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Tantos homens afogados, o Deus Afogado deve ser forte por lá, pensara Victarion, quando escolhera a ilha para que as três partes da sua frota se voltassem a reunir. Mas ele não era nenhum sacerdote. E se tivesse perce­bido tudo ao contrário? Era possível que o Deus Afogado tivesse destruído a ilha em fúria. O irmão Aeron teria sabido, mas o Cabelo-Molhado estava nas Ilhas de Ferro, a pregar contra o Olho de Corvo e o seu domínio. Ne­nhum homem sem deus se pode sentar na Cadeira da Pedra do Mar. No en­tanto, os capitães e reis tinham gritado por Euron na assembleia de homens livres, preferindo-o a Victarion e a outros homens devotos.

O sol da manhã brilhava na água, em ondulações de luz demasia­do brilhante para serem olhadas. A cabeça de Victarion começara a latejar, embora não soubesse dizer se seria do sol, da mão ou das dúvidas que o perturbavam. Dirigiu-se para baixo, para a cabina, onde o ar estava fresco e havia pouca luz. A mulher sombria sabia o que ele queria mesmo sem pedir. Enquanto se instalava na cadeira, ela tirou um suave pano húmido da bacia e pousou-lho na testa.

—   Ótimo — disse. — Ótimo. E agora a mão.

A mulher sombria não respondeu. Euron cortara-lhe a língua antes de lha dar. Victarion não duvidava de que o Olho de Corvo também dormi­ra com ela. Era esse o costume do irmão. Os presentes de Euron estão enve­nenados, fizera o capitão lembrar a si próprio no dia em que a mulher som­bria viera para bordo. Não quero nenhum dos seus restos. Decidira então que lhe cortaria a garganta e a atiraria ao mar, um sacrifício de sangue ao Deus Afogado. Mas, sem que soubesse porquê, nunca se decidira a fazê-lo.

Tinham percorrido um longo caminho desde então. Victarion podia falar com a mulher sombria. Ela nunca tentava responder-lhe.

—    O Desgosto é o último — disse-lhe, enquanto ela lhe descalçava a luva. — Os outros estão perdidos, atrasados ou afundados. — Fez uma careta quando a mulher enfiou a ponta da faca por baixo do linho sujo enrolado em volta da sua mão do escudo. — Haverá quem diga que eu não devia ter dividido a frota. Idiotas. Tínhamos noventa e nove navios... um animal complicado de pastorear mares fora até ao fim mais longínquo do mundo. Se os tivesse mantido juntos, os navios mais rápidos teriam sido mantidos reféns dos mais lentos. E onde se encontram provisões para tan­tas bocas? Nenhum porto quer ter tantos navios de guerra nas suas águas.

As tempestades haviam de nos ter dispersado em quaiquer caso. Como fo­lhas espalhadas pelo Mar do Verão.

Em vez disso dividira a grande írota em esquadrões, e enviara cada um deles por uma rota diferente até à Baía dos Escravos. Entregara ao Raif Vermelho Stonehouse os navios mais rápidos para percorrer a rota dos cor­sários ao longo da costa norte de Sothoryos. Era melhor evitar as cidades mortas que apodreciam nessa costa abrasadora e asfixiante, todos os mari­nheiros o sabiam, mas nas vilas de lama e sangue das Ilhas Basilisco, reple­tas de escravos fugidos, de esclavagistas, de esfoladores, de prostitutas, de caçadores, de homens malhados e de coisas piores, era sempre possível, a homens que não tivessem medo de pagar o preço de ferro, obter provisões.

Os navios maiores, mais pesados e mais lentos, dirigiram-se a Lys, para vender os cativos obtidos nos Escudos, as mulheres e crianças de Vila do Lorde Hewett e de outras ilhas, bem como os homens que tinham de­cidido que preferiam render-se a morrer. Victarion só sentia desprezo por tais fracotes. Mesmo assim, vendê-los deixara-lhe um sabor amargo na boca. Tomar um homem como servo ou uma mulher como esposa de sal, isso estava certo e era digno, mas os homens não eram cabras ou aves de capoeira para serem comprados e vendidos por ouro. Ficou contente por deixar a venda com Raif, o Coxo, que usaria o dinheiro para carregar os seus grandes navios com provisões para a longa e lenta passagem intermé­dia para leste.

