Выбрать главу

De quinze em quinze dias, também, a gente mete a cabeça pela janelinha e um preso, com uma máquina de cortar cabelo, nos corta a barba.

Há três dias que estou aqui. Há uma coisa que me preocupa. Em Royale, meus amigos disseram que me mandariam algo para comer e cigarros. Não recebi coisa alguma. Gostaria de saber, aliás, como eles poderiam fazer tamanho milagre. Por isso, não me surpreendo muito de nada ter recebido. Deve ser muito perigoso fumar; e, de qualquer maneira, seria um luxo. Comer, sim, deve ser considerado vital, porque a sopa do meio-dia é água quente com dois ou três fiapos de folhas de verdura e um pedaço de mais ou menos 100 gramas de carne cozida. De noite, são os feijões w alguns legumes secos que aparecem nadando na água. Para ser franco, desconfio que não é a administração que deixa de nos dar uma refeição razoável e sim os presos que distribuem ou preparam a comida, Essa idéia me ocorre numa noite em que é um sujeito pequeno de Marselha quem está distribuindo os legumes: a concha vai até o fundo do caldeirão e, quando é ele, recebo mais legumes do que água. Com os outros dá-se o contrário: mexem um pouco a mistura, mas enchem a concha na superfície, com pouco legume e muita água. Essa subalimentação é extremamente perigosa. Para ter firmeza de vontade moral é necessária certa força física.

Estão varrendo o corredor, acho que estão varrendo tempo demais diante da minha cela. A vassoura passa insistentemente na base da porta e percebo um pedaço de papel branco aparecendo. Entendo logo que me passaram algo pela soleira mas não puderam passá-lo direito e estão esperando que eu puxe a coisa antes de ir varrer outros lugares. Puxo o papel, abro-o, é um bilhete escrito com tinta fosforescente. Espero que o guarda passe e leio às pressas:

“Papi, todos os dias, a partir de amanhã, você receberá na bacia cinco cigarros e um coquinho. Quando comer o coquinho, mastigue bem para aproveitar e engula o caroço. Fume de manhã, na hora da limpeza das bacias. Nunca fume após o café da manhã, mas pode fumar logo depois da sopa do meio-dia e de noite, quando acabar os legumes. Junto deste bilhete vai papel sobrando e um lápis; quando você quiser algo, peça por escrito. Quando o varredor passar diante da porta, arranhe a porta com os dedos; se ele também arranhar, empurre o seu bilhete. Nunca passe o bilhete antes dele ter respondido ao sinal. Guarde o papel na orelha e o pedaço de lápis em algum lugar num canto da cela, para não serem descobertos. Coragem. Nós te abraçamos. Ignace – Louis”.

Eram Galgani e Dega que estavam me mandando a mensagem. Uma onda de calor me subiu ao pescoço: ter amigos tão fiéis e tão dedicados era algo que me aquecia. Foi com mais fé ainda no futuro e mais seguro ainda de sair vivo desta tumba que recomecei minha caminhada, com passo feliz e alerta: um, dois, três, quatro, cinco, meia volta, etc. Caminhando, penso: que nobreza, que desejo de fazer o bem há nesses homens! É claro que eles se arriscam muito, talvez um arrisque perder o lugar na intendência, o outro o lugar de responsável pela correspondência. É, de fato, grandioso o que eles estão fazendo por mim, sem falar no fato de que lhes deve custar um bocado caro. Quantas pessoas eles precisarão subornar para fazer com que alguma coisa venha de Royale até o meu cubículo na “devoradora de homens”!

Leitor, você precisa ter em mente o fato de que um coquinho seco é cheio de óleo. Sua polpa dura e branca tem tanto óleo, que, se a gente ralar seis coquinhos e deixar na água quente, na manhã seguinte encontrará na superfície 1 litro de óleo. Esse óleo, essa gordura, cheia de vitaminas, é o que de mais importante nos falta no regime alimentar. Um coquinho por dia é quase a saúde assegurada. Pelo menos, não me desidratarei, não morrerei de miséria fisiológica. Hoje completo dois meses nas novas condições, recebendo coquinhos e cigarros. Para fumar, tomo precauções de índio sioux: engulo profundamente a fumaça, depois a ponho para fora aos poucos, abanando com a mão direita aberta como um leque, para que a fumaça desapareça.

