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Ou não seria?

O primeiro dever da Guarda Real era proteger o rei do mal ou de ameaças. Os cavaleiros brancos juravam também obedecer às ordens do rei, guardar os seus segredos, aconselhá-lo quando conselhos eram pedidos e manter-se em silêncio quando não eram, acompanhá-lo e defender o seu nome e a sua honra. Estritamente falando, cabia apenas ao rei a decisão de alargar, ou não, a proteção da Guarda Real a outros, mesmo aos de san­gue real. Alguns reis achavam ser correto e apropriado enviar membros da Guarda Real para servir e defender as suas esposas e filhos, irmãos, tias, tios e primos mais próximos ou mais afastados, e ocasionalmente servir os seus amantes e bastardos. Mas outros preferiam usar cavaleiros e homens-de-armas da sua guarda doméstica para esses fins, enquanto mantinham os seus sete como guarda pessoal, sem nunca se afastarem muito deles.

Se a rainha me tivesse ordenado que protegesse Hizdahr, eu não teria qualquer alternativa a obedecer. Mas Daenerys Targaryen nunca estabele­cera uma Guarda Real propriamente dita, nem mesmo para si própria, nem dera quaisquer ordens a respeito do consorte. O mundo era mais simples quando tinha um senhor comandante para decidir sobre assuntos destes, re­fletiu Selmy. Agora sou eu o senhor comandante e é difícil saber qual o cami­nho certo.

Quando chegou por fim ao fundo do último lanço de escadas, deu por si praticamente sozinho nos corredores iluminados por archotes do in­terior das maciças paredes de tijolo da pirâmide. As grandes portas estavam fechadas e trancadas, como previra. Quatro Feras de Bronze estavam de guarda do lado de fora dessas portas, outras quatro do lado de dentro. Foi essas que o velho cavaleiro encontrou; homens grandes, mascarados como um javali, um urso, um arganaz e uma mantícora.

—   Tudo calmo, sor — disse-lhe o urso.

—   Mantende-o assim. — Não era inédito que Sor Barristan fizesse uma ronda durante a noite, para se certificar de que a pirâmide estava em segurança.

Mais no interior da pirâmide, outras quatro Feras de Bronze tinham sido colocadas a guardar as portas de ferro que davam para o fosso onde Viserion e Rhaegal estavam acorrentados. A luz dos archotes tremeluzia nas suas máscaras; macaco, carneiro, lobo, crocodilo.

—   Eles foram alimentados? — perguntou Sor Barristan.

—   Sim, senhor — respondeu o macaco. — Uma ovelha cada um.

E durante quanto tempo continuará isso a ser suficiente? À medida que os dragões cresciam, o mesmo acontecia aos seus apetites.

Estava na altura de ir em busca do Tolarrapada. Sor Barristan pas­sou pelos elefantes e pela égua prateada da rainha, dirigindo-se ao fun­do dos estábulos. Um burro zurrou quando por ele passou, e alguns dos cavalos agitaram-se ao ver a sua lanterna. Fora isso, tudo estava escuro e silencioso.

Então, uma sombra separou-se do interior de uma baia vazia e trans­formou-se noutro Fera de Bronze, vestido com uma saia plissada negra, grevas e placa de peito musculosa.

—    Um gato? — disse Barristan Selmy, quando viu o bronze sob o capuz. Quando o Tolarrapada comandara os Feras de Bronze preferira uma máscara de cabeça de serpente, imperiosa e assustadora.

—  Os gatos vão a todo o lado — respondeu a voz familiar de Skahaz mo Kandaq. — Nunca ninguém olha para eles.

—   Se Hizdahr soubesse que estáveis aqui...

—  Quem lhe dirá? Marghaz? Marghaz sabe o que eu quero que saiba. As Feras continuam a ser minhas. Não vos esqueçais disso. — A voz do Tolarrapada estava abafada pela máscara, mas Selmy ouvia a ira que nela havia. — Tenho o envenenador.

—   Quem?

