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De facto, porquê? Fizera tanto calor, lá em baixo na arena. Ainda con­seguia ver o ar a ondular por cima das areias escarlates, cheirar o sangue que jorrava dos homens que tinham morrido para divertimento da mul­tidão. E ainda conseguia ouvir Hizdahr a incentivar a sua rainha a provaios gafanhotos com mel. Estão muito saborosos... doces e picantes... mas ele próprio não tocou nem num... Selmy esfregou a têmpora. Não prestei nenhum juramento a Hizdahr zo Loraq. E mesmo que tivesse prestado, ele pôs-me de lado, como Joffrey fez.

—   Esse... esse pasteleiro, quero interrogá-lo pessoalmente. Sozinho.

—    Então é assim? — O Tolarrapada cruzou os braços ao peito. — Nesse caso está feito. Interrogai-o como quiserdes.

—   Se... se aquilo que ele tiver a dizer me convencer... se me juntar a vós neste, nesta... quero a vossa palavra de que nenhum mal acontecerá a Hizdahr zo Loraq até que... a menos que... possa ser provado que ele desempenhou um papel nisto.

—   Porque vos importais tanto com Hizdahr, velho? Se ele não é a Harpia, é o filho primogénito da Harpia.

—  Tudo o que eu sei com certeza é que é o consorte da rainha. Quero a vossa palavra a este respeito, de contrário, juro, irei opor-me a vós.

O sorriso de Skahaz era selvagem.

—  Então tendes a minha palavra. Nenhum mal acontecerá a Hizdahr até que a sua culpa seja provada. Mas quando tivermos a prova, pretendo matá-lo com as minhas próprias mãos. Quero arrancar-lhe as entranhas e mostrar-lhas antes de o deixar morrer.

Não, pensou o velho cavaleiro. Se Hizdahr conspirou para a morte da minha rainha, eu próprio tratarei dele, mas a sua morte será rápida e limpa. Os deuses de Westeros estavam distantes, mas Sor Barristan Selmy fez um momento de pausa para proferir uma prece silenciosa, pedindo à Velha para iluminar o seu caminho para a sabedoria. Pelos filhos, disse a si pró­prio. Pela cidade. Pela minha rainha.

— Eu falarei com o Verme Cinzento — disse.

O PRETENDENTE DE FERRO

O Desgosto apareceu sozinho ao nascer do dia, com as velas negras bem definidas contra os pálidos céus róseos da manhã.

Cinquenta e quatro, pensou amargamente Victarion quando o acor­daram, e ele veleja sozinho. Em silêncio, amaldiçoou o Deus da Tempestade pela sua maldade, com a raiva transformada numa pedra negra na barriga. Onde estão os meus navios?

Zarpara dos Escudos com noventa e três, da centena que em tempos havia constituído a Frota de Ferro, uma frota que não pertencia a um único senhor mas à própria Cadeira da Pedra do Mar, capitaneada e tripulada por homens de todas as ilhas. Navios mais pequenos do que os grandes dromones de guerra das terras verdes, sim, mas com o triplo do tamanho dos dracares comuns, com porões profundos e poderosos esporões, adequados para enfrentar em batalha as frotas do próprio rei.

Nos Degraus tinham embarcado cereais, carne e água doce, após a longa viagem ao largo da costa estéril e desolada de Dorne, com os seus bai­xios e remoinhos. Aí, o Vitória de Ferro capturara um gordo navio mercan­te, a grande coca Nobre Senhora, que seguia a caminho de Vilavelha via Vila Gaivota, Valdocaso e Porto Real com uma carga de bacalhau salgado, óleo de baleia e arenque de salmoura. A comida fora um acrescento bem-vindo às suas reservas. Cinco outras presas capturadas nos Estreitos Redwyne e ao longo da costa dornesa — três cocas, um galeão e uma galé — tinham feito subir a frota a noventa e nove navios.

Noventa e nove navios haviam abandonado os Degraus em três or­gulhosas frotas, com ordens para voltarem a juntar-se ao largo da ponta meridional da Ilha dos Cedros. Quarenta e cinco tinham agora chegado ao outro lado do mundo. Vinte e dois dos navios de Victarion haviam con­seguido arrastar-se até lá, três a três e quatro a quatro, por vezes sozinhos; catorze dos de Raif, o Coxo; só nove daqueles que tinham zarpado com o Raif Vermelho Stonehouse. O próprio Raif Vermelho encontrava-se entre os desaparecidos. A esse número, a frota acrescentara nove novas presas capturadas nos mares, portanto a soma era cinquenta e quatro... mas os navios capturados eram cocas e barcos de pesca, navios mercantes e de es­cravos, não navios de guerra. Em batalha, seriam fracos substitutos para os navios perdidos da Frota de Ferro.

O último navio a aparecer tinha sido o Desgraça da Donzela, três dias antes. No dia anterior a esse, três navios tinham chegado juntos do sul; o cativo Nobre Senhora, arrastando-se entre o Alimenta-Corvos e o Beijo de Ferro. Mas no dia anterior e no outro antes desse não houvera nada, e antes só tinham chegado a Jeyne Decapitada e o Medo, depois de mais dois dias de mares vazios e céus sem nuvens após Raif, o Coxo, ter aparecido com os restos do seu esquadrão. Lorde Quellon, Viúva Branca, Lamentação, An­gústia, Leviatã, Senhora de Ferro, Vento do Ceifeiro, e Martelo de Guerra, com mais seis navios atrás, dois dos quais devastados pela tempestade e sob reboque.

—   Tempestades — resmungara Raif, o Coxo, quando viera ter com Victarion. — Três grandes tempestades, e maus ventos entre elas. Ventos vermelhos vindos de Valíria a cheirar a cinza e a enxofre, e ventos negros que nos empurraram para essa costa maligna. Esta viagem está amaldiçoa­da desde o início. O Olho de Corvo teme-vos, senhor, por que outro motivo vos enviaria para tão longe? Ele não quer que regressemos.

Victarion pensara o mesmo quando deparara com a primeira tem­pestade a um dia de Velha Volantis. Os deuses odeiam assassinos de parentes, matutara, se assim não fosse Euron Olho de Corvo teria morrido uma dúzia de mortes às minhas mãos. Enquanto o mar batia à sua volta e o convés se erguia e caía sob os seus pés, vira o Banquete do Dragão e a Maré Vermelha a serem atirados com tal violência um contra o outro que ambos explodiram em lascas. Obra do meu irmão, pensara. Aqueles tinham sido os primeiros dois navios do seu terço da frota que perdera. Mas não os últimos.

Portanto esbofeteara o Coxo por duas vezes e dissera:

—   O primeiro tabefe é pelos navios que perdeste, o segundo por essa conversa sobre maldições. Volta a falar nisso, e prego-te a língua ao mastro. Se o Olho de Corvo pode criar mudos, eu também posso. — O latejar de dor na sua mão esquerda tornara as palavras mais duras do que poderiam ter sido de outra forma, mas falava a sério. — Mais navios chegarão. As tempestades terminaram por agora. Eu terei a minha frota.

Um macaco em cima do mastro uivara em troça, quase como se conseguisse saborear a sua frustração. Nojento animal barulhento. Podia mandar um homem subir para o apanhar, mas os macacos pareciam gostar desse jogo, e tinham-se demonstrado mais ágeis do que a tripulação. Mas os uivos ressoavam-lhe nos ouvidos, e faziam com que o latejar na sua mão parecesse pior.

—    Cinquenta e quatro — rosnou. Teria sido demasiado esperar ter a força completa da Frota de Ferro depois de uma viagem de uma tal ex­tensão. .. mas o Deus Afogado podia ter-lhe concedido setenta navios, até oitenta. Teria sido bom se tivéssemos conosco o Cabelo-Molhado ou outro sacerdote qualquer. Victarion fizera um sacrifício antes de içar a vela, e voltara a fazê-lo nos Degraus quando dividira a frota em três, mas talvez tives­se proferido as preces erradas. Ou isso, ou o Deus Afogado não tem poder aqui. Cada vez mais, vinha temendo que tivessem velejado até demasiado longe, até mares estranhos onde até os deuses fossem incomuns... mas só confidenciava essas dúvidas à sua mulher sombria, que não tinha língua para as repetir.