daenerys também por isso, pensou Sor Barristan com amargura. Quase conseguia ouvi-los a murmurar; Grandes Mestres, Filhos da Harpia, yunkaitas, todos a dizer uns aos outros que a sua rainha estava morta. Metade da cidade acreditava nisso, apesar de por enquanto não ter coragem de dizer tais palavras em voz alta. Mas em breve terá, parece-me.
Sor Barristan sentiu-se muito cansado, muito velho. Para onde foram os anos todos? Nos últimos tempos, sempre que se ajoelhava para beber de uma lagoa calma via a cara de um estranho a fitá-lo das profundezas da água. Quando tinham aparecido aquelas rugas em volta dos seus olhos azuis-claros? Há quanto tempo teria o seu cabelo passado de luz do sol a neve? Há anos, meu velho. Há décadas.
Mas parecia ter sido no dia anterior que fora armado cavaleiro, depois do torneio em Porto Real. Ainda se lembrava do toque da espada do Rei Aegon no seu ombro, leve como um beijo de donzela. As palavras tinham-lhe ficado presas na garganta quando proferira os votos. No banquete, nessa noite, comera costeletas de javali selvagem, preparadas à moda dornesa com pimenta de dragão, tão picante que lhe fizera arder a boca, mas não conseguiria dizer o que jantara dez dias antes nem se todos os sete reinos dependessem disso. Cão cozido, provavelmente. Ou outro prato nojento qualquer, que não me soube melhor.
Não pela primeira vez, Selmy espantou-se com os estranhos fados que o tinham trazido até ali. Era um cavaleiro de Westeros, um homem das terras da tempestade e das marcas de Dome; o seu lugar era nos Sete Reinos, não ali nas costas asfixiantes da Baía dos Escravos. Vim levar Daenerys para casa. Mas perdera-a, tal como perdera o pai e o irmão dela. Até Robert. Também a ele falhei.
Talvez Hizdahr fosse mais sensato do que julgava. Há dez anos, eu teria pressentido o que Daenerys queria fazer. Há dez anos, teria sido suficientemente rápido para a impedir. Mas em vez disso permanecera confundido enquanto ela saltava para a arena, gritando o seu nome, e correndo depois inutilmente atrás dela pelas areias escarlates. Tornei-me velho e lento. Pouco admirava que Naharis troçasse dele chamando-lhe Sor Avô. Ter-se-ia Daario mexido mais depressa, se tivesse estado ao lado da rainha naquele dia? Selmy julgava saber a resposta para aquilo, embora não fosse uma resposta que lhe agradasse.
Voltara a sonhar com isso na noite anterior: Belwas de joelhos vomitando bílis e sangue, Hizdahr incentivando os matadores de dragões, homens e mulheres fugindo aterrorizados, lutando nos escadas, trepando para cima uns dos outros, gritando e guinchando. E Daenerys...
Ela tinha o cabelo em chamas. Tinha o chicote na mão e estava a gritar, e depois apareceu em cima do dragão, a voar. A areia que Drogon fizera voar quando levantara voo picara-lhe nos olhos mas, através de um véu de lágrimas, Sor Barristan vira a fera voar para fora da arena, chicoteando com as grandes asas negras os ombros dos guerreiros de bronze nas portas.
O resto soubera mais tarde. Para lá das portas estivera uma multidão compacta. Enlouquecidos pelo cheiro do dragão, cavalos tinham-se empinado, aterrorizados, escoiceando com cascos ferrados. Tanto bancas de comida como palanquins foram virados, homens foram derrubados e espezinhados. Lanças foram arremessadas, bestas disparadas. Algumas atingiram o alvo. O dragão torcera-se violentamente no ar, com os ferimentos a fumegar, a rapariga agarrada ao seu dorso. Depois, soltara o fogo.
As Feras de Bronze tinham levado o resto do dia e a maior parte da noite a recolher os cadáveres. A contagem final fora de duzentos e catorze mortos, e o triplo desse número de queimados ou feridos. Por essa altura já Drogon desaparecera da cidade, tendo sido visto pela última vez bem alto por cima do Skahazadhan, voando para norte. De Daenerys Targaryen, nenhum vestígio fora encontrado. Alguns juravam tê-la visto cair. Outros insistiam que o dragão a levara para a devorar. Enganam-se.
Sor Barristan não sabia mais sobre dragões do que as histórias que todas as crianças ouvem, mas conhecia os Targaryen. Daenerys estava montada naquele dragão, tal como Aegon montara o antigo Balerion.
— Pode estar a voar para casa — disse a si próprio, em voz alta.
— Não — murmurou uma voz suave atrás de si. — Ela não faria isso, sor. Não iria para casa sem nós.
Sor Barristan virou-se.
— Missandei. Filha. Há quanto tempo estás aí?