—   O pasteleiro de Hizdahr. O nome dele não significaria nada para vós. O homem não passa de uma ferramenta. Os Filhos da Harpia rapta­ram-lhe a filha e juraram que ela lhe seria devolvida, incólume, depois de a rainha estar morta. Belwas e o dragão salvaram Daenerys. Ninguém salvou a rapariga. Foi devolvida ao pai, noite cerrada, em nove bocados. Um pol­eada ano que viveu.

—   Porquê? — A dúvida roía-o. — Os Filhos pararam com as mortes. A paz de Hizdahr...

—    ... é uma impostura. A princípio não era, não. Os yunkaitas ti­nham medo da nossa rainha, dos seus Imaculados, dos seus dragões. Esta terra já antes conheceu dragões. Yurkhaz zo Yunzak tinha lido as suas his­tórias, ele sabia. Hizdahr também. Porque não uma paz? Daenerys deseja­va-a, conseguiam vê-lo. Desejava-a demasiado. Devia ter marchado para Astapor. — Skahaz aproximou-se mais. — Mas isso foi dantes. A arena mu­dou tudo. Daenerys desaparecida, Yurkhaz morto. No lugar de um velho leão, uma matilha de chacais. O Barba Sangrenta... esse não gosta de paz. E há mais. Pior. Volantis lançou a sua frota contra nós.

—  Volantis. — Selmy sentia um formigueiro na mão da espada. Fize­mos a paz com Yunkai. Não com Volantis. — Tendes a certeza?

—   A certeza. Os Sábios Mestres sabem. Os amigos deles também. A Harpia, Reznak, Hizdahr. Este rei abrirá os portões da cidade aos volantenos quando estes chegarem. Todos aqueles que Daenerys libertou serão de novo escravizados. Mesmo alguns que nunca foram escravos serão postos a ferros. Podeis acabar os vossos dias numa arena de combate, velho. Khrazz comer-vos-á o coração.

Selmy tinha a cabeça a latejar.

—   Daenerys tem de ser informada.

—   Encontrai-a primeiro. — Skahaz agarrou-lhe o antebraço. Os seus dedos eram como ferro. — Não podemos esperar por ela. Falei com os Ir­mãos Livres, com os Homens da Mãe, com os Escudos Vigorosos. Não têm confiança em Loraq. Temos de quebrar os yunkaitas. Mas precisamos dos Imaculados. O Verme Cinzento dar-vos-á ouvidos. Falai com ele.

—   Para que fim? — Ele está a falar de traição. Conspiração.

—    Sobreviver. — Os olhos do Tolarrapada eram lagoas negras por trás da máscara de gato em bronze. — Temos de atacar antes da chegada dos volantenos. Quebrar o cerco, matar os senhores dos escravos, fazer com que os mercenários deles mudem de lado. Os yunkaitas não esperarão um ataque. Tenho espiões nos acampamentos deles. Há doença, dizem, e pio­ra todos os dias. A disciplina apodreceu. Os senhores passam mais tempo bêbados do que sóbrios, empanturrando-se em banquetes, falando uns aos outros das riquezas que dividirão quando Meereen cair, brigando por pri­mazia. O Barba Sangrenta e o Príncipe Esfarrapado desprezam-se mutua­mente. Ninguém espera luta. Agora não. Acreditam que a paz de Hizdahr nos levou a adormecer.

—   Daenerys assinou essa paz — disse Sor Barristan. — Não nos cabe a nós quebrá-la sem a sua licença.

—   E se ela estiver morta? — perguntou Skahaz. — Que acontece nes­se caso, sor? Eu digo que ela quereria que protegêssemos a sua cidade. Os seus filhos.

Os filhos dela eram os libertos. Era Mhysa que lhe chamavam todos aqueles cujas correntes quebrou. "Mãe." O Tolarrapada não se enganava. Da­enerys quereria que os seus filhos fossem protegidos.

—   E Hizdahr? Continua a ser seu consorte. Seu rei. Seu marido.

—   O seu envenenador.

Será?

—   Onde estão as vossas provas?

—   A coroa que usa é prova suficiente. O trono em que se senta. Abri os olhos, velho. Era isso tudo o que desejava de Daenerys, tudo o que algu­ma vez quis. Depois de o ter, porquê partilhar o governo?