Ontem sucedeu uma coisa curiosa. Não sei se agi bem ou mal. Um guarda, na passarela, se deteve junto às grades, olhando para dentro da minha cela. Acendeu um cigarro, deu algumas tragadas e depois deixou-o cair cá para baixo. Depois continuou seu caminho. Esperei que ele tornasse a passar para esmagar ostensivamente o cigarro com meu pé. Ele não se deteve por muito tempo: assim que percebeu meu gesto, prosseguiu sua caminhada. Será que ele teve pena de mim ou vergonha da administração (a qual ele mesmo pertence)? Ou será que era uma armadilha? Não sei e isso me preocupa. Quando a gente sofre, se torna hipersensível. Se, durante alguns segundos, esse guarda quis ser um homem bom, eu não gostaria de tê-lo magoado com meu gesto de desprezo.

Já estou aqui há mais de dois meses. Essa reclusão, a meu ver, é o único lugar onde não se tem nada a aprender. Porque não se pretende ensinar nada. Recorro, portanto, a mim mesmo. Tenho uma tática infalível. Para vagar com intensidade pelas estrelas e ver facilmente aparecerem diferentes etapas, para construir nas nuvens castelos espantosamente sólidos, preciso antes me cansar bastante, preciso caminhar durante várias horas, sem parar, pensando normalmente em alguma coisa, não importa qual. Depois, completamente arrasado, deito-me na cama, ponho a cabeça em cima de metade da coberta e cubro-a com a outra metade. O ar da cela – já por si rarefeito – chega com dificuldade à minha boca e ao meu nariz, filtrado pela coberta. Isso deve provocar uma espécie de asfixia nos meus pulmões e minha cabeça começa a queimar. O calor me sufoca, o ar me falta e – de repente – eu decolo. Ah, essas cavalgadas da alma, que sensações indescritíveis elas me deram! Tive noites de amor realmente mais intensas do que quando estava em liberdade, mais perturbadoras, com sensações ainda mais variadas do que as noites de amor autenticamente vividas no passado. Essa faculdade de viajar no espaço me permite sentar junto de mamãe, morta há dezessete anos. Brinco com o vestido dela e ela me acaricia os cachos dos cabelos, que aos cinco anos eram compridos como se eu fosse uma menina. Acaricio seus dedos longos, tão finos, com pele suave como a seda. Ela ri comigo de meu intrépido impulso de mergulhar no rio, tal como eu vira os outros garotos maiores mergulharem num dia de passeio. Lembro-me dos menores detalhes do seu penteado, da ternura luminosa de seus olhos claros e vivazes. Torno a ouvir suas palavras, doces e inefáveis: “Meu pequeno Riri, você deve ser muito sensato e muito inteligente para que a sua mamãe possa gostar de você durante muito tempo. Mais tarde, você também vai mergulhar no rio de uma altura bem grande. Agora, você ainda é muito pequeno. Espere um pouco, que você não vai demorar a crescer e o dia em que você será grande vai chegar logo, até depressa demais”.

De mãos dadas, caminhando ao longo do rio, voltamos para casa. Vejo-me, de fato, na casa da minha infância. Estou nela de um modo tão concreto, que ponho as minhas duas mãos sobre os olhos de mamãe, para impedi-la de ler a música e de continuar a tocar piano para mim. Não é imaginação, não: estou aqui. Estou trepado numa cadeira, colocada atrás do banquinho onde mamãe está sentada, e escondo resolutamente seus olhos grandes com minhas mãos pequenas. Seus dedos ágeis, contudo, continuam a se mover sobre o teclado e a arrancar-lhe notas para me fazer ouvir a “Viúva Alegre” até o fim.

Nem você, promotor desumano, nem vocês, policiais de duvidosa honestidade, nem Polein, miserável que comprou sua liberdade pelo preço de um falso testemunho, nem os doze palermas do júri, que foram suficientemente cretinos para aceitar a tese da acusação e sua maneira de interpretar as coisas, nem os guardas da reclusão, dignos associados da devoradora de homens, ninguém, absolutamente ninguém, nem os muros grossos, nem a distância em que se acha essa ilha perdida no Atlântico, nada, absolutamente nada, coisa alguma de moral ou material impedirá minhas viagens deliciosamente coloridas pelo tom róseo da felicidade, quando decolo e vôo para as estrelas