Os seus navios tinham-se arrastado ao longo das costas das Terras Disputadas para embarcar comida, vinho e água doce em Volantis antes de virar para sul contornando Valíria. Esse era o rumo mais comum para leste, e aquele que tinha um tráfego mais denso, presas prontas a capturar, e pequenas ilhas onde podiam abrigar-se durante as tempestades, fazer repa­rações e renovar as provisões se necessário.

— Cinquenta e quatro navios não chegam — disse à mulher sombria — mas não posso esperar mais. A única maneira... — Soltou um grunhido quando ela tirou a ligadura, arrancando também uma crosta. A carne por baixo estava verde e negra onde a espada o cortara. — ... a única maneira de fazer isto é apanhar os esclavagistas desprevenidos, como fiz em tempos em Lannisporto. Arremeter vindo do mar e esmagá-los, depois capturar a rapariga e correr para casa antes de os Volantenos caírem sobre nós. — Victarion não era nenhum cobarde, mas tampouco era um idiota; não po­dia derrotar trezentos navios com cinquenta e quatro. — Ela será minha esposa, e tu serás a sua aia. — Uma aia sem língua não podia nunca deixar escapar segredos.

Podia ter dito mais, mas foi então que o meistre chegou, batendo à porta da cabina, tímido como um rato.

—   Entra — gritou Victarion — e tranca a porta. Sabes porque estás

aqui.

—   Senhor capitão. — O meistre também se parecia com um rato, com as suas vestes cinzentas e pequeno bigode castanho. Será que ele julga que isso o faz parecer mais másculo? O nome dele era Kerwin. Era muito novo, talvez com vinte e dois anos. — Posso ver a vossa mão? — perguntou.

Pergunta de tolo. Os meistres tinham a sua utilidade, mas Victarion nada sentia por aquele Kerwin a não ser desprezo. Com as suas lisas boche­chas rosadas, mãos suaves e caracóis castanhos, parecia mais feminino do que muitas raparigas. Quando subira pela primeira vez a bordo do Vitória de Ferro trazia também um sorrisinho afetado, mas uma noite ao largo dos Degraus sorrira ao homem errado e Quellon Humble partira-lhe quatro dos dentes. Não muito tempo depois disso, Kerwin viera ter com o capitão para se queixar de que quatro dos membros da tripulação o tinham arras­tado para as cobertas e o tinham tratado como a uma mulher.

—   Eis como pões fim a isso — dissera-lhe Victarion, batendo com um punhal na mesa entre os dois. Kerwin pegara na lâmina (demasiado temeroso para a recusar, segundo julgava o capitão) mas nunca a usara.

—   A minha mão está aqui — disse Victarion. — Vê tudo o que qui­seres.

O Meistre Kerwin apoiou-se num joelho para melhor inspecionar o ferimento. Até o farejou, como um cão.

—   Vou ter de extrair o pus outra vez. A cor... senhor capitão, o golpe não está a sarar. Pode ser que tenha de vos cortar a mão.

Já antes tinham falado sobre aquilo.

—   Se me cortares a mão, eu mato-te. Mas primeiro ato-te à amurada e dou o teu cu de presente à tripulação. Trata disso.

—   Vai doer.

—   Sempre. — A vida é dor, meu palerma. Não há alegria, a não ser nos salões aquáticos do Deus Afogado. — Trata disso.

O rapaz — era difícil pensar em alguém tão suave e rosado como um homem — levou o fio do punhal à palma do capitão e cortou. O pus que jorrou era espesso e amarelo como leite estragado. A mulher sombria franziu o nariz ao cheiro, o meistre sufocou um vómito, e até o próprio Vic­tarion sentiu o estômago a dar uma